Quarta-feira, 4 de setembro de 2013 - 07h11
Por Humberto Pinho da Silva
Estou sentado numa cafetaria, aberta para o mar azul. A praia está movimentada. Um avião rasga o céu e deixa longo risco branco, que contrasta com o azul luminoso da abobada celeste. Tudo está coberto de sol.
Diante da minha mesa, encontra-se um velho. Rosto enegrecido no mar, sulcado de pregas profundas. Cabelo raro e grisalho. Sobranceiras negras e densas. Olhos de azul porcelana, vivos e encovados.
Atraído pelo meu olhar, encara-me, e num rouco murmúrio, diz-me:
- Está um bonito dia!
- De Verão! Dos verões da minha juventude! - respondi.
Em breve vizinha-se da minha cadeira, tentando dialogar:
Toda a vida foi no mar. Viu morrer muitos, sem puder socorrer.
Foi vida de trabalho. - “ Quarenta anos a labutar!” – confessa.
A conversa estava interessante:
Fora pescador. Andou nas barcas poveiras. Conhecera a fome, quando o mar recusava o peixe. Criou filhos. Deu-lhes muito amor, já que pouco mais havia para dar.
Andou em África, na guerra. Viu terroristas. Não sabe se matou.
Agora vive da reforma. Pensão modestíssima.
Arrepende-se de não ter ido para França - “ Lá sim, na Europa, o trabalho é recompensado!”.
Confessa que chorou, quando os filhos partiram. Foram todos. Mas que havia de fazer?!
Portugal é ingrato. - “ Quando é, que trabalhador, aqui na Póvoa, pescador, como eu, pode ter: casa, automóvel, dinheiro no banco e ir passar férias no Algarve? “ - pergunta.
Não soube responder.
Este velho, de pele enrugada, lábios sumidos, é a imagem de milhares, milhões de portugueses, que envelheceram a trabalhar, para receberem minguas reformas.
Também eu, pouco mais novo, mas velho para emigrar, lamento não ter partido.
A minha geração nasceu num país pobre, onde se considerava que ter: herdade, fábrica ou loja comercial, era ser rico. Que digo eu? Milionário.
Fomos levados, à força, para a guerra. Guerra, que diziam estar ganha; mas que a política deu-nos a derrota.
Com o fim do conflito, conquistamos liberdade, e a ilusão de sermos país a nível europeu.
Puro engano! Se outrora os jovens saíam para ganhar o pão, que a Pátria negava; agora saem às catadupas, desesperados, deixando pais no desemprego, e avós com pensões, que ano a ano, se reduzem, graças à inflação e aos descontos sucessivos. O último corte será de 10%. Será o último?
Dizem-me que foi para pagar o progresso: as autoestradas, os estádios de futebol, as infraestruturas, que tornaram o velho Portugal, num país do primeiro mundo.
Preferia, que não houvesse tantas autoestradas; que os clubes desportivos tivessem estádios modestos; que não houvesse tantos projetos megalómanos; tanto luxo.
Preferia viver tranquilamente, sem o sobressalto de não conhecer: se os novos têm velhice garantida, e os velhos fim de vida sossegada.
Este velho, que encontrei na esplanada poveira, virada para o mar, recordou-me a sina dos portugueses: sempre eternos judeus errantes, em busca do sustento da família.
Fado que atravessa a História. Fado que nos acompanha, séculos e séculos.
Tivemos impérios. Tivemos reinos em África. Tivemos terras sem fim, no Brasil. Chegamos à Ásia, à Oceânia. Tivemos elites riquíssimas, mas sempre, sempre, o povo trabalhador, foi pobre. Sempre teve que abandonar a Pátria querida.
Ambição? Necessidade? Ambas; mas sempre a precisão de abalar, fugir da aldeia onde nasceram, da vila onde estudaram, da cidade que lhes negou trabalho, e justa recompensa.
Estamos em Agosto. Póvoa do Varzim transformou-se em centro cosmopolita. Na Avenida dos Banhos, escutam-se todas as línguas. Os hotéis encontram-se repletos. São estrangeiros que nos visitam ou emigrantes?
São poveiros que regressam, acicatados pela saudade: pelo torrão natal, pela família que deixaram, pelo amor que nutrem por essa bonita e encantadora cidade. O maior e melhor centro turístico do Norte de Portugal.
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