Porto Velho (RO) quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
×
Gente de Opinião

Opinião

O juiz, a imprensa, o mensalão


O juiz, a imprensa, o mensalão - Gente de Opinião 
João Baptista Herkenhoff


Este artigo não se refere a pessoas, mas sim a princípios jurídicos. Suponho que a reflexão sobre esses princípios será proveitosa, especialmente na semana em que algumas vozes pretendem, de maneira equivocada, julgar moralmente o Ministro Celso de Mello, a partir de seu voto de desempate no chamado processo do Mensalão.

Os princípios são aplicáveis hoje, como foram aplicáveis ontem e serão aplicáveis amanhã.

Tentarei elencar alguns princípios que constituem a essência do Direito numa sociedade democrática.

1. Jamais o alarido da imprensa deve afastar o magistrado da obrigação de julgar segundo sua consciência. Ainda que a multidão grite Barrabás, o magistrado incorruptível caminhará sereno através da corrente ruidosa e, se não estiver plenamente convencido da culpa do acusado, proferirá sentença de absolvição. Da mesma forma, se as ruas gritarem “inocente”, o magistrado reto e probo condenará, se a consciência lhe apontar o veredicto condenatório como o justo à face do caso.

2. O princípio de que, no processo criminal, a dúvida beneficia o réu permanece de pé. Resume-se nesta frase latina: “In dubio pro reo”. É melhor absolver mil culpados do que condenar um inocente.

3. A condenação criminal exige provas. Não se pode basear em ilações, inferências, encadeamento de hipóteses, presunções, suposições. Mesmo que o juiz esteja subjetivamente convencido da culpa, não lhe é lícito condenar se não houver nos autos prova evidente da culpabilidade.

4. No estado democrático de direito todos têm direito a um julgamento justo pelos tribunais. Observe-se a abrangência do pronome “todos”: ninguém fica de fora. Este princípio persevera em qualquer situação, não cabendo excepcioná-lo à face de determinadas contingências de um momento histórico.

5. Todo magistrado carrega, na sua mente, uma ideologia. Não há magistrados ideologicamente neutros. A suposta neutralidade ideológica das cortes é uma hipocrisia. Espera-se, porém, como exigência ética, que a ideologia não afaste o magistrado do dever de julgar segundo critérios de Justiça.

João Baptista Herkenhoff, 77 anos, é Juiz de Direito aposentado, palestrante e escritor. Seu mais recente livro tem este título: Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves. (GZ Editora, Rio de Janeiro). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

Mais Sobre Opinião

O tribunal europeu (TEDH) dá andamento à queixa "Acção Climática" das crianças portuguesas + Restauração de Portugal independente

O tribunal europeu (TEDH) dá andamento à queixa "Acção Climática" das crianças portuguesas + Restauração de Portugal independente

O TRIBUNAL EUROPEU (TEDH) DÁ ANDAMENTO À  QUEIXA “ACÇÃO CLIMÁTICA” DAS CRIANÇAS PORTUGUESASNo rescaldo de Pedrogão Grande onde o Fogo matou 110 Pessoa

Começou a batalha pela presidência da Câmara em Porto Velho

Começou a batalha pela presidência da Câmara em Porto Velho

Acirra-se a briga pela presidência da Câmara Municipal de Porto Velho. O atual presidente Edwilson Negreiros está articulando um grupo forte para gara

Sua Excelência a abstenção

Sua Excelência a abstenção

Independente de quem saía consagrado das urnas no segundo turno do pleito para a prefeitura de Porto Velho (Hildon Chaves ou Cristiane Lopes), certo

A cidade foi a grande ausente no debate

A cidade foi a grande ausente no debate

Se o Ibope estiver certo em sua aferição, o prefeito Hildon Chaves (PSDB) vai permanecer por mais quatro anos no comando do município de Porto Velho