Porto Velho (RO) domingo, 25 de agosto de 2019
×
Gente de Opinião

Opinião

Opinião: Tempo de Cachoeiro


 

João Baptista Herkenhoff

Perguntou-me um jovem: “Por que é tão constante a presença de Cachoeiro em tudo que o senhor escreve, professor?” Percebi a honestidade da indagação e respondi: meu jovem, Cachoeiro está na alma.

Talvez eu exagere um pouco nisto de celebrar a Princesa do Sul. Se exagero, peço perdão.

O Doutor Guilherme Costa Travassos, advogado de São Paulo que muito me honra por ser leitor frequente dos meus textos, observou, num recente e-mail, a propósito deste bairrismo exagerado que me contagia:
“Em nossa terra, existem Cachoeiros em grande número.”

De certa forma eu vi, nessa observação, uma delicada advertência. Por este motivo, concordei com o adendo do advogado paulista e disse em resposta:

“Há sim muitos Cachoeiros pelo Brasil afora. E é preciso que isto aconteça porque ninguém ama a Grande Pátria, se não amar primeiro sua Pequena Pátria, seu torrão natal.”

Todo este preâmbulo tem a finalidade de justificar que mais uma vez eu fale de Cachoeiro de Itapemirim neste artigo.

Mas desta feita há uma razão especial: junho é tempo de Cachoeiro porque em junho celebramos o Dia de Cachoeiro. Na mesma frase escrevi duas vezes a palavra Cachoeiro. Não seria razoável que, no final do período, eu escrevesse Dia da Cidade?

Bem. Razoável seria, mas não seria exatamente a mesma coisa. A expressão Dia da Cidade é absolutamente apropriada. Mas quando se trata daquele torrão que se localiza no sul do Espírito Santo, Dia da Cidade é expressão de pouca força. Tem de ser Dia de Cachoeiro mesmo.

Neste ano em que celebramos o centenário de Newton Braga, o criador do Dia de Cachoeiro, Ana Graça Braga de Abreu, irmã do Newton, será a Cachoeirense Ausente Número Um. É uma escolha merecida, justa, inspiradíssima. Eu diria mesmo: uma escolha poética!

No ano 2000 também uma mulher foi consagrada para a homenagem máxima da cidade – a advogada Moema Baptista.

Quando falo em Cachoeiro, vou para as nuvens, eu me perco, esqueço até o vernáculo oficial e rememoro expressões que ouvi no convívio com o povo humilde: Oncotô? Nossinhora! Sinto até dôdistongo. Fico doidimai.

E, de repente, se fico a relembrar a infância, até a lingua do P volta à mente:

O-po-lá-pá,

Mo-po-e-pe-ma-pa

Ba-pa-tis-pis-ta-pa!

Cachoeiro é isso. Cachoeiro revira a cabeça.

Mas para não ficar apenas no “assunto Cachoeiro”, vou aproveitar o gancho do que foi dito acima para expressar minha opinião sobre a chamada linguagem popular, em suposta oposição à linguagem culta.

A linguagem popular é absolutamente legítima e respeitável. É importantíssimo preservar a língua culta. Reverenciar Machado de Assis. Ensinar gramática nas escolas. Cuidar da grafia. Não esquecer a regência. Praticar a concordância verbal. Mas não existe oposição entre a língua culta e o falar do povo. O povo expressa, através da palavra, seus sentimentos, dores, visão do mundo. Os falares regionais, por exemplo, testemunham a grandeza do Brasil. O modo como se exprimem as pessoas comuns, o que dizem as pessoas simples – isso merece palmas de pé.


 

Mais Sobre Opinião

A fogueira das vaidades

A fogueira das vaidades

O que até agora era bravata, “não é insulto, é o jeito dele”

O bom do silêncio

O bom do silêncio

Bolsonaro disse que não adianta exigir dele a postura de estadista, por que não é estadista.

Meu cargo, minha vida

Meu cargo, minha vida

Bolsonaro se revelou um profundo conhecedor da natureza humana

Cada quadrado no seu quadrado

Cada quadrado no seu quadrado

Os argentinos são como são. E não querem nem aceitam conselhos.