Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

Opinião: A lei e os dramas humanos


 

João Baptista Herkenhoff

Em outros tempos o cidadão comum supunha que o território do Direito e da Justiça fosse cercado por um muro. Só os iniciados – os que tinham consentimento dos potentados – poderiam atravessar a muralha. O avanço da cidadania, nos últimos tempos de Brasil, modificou substancialmente este panorama.

O mundo do Direito não é apenas o mundo dos advogados e outros profissionais da seara jurídica. Todas as pessoas, de alguma forma, acabam envolvidas nisto que poderíamos chamar de "universo jurídico". Daí a legitimidade da participação do povo nessa esfera da vida social.

Cidadãos ou profissionais, todos estamos dentro dessa nau. De minha parte foi como profissional que fiz a viagem. Comecei como advogado, integrei depois o Ministério Público. Após cumprir o rito de passagem, vim a ser Juiz de Direito porque a magistratura era mesmo o meu destino. Eu seria juiz no Espírito Santo, como juiz foi, não no Espírito Santo, meu avô pernambucano – Pedro Carneiro Estellita Lins. Esse avô, estudioso e doce, exerceu tamanho fascínio sobre mim que determinou a escolha profissional que fiz.

Meu caminho, nas sendas do Direito, foi marcado de sofrimento em razão de conflitos íntimos.

Sempre aprendi que o juiz está submetido à lei. E continuo seguro de que este princípio é verdadeiro. Abolíssemos a lei como limitação do poder e estaria instaurado o regime do arbítrio.

Não obstante a aceitação de que o "regime de legalidade" é uma conquista do Direito e da Cultura, esta premissa não deve conduzir à conclusão de que os juízes devam devotar à lei um culto idólatra.

Uma coisa é a lei abstrata e geral. Outra coisa é o caso concreto, dentro do qual se situa a condição humana.

À face do caso concreto a difícil missão do juiz é trabalhar com a lei para que prevaleça a Justiça.

Não foram apenas os livros que me ensinaram esta lição, mas também a vida, a dramaticidade de muitas situações.

Há uma hierarquia de valores a ser observada.

Não é num passe de mágica que se faz a travessia da lei ao Direito. Muito pelo contrário, o caminho é difícil. Exige critério, sensibilidade e ampla cultura geral ao lado da cultura simplesmente jurídica.

O jurista não lida com pedras de um xadrez, mas com pessoas, dramas e angústias humanas. Não é através do manejo dos silogismos que se desvenda o Direito, tantas vezes escondido nas roupagens da lei. O olhar do verdadeiro jurista vai muito além dos silogismos.

Da mesma forma que os cidadãos em geral não podem fechar os olhos para as coisas do Direito, o estudioso do Direito não pode limitar-se ao estreito limite das questões jurídicas. O jurista que só conhece Direito acaba por ter do próprio Direito uma visão defeituosa e fragmentada.
Estamos num mundo de intercâmbio, diálogo, debate.

Se quisermos servir ao bem comum, contribuir com o nosso saber para o avanço da sociedade, impõe-se que abramos nosso espírito a uma curiosidade variada e universal.

 

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 28 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Câmara Municipal de Porto Velho sofre revés financeiro

Câmara Municipal de Porto Velho sofre revés financeiro

A Câmara Municipal de Porto Velho a caba de sofrer um revés financeiro. A prefeitura teria discordado dos dados populacionais e, com base em informa

Campanha eleitoral não é guerra civil

Campanha eleitoral não é guerra civil

Não há donos da Democracia como quereriam regimes autoritários No FB circulam os seguintes dizeres: “Em vez de cantarmos: "contra os canhões, marc

A suposta "crise" nas faculdades de medicina e a estratégia do CFM para assumir competências do MEC e impor o exame caça-níqueis da OAB para médicos

A suposta "crise" nas faculdades de medicina e a estratégia do CFM para assumir competências do MEC e impor o exame caça-níqueis da OAB para médicos

O noticiário que ocupou as primeiras páginas dos jornais brasileiros: Conselho Federal de Medicina quer barrar atuação de cerca de 13.000 médicos que

A importância de se criar o Conselho de Assistência Médica

A importância de se criar o Conselho de Assistência Médica

O Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores Públicos do Município de Porto Velho (IPAM) possui o Conselho de Previdência, um órgão coleg

Gente de Opinião Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)