Porto Velho (RO) sábado, 24 de agosto de 2019
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Jolindo Martins, um médico-símbolo



João Baptista Herkenhoff

Não me agradam as celebridades que surgem da noite para o dia, com gosto de coca-cola, tão evidente é o apelo de mercado com que foram produzidas.
São Francisco de Assis, em plano mundial, e Betinho, o Profeta contra a Fome, em plano nacional, são as celebridades que mais me cativam.

No Espírito Santo, eu me curvo diante de muitas celebridades. Uma dessas foi o Doutor Jolindo Martins.

Está sendo lançada, em Vitória, na Biblioteca Pública Estadual, a biografia de Jolindo Martins, escrita por Andréia Curry Carneiro.

Antes de falar sobre o livro, convém destacar o belíssimo trabalho que a Biblioteca Pública está realizando, não apenas abrindo os livros para o povo, como é da tradição das bibliotecas, mas também promovendo debates.

Está de parabéns toda a equipe que vem fazendo de nossa mais antiga Biblioteca um espaço de reflexão e sadio congraçamento cultural, sob a liderança de Nádia Alcure Campos Costa.

Um povo só tem futuro se aprende a cultivar o passado. Memória é cidadania. Merece aplausos Antônio de Pádua Gurgel que, com ajuda de uma equipe de pesquisadores, vem biografando figuras-símbolos do nosso Estado. As vidas escolhidas representam muitas outras.

O caminho de resgatar o passado através de biografias parece-me acertado: homens e mulheres é que são os construtores da História.

Jolindo Martins foi um paradigma, como médico, como pediatra, como cidadão, como ser humano, foi aquele que sonhou com um Brasil mais justo, “se a criança votasse” (titulo de um livro seu).

Se me perguntarem qual é a mais bela especialização da Medicina, respondo sem pestanejar: a Pediatria.

A família espera do pediatra que, além de profissional, ele seja amigo, confidente, solidário, pronto para proporcionar conforto moral em qualquer situação. O pediatra é responsável pelo bem mais precioso que alguém pode ter: um filho, e mais que um filho, um filho pequenino, uma criança. Não é só ciência que se pede ao pediatra, mas também vínculo afetivo. Em situações de perigo, o médico é a última esperança e, acima dele, somente Deus. Se todo médico tem obrigação de ouvir, o pediatra tem redobrada obrigação de ouvir, ouvir tantas vezes quantas seja necessário, ouvir um mesmo apelo, uma mesma pergunta dita de várias formas diferentes.

Se o Juramento de Hipócrates deve acompanhar o médico, no seu cotidiano, no caso do pediatra, o Juramento de Hipócrates deve ser pronunciado de joelhos.

Foi de joelhos que Jolindo Martins proferiu seu Juramento e foi de joelhos que exerceu a Medicina, com a alma reverente a Deus, debruçado sobre a criança que pedia seu socorro.

Nesta vida que já vai adiantada, sofri nove cirurgias. No Brasil, na França, nos Estados Unidos. Quase todas sob anestesia geral. Sempre houve perda de sangue, tive de receber transfusão.

Nos Estados Unidos, antes de começar a cirurgia, o médico preveniu-me que seis acidentes poderiam ocorrer durante o procedimento. Se sobreviesse qualquer deles, o resultado seria minha morte.

Ato contínuo, meu coração disparou, a pulsação entrou em ritmo meteórico e o médico, chefe da equipe, estranhou, comentando com os colegas as repentinas alterações ocorridas com o paciente. Depois das advertências, indagou se eu queria mesmo ser operado. Respondi que sim, que eu estava confiante que tudo iria dar certo. Fui então anestesiado.

Fiquei sabendo depois que essa conduta é de praxe nos Estados Unidos. Os médicos temem condenações judiciais que possam decorrer de acidentes cirúrgicos. A advertência exime de culpa o profissional envolvido e também o hospital.

Tecnicamente isso pode estar certo. Juridicamente isso pode ser compreensível. Mas sob o aspecto humano tais advertências, pouco antes da cirurgia, são de todo inaceitáveis.

A rememoração do episódio coloca em meu espírito o tema da humanização da Medicina. A Medicina, como o Direito, não é só técnica e ciência, mas humanismo também.

Os fatores psicológicos são decisivos no aparecimento e na cura das doenças. Daí ser indispensável que haja comunicação humana, cuidadosa, fraterna entre os profissionais da saúde e os doentes entregues a seu zelo.

É verdade que nos serviços de saúde pública as filas imensas, em contraste com os poucos médicos disponíveis, tornam bem difícil o contato pessoal. Mas, mesmo assim, com boa vontade, parte dos óbices podem ser superados, como Jolindo Martins superou.

Impõe-se através de políticas públicas sérias e de uma autêntica revolução cultural, que a Medicina seja profundamente humana. Não só os médicos devem estar preparados para esse toque de humanismo, mas também o pessoal auxiliar.


 

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