Quarta-feira, 14 de setembro de 2011 - 05h35
"As comemorações dos 189 anos da Proclamação da Independência apresentaram neste ano um ingrediente novo e auspicioso. Afora os tradicionais desfiles cívico-militares que como sempre levam multidões às ruas, a lembrança do Grito do Ipiranga serviu também de inspiração para um brado contra a praga da corrupção que corrói as estruturas da máquina pública em todos os seus níveis. Em Brasília, e algumas outras cidades brasileiras, inclusive Curitiba, manifestantes com máscaras, nariz de palhaço e vestidos de preto protestaram contra os desmandos e a impunidade que se tornaram lugar comum no cotidiano da vida do país.
Relevante que tais manifestações tenham ocorrido no Sete de Setembro, uma vez que o sentimento de patriotismo também deve passar pela repulsa às práticas viciadas que unem maus governantes e políticos acostumados aos conchavos e negociatas. Esses, normalmente estimulados pela pouca ou nenhuma cobrança popular, e acobertados pelos acertos de bastidores e interesses corporativos.
Como mudar essa regra perversa entranhada nas instituições públicas é a grande questão que se apresenta; uma tarefa como se sabe de antemão nada fácil e que demandará muita persistência, a começar pelo maior envolvimento da população brasileira na fiscalização e na cobrança pelos atos dos detentores do poder. Justamente por isso, protestos como os que foram vistos no último dia 7 podem ter o condão de despertar no seio da população o sentimento de que é possível acabar com as velhas práticas dominantes; práticas que em última análise apenas servem para sugar os cofres públicos e perpetuar no poder políticos carreiristas.
Essa é justamente a visão do presidente do Conselho Federal da OAB, Ophir Cavalcante, que no protesto contra a corrupção nas ruas de Brasília fez um apelo para que os brasileiros se engajem na luta por um Brasil melhor. A propósito, lembrou o episódio das mobilizações pelas Diretas Já que devolveram o país à normalidade democrática e os protestos que levaram à cassação do presidente Collor de Mello. No âmbito estadual é importante citar a campanha O Paraná Que Queremos, deflagrada pela OAB-PR e que levou às ruas das principais cidades paranaenses milhares de cidadãos indignados com os desmandos na Assembleia Legislativa. O resultado das manifestações foi a adoção de profundas mudanças na estrutura organizacional do Legislativo promovidas pela nova mesa diretora eleita no início do ano.
Uma nova oportunidade para os brasileiros manifestarem sua repulsa à corrupção ocorrerá quando do julgamento dos envolvidos no caso do mensalão, reconhecido como o maior escândalo da história republicana do país. Urdido na cúpula do PT e tendo no ex-ministro José Dirceu o seu mentor, o plano objetivava a compra de apoio parlamentar ao governo do ex-presidente Lula. Através de conluio com bancos e agências de publicidade, o mensalão foi responsável pelo desvio de milhões de reais que abasteceram os caixas de partidos políticos e os bolsos de políticos da base lulista.
Afora o exposto acima, outro bom motivo ao engajamento na luta pela depuração das instituições públicas está no resultado de pesquisa feita pela Federação das Indústrias de São Paulo, mostrando que o custo da corrupção no Brasil chega a R$ 51 bilhões por ano. Toda essa dinheirama que acaba desviada serviria, por exemplo, para construir 918 mil casas populares, para garantir o custo anual de 24,5 milhões de crianças no ensino fundamental ou para construir 39 mil km de rodovias."
Fonte: OAB (O editorial "O grito contra a corrupção" foi publicado na edição de ontem (13) do jornal Gazeta do Povo-PR)
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