Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

OPINIÃO JURÍDICA: Justiça sem privilégios



O artigo "Justiça sem privilégios" é de autoria do presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, e foi publicado na edição de hoje (18) do jornal Correio Braziliense: 

"O foro privilegiado, que garante aos governantes julgamento nos tribunais de Justiça ou cortes superiores, conforme seu grau hierárquico, deve sofrer temperamentos que o compatibilizem, na essência, com o disposto no artigo 5º da Constituição, que estabelece que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer espécie . 

Há, porém, argumentos de que, suprimindo-o por completo, seria problemático atrair quadros de gabarito para a administração pública. A sociedade do espetáculo, marca dos tempos modernos, expõe o homem público a ações midiáticas, que poderiam mobilizar juízes em busca de afirmação na carreira ou mesmo induzir adversários políticos a vinganças pessoais.

Isso inibiria os bons, mas não os aventureiros. Um ex-chefe de governo, que em sua administração contraria interesses poderosos e sabemos que governar é também contrariar , estaria exposto a vinditas, que o poderiam levar a responder a processos simultâneos em diversas partes do país.

O sentido, pois, é o de que é preciso proteger essas autoridades contra pressões que possam inibir o pleno exercício da função. Nesses termos e num círculo estrito de autoridades ex-presidentes e ex-governadores , o argumento é assimilável. Hoje, porém, funciona também para parlamentares e para um sem número de autoridades e há, ainda, proposta de emenda constitucional no Congresso que pretende ampliar sua abrangência, beneficiando ex-prefeitos e vereadores. É inaceitável.

Em quase todos os países que o adotam, o foro especial por prerrogativa de função é restrito e abrange apenas processos criminais. Ações por improbidade administrativa, conforme vasta jurisprudência, inclusive dos tribunais superiores, são de natureza civil. A inovação pretendida não é compatível com o verdadeiro sentido de justiça, sobretudo em face da sucessão de escândalos que assolam o país. Seria mais um estímulo à impunidade.

Houve tentativa anterior, felizmente sem êxito, de estendê-la para o processo civil. Na ocasião, o ministro Sepúlveda Pertence sustentou que, na ação de improbidade, não se cuida de demanda de competência penal, o que impossibilita somá-la à competência originária do Supremo, que é exclusivamente constitucional.

O congestionamento dos tribunais é outro efeito colateral danoso. Se ampliado o foro, teríamos, a cada quatro anos, nada menos que 5.560 ex-prefeitos em todo o país potencialmente a ele destinados. E há apenas 27 tribunais estaduais e cinco regionais federais para julgamentos de ações criminais e de improbidade.

Transferir para os tribunais a instrução e julgamento de ações por improbidade significa, na prática, agravar situação já caótica: maior atraso nos julgamentos e aumento da impunidade.

Mas a questão não é operacional: é essencialmente moral. O foro privilegiado interfere na proximidade entre o juiz e o fato e dificulta a busca da verdade e a justiça da decisão.

Argumenta-se que, correndo a ação em foro único, o julgamento seria mais rápido. De fato. Mas seria único, o que para o próprio réu seria adverso, já que não disporia de qualquer grau de recurso. O devido processo legal oferece a garantia de revisão da sentença. Se cumprido, garante a produção de justiça, sem necessidade de privilégios de qualquer ordem". 

Fonte: OAB / Conselho Federal

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

A cultura do colete salva-vidas

A cultura do colete salva-vidas

          Eu não sei nadar. Consigo, sem problemas, entrar numa piscina para me divertir. Mas se for num grande volume de água, como um lago, o rio

Mutilação genital feminina

Mutilação genital feminina

O Martírio silencioso e a Urgência de ver e atuar Um relógio humano marca, a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo. Este não

Acabar o Bolsa Família, por quê?

Acabar o Bolsa Família, por quê?

         A sociedade brasileira é uma das mais injustas do mundo quando o assunto é política econômica. Aqui se tem uma das maiores desigualdades so

Lava-jato é café pequeno perto do escândalo do Banco Master

Lava-jato é café pequeno perto do escândalo do Banco Master

Aí do homem por quem vem o escândalo! Essa passagem está no livro de Mateus, 18,7. Segundo estudiosos da Bíblia, esse “Aí” significa lamento, triste

Gente de Opinião Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)