Sexta-feira, 2 de abril de 2010 - 22h34
Esta semana gostaria de escrever sobre as promessas dos políticos, que repetirão como todo o tempo que estão na política; ou sobre a posição da maioria da imprensa ao condenar o uso das pulseirinhas indicativas do que o jovem está a fim, quase a justificar a correção dos quatro rapazes ao estuprarem a jovem em Londrina; e optei por escrever sobre o décimo Big Brother Brasil, o já famoso BBB.
Inicialmente existe a dificuldade em dissertar sobre um vácuo, em termos do que se pretende com um reality show. Eles começaram com o “No Limite”, com a característica principal o massacre literal dos participantes forçando a comerem coisas exóticas, forçando-se a boa educação. Olho cru de ovelha foi inesquecível e um dos menos graves. Testículo de carneiro, outra preciosidade que marcará eternamente. Afora os maus tratos físicos. Era uma verdadeira tortura com disfarce de programa. A grosseria ao extremo cedeu, a superficialidade é da essência desse tipo de programa.
Não existe uma razão para a escolha dos candidatos e nem uma finalidade objetiva para o programa. Trancafiam pessoas numa casa, cerceiam o acesso ao mundo externo, e passam à transmissão 24h por dia a pilha em que cada um se transforma para o delírio geral da nação.
Depois desse preparo, passa-se à exposição de bundas e seios, uma das marcas maiores da cultura nacional; palavrões, sem corte, barracos, simulação ou sexo nos edredons. Tudo normal se não fosse vendido como algo importante, se não fosse comprado e acompanhado como relevante, com direito a torcida, apostas, entrevistas e participação de pessoas famosas. Estranho até as ausências da mais carnavalesca ministra e do governador-sambista.
Além desse conteúdo, o mais comum e que aumenta a audiência são as ações desleais, denominadas de “jogadas”, quando não passam de atitudes de quem, no mínimo, teve uma má formação. Jogar é uma coisa; ser desleal é outra.
Divulga-se o tamanho do prêmio, efetivamente estrondoso. Mas ninguém da imprensa analítica faz comparação ao tamanho da premiação e do tempo com o “Soletrando”, única seção de um programa que trata diretamente de educação. Na mesma proporção do marketing do prêmio é o silêncio sobre o montante arrecadado. Também não sai uma linha escrita sobre quanto rende cem milhões de ligações. Nem um palpite de matemáticos que medem as chances de acertar uma mega-sena.
Não assistir não exime ninguém de tomar conhecimento do programa. Todo saite que se abre na internet, vem a composição do paredão, quem escapou e quem foi o defenestrado da semana. Antes da vitória do Dourado, a melhor, ou única coisa positiva desses realitys shows era a vitória dos jecas, daqueles que agiam com companheirismo, compreensão e civilidade. Agora, premiaram a grosseria a pretexto de que ele foi “ele mesmo”, como se isso não fosse básico, elementar, nada que merecesse premiação. Mas qualquer um que vencesse não acrescentaria nada, absolutamente nada, a quem quer que seja.
Mesmo esse show de nada poderia ser menos pior. Bastaria fazer algumas provas de conhecimento geral ou sobre alguns temas educativos. Uma disputa em jogo de dama ou xadrez teria ensinado a muita gente. Colocar algumas palavras para dizerem o significado, fazer algum exercício de matemática. Essas questões poderiam diminuir a audiência, mas traria benefício. Algo de positivo é preciso trazer à população. Outro probleminha, é que não vinha tarja com indicativo para qual idade era apropriado. Isso a audiência da TV Globo explica.
Os realitys shows se multiplicaram, todos pagam prêmios muito altos, arrecadam centenas de milhões a mais, tem uma variedade imensa de mau gosto e quantidade de ligações comprova que o brasileiro só participa demais do vazio.
Fonte: Pedro Cardoso da Costa
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