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OPINIÃO: Filmes de Julien Duvivier


Guido Bilharinho

Desenvolvida de 1927 a 1967, é das mais longas a carreira cinematográfica de Julien Duvivier (França, 1896-1967).

Nem por isso, com isso ou apesar disso, apresenta filmes consistentes ou criativos. Suas marcas relevantes são convencionalismo, linearidade e naturalismo, que significam absoluta submissão à estória, cingindo-se seu objetivo à narrativa de fatos e acontecimentos.

Não obstante tais características, evidenciam-se pelo menos duas qualidades gerais, comuns e permanentes em sua obra e alguns aspectos isolados merecedores de destaque.

A primeira traduz-se na faculdade (e facilidade) de articulação das ocorrências, interligadas por lógica interna que as reúne e une fluente e ritmadamente, permitindo cadenciamento e homogeneidade narrativa. Além disso, ressalta-se a composição ambiental, seja onde estiver agindo suas personagens: na Casbah da capital da Argélia, em O Demônio da Argélia (Pépé-le-Moko, França, 1937), em que os décors internos e as locações externas inter-influenciam-se e complementam-se, situando e enquadrando as personagens, que se integram ao espaço, infundindo-lhe vida e dinamismo; nos esconsos ambientes e no bar de A Cabeça de Um Homem (La Tête d’Un Homme, França, 1932), nos quais os figurantes movimentam-se com a naturalidade própria de vivência espontânea; nos diversificados locais focalizados em La Bandera (Idem, França, 1935), cuja ação, em seu desenvolvimento, abarca o baixo-mundo de Barcelona, na Espanha, a existência na Legião Estrangeira e a vivência feminina no Marrocos, ressaltando-se, nesse contexto, sua posição anti-racista, a humanização das personagens femininas, o caráter colonialista das tropas legionárias e a tentativa de elevar a plano heróico sua atuação, além da presença da famosa Annabella; ou, ainda, na Paris de Sinfonia de Uma Cidade (Sous le Ciel de Paris, França, 1950), em que a inserção das personagens no contexto urbano e social transmite a impressão de verismo documental, que, em certo sentido, não deixa de ter e ser, tal a identificação entre esses elementos.

Tudo isso sem prejuízo do tecido novelesco, finalidade da realização fílmica, constituindo seu segundo atributo.

Segundo James Reid Paris (in The Great French Films. Secaucus, N.J./EE.UU., The Citadel Press, 1983, p.74), Jean Renoir teria afirmado ser Duvivier “this great technician, this precisionist, was a poet”.

Todavia, se foi grande técnico - e foi - não se pode dizer o mesmo dos demais aspectos indicados por Renoir.

As qualidades que se detectam em sua obra - acima especificadas - decorrem de seu domínio da mise-en-scène, nada tendo de especial e menos ainda de poético. Até pelo contrário. Sua intervenção imagética na paisagem e no cotidiano das personagens é seca e direta, destituída de aura poética, submetidas que são (pessoas e natureza) às necessidades e práticas da vida, preponderando em tudo (e sobretudo) a imposição do conteúdo narrativo (a estória) e não seu modo e forma.

A característica, pois, de sua atividade e obra é essa tecnalidade artesanal, que torna seus filmes apenas palatáveis, ressalvados os aspectos salientados, notadamente o registro documental, que deverá ser o responsável por sua permanente recepção e, quiçá, eternização.

A respeito de A Cabeça de Um Homem, baseado em romance policial de Georges Simenon, cumpre destacar a diferença do método desse autor com o de Agatha Christie.

Enquanto esta sonega ao leitor informações indispensáveis à descoberta dos autores de crimes, pelo que, com exceção da peça A Ratoeira (The Mousetrap, de 1954), torna-se impossível identificá-los, Simenon parte, pelo menos no romance em tela e em vários outros, do caminho oposto. De plano, já indica quem são o assassino, a vítima e o móvel do crime. A tessitura da trama desenvolve-se, então, na revelação dos fatos e ilações deles tiradas pelo Inspetor Maigret.

Observa-se, no caso, o vezo de se atribuir o ato criminoso a estrangeiro. Para certos tipos de pessoas, são sempre eles os culpados ou pelo menos os maiores culpados por crimes que se cometem em seu país.

E de se atentar, ainda, para evitar confusão, ocorrida até mesmo em dicionários de cinema, para as similitudes de títulos entre Sinfonia de Uma Cidade e Sinfonia em Paris (An American in Paris, EE.UU., 1950, de Vincente Minnelli), e entre Sous le Ciel de Paris e Sous les Toits de Paris (Sob os Tetos de Paris, França, 1930), de René Clair.

(do livro O Filme Dramático Europeu, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2010-www.institutotriangulino.wordpress.com)

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Fonte: Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, foi candidato ao Senado Federal e editor da revista internacional de poesia Dimensão, sendo autor de livros de literatura, cinema e história regional.


 

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