Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de agosto de 2018
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IRONI ANDRADE E A LÍNGUA PORTUGUESA


Entrevista com o professor de Língua Portuguesa, Redação e Oratória IRONI ANDRADE

O entrevistado, professor Ironi Andrade, é natural de Arvorezinha, estado do Rio Grande do Sul. Concluiu o ensino primário aos 12 anos. Depois disso, haja vista seus pais não poderem custear seus estudos, mantendo-o na cidade, dedicou-se à agricultura até os 17 anos.

Com essa idade, prestou exame de admissão ao ginásio e foi estudar em Estrela, também no Rio Grande do Sul. Lá, cursou a escola normal e o técnico agrícola. Ao final desses estudos, e como a reforma do ensino fez com que desaparecessem os professores com aquele tipo de formação, ele prestou exames ao ensino supletivo, na época Madureza Ginasial. Eliminou todas as matérias numa vez só. Em exatamente 30 dias, concluiu o segundo grau, hoje ensino médio.

Aí, prestou vestibular para Agronomia. Aprovado, não pôde cursar, porque seus pais não podiam pagar uma faculdade. Fez vestibular para Letras e, com o próprio trabalho, pagou seus próprios estudos.

Especializou-se, depois, em Língua Portuguesa, em Redação, em Literatura Brasileira e em Oratória.

Formou-se, bem mais tarde, em Direito e, hoje, atua em ambos os campos com a mesma desenvoltura e competência.

Já ministrou 120 cursos de Oratória, disciplina que implantou na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em nível de extensão universitária.

Sempre na ânsia de divulgar o idioma, escreve para vários jornais e várias revistas e mantém, diariamente, Dicas de Português na RBS TV, emissora de televisão do conglomerado Rede Brasil Sul de Comunicações.

Tem ministrado treinamentos em tribunais de todo o Brasil, ora a servidores da justiça, ora a juízes. Especializou-se, especialmente, em redação de sentenças.

Palestrante admirável, é disputadíssimo em praticamente todos os estados brasileiros e em vários países estrangeiros.

É comendador pela Associação dos Jornalistas do Brasil, grau Comunicação Social, e recebeu o Prêmio Competência três vezes consecutivas por ser considerado o melhor professor do Rio Grande do Sul.

Professor da Escola Superior da Magistratura, é ex-presidente do Comitê Pró-Implantação do Idioma Oficial do Mercosul, no qual coordenou uma equipe de estudiosos do Brasil, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e do Chile.

Ex-presidente da Academia Passo-Fundense de Letras, foi apresentador, por um ano e meio, de programa diário sobre o Idioma Pátrio na televisão por cabo.

Orgulha-se muito e, também, se emociona ao lembrar que existe, na cidade de Campo Grande, Estado do Mato Grosso do Sul, um Clube de Oratória denominado 'Clube de Oratória Prof. Ironi Andrade'.

Sim, amigos internautas, esse é um brevíssimo resumo da biografia de nosso entrevistado. E vejam que entrevista!

Em mais uma das suas contribuições à nação, através de seus cursos, dessa vez em Porto Velho/RO, direcionado aos empregados da Centrais Elétrica de Rondônia S.A – CERON, o Professor Ironi Andrande, do alto da sua humildade, concedeu-nos esta maravilhosa e esclarecedora entrevista, que agora tenho orgulho de compartilhar vocês. Bom proveito.

Sérgio Ramos – Qual a importância do idioma para um país?
Professor IRONI ANDRADE – Em primeiro lugar, temos que destacar o fato de que o idioma, em todos os países, é um símbolo pátrio por excelência. A primeira importância está justamente aí: o fato de o idioma ser um símbolo pátrio por excelência. Enquanto a bandeira e o hino são símbolos instituídos (e impostos) por lei, e por isso mesmo menores, o idioma é símbolo pela própria natureza. Todos os grandes pensadores, aliás, defendem a teoria de que o idioma é o símbolo pátrio por excelência. Se é verdade que nós morreríamos pela pátria, nós teríamos que morrer também pela defesa do idioma. É verdade sim que nós temos que defender o idioma com defendemos nossa pátria, nossos amigos, nossa própria família. Em segundo lugar, o idioma é importante para qualquer país, especialmente para o Brasil, porque é o elemento agregador numa extensão territorial imensa, de regiões distantes e, de certa forma, desagregadas. Se existem algumas diferenças, algumas características regionais que fazem com que o Norte fale um pouco diferente do Sul; o Sul um pouco diferente do Nordeste; que a região mais central do Brasil seja um ponto de equilíbrio; a verdade é que todos os brasileiros se sentem irmanados, ligados, unidos. E o elemento que liga toda essa gente, nesse território imenso, é exatamente a língua que praticamos. E, por fim, o que seria de nós sem o domínio do nosso idioma? O que seria de nossa pátria, sem as leis, os regulamentos, enfim, sem nada escrito, se o que é escrito é o que de fato vale? Por esses, e muitos outros, motivos é que o idioma é o símbolo mais importante em qualquer país, e para todos os povos.

SÉRGIO RAMOS – Como seria o Brasil se nossos governantes, legisladores e juízes tivessem domínio pleno do idioma, da Língua Portuguesa?
Professor IRONI ANDRADE
– Em primeiro lugar, e um ponto altamente relevante, seria, com certeza, o do exemplo. Se as autoridades máximas do país, como tu falas, tivessem um desempenho lingüístico exemplar, seriam exemplos. Porque eu acho muito interessante este fato: prega-se que todo ídolo da música, do esporte deve ter um comportamento escorreito para servir de exemplo para a população. E o que dizer das autoridades constituídas? Começaria que, do Congresso Nacional, sairiam leis, por exemplo, mais bem acabadas, textos menos confusos, de mais fácil compreensão e, conseqüentemente, de mais fácil assimilação por parte de todos os brasileiros. De mais a mais, pessoas cultas são um pressuposto indispensável para a arrancada rumo ao verdadeiro progresso. As pessoas, seguidamente, me perguntam: por que, em países como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, o progresso é tão notável? E aí eu sempre lembro de citar, dentre outras causas, o fato de que, nesses países, o curso de Administração de Empresas funciona como um curso complementar. O médico faz Administração de Empresas, o advogado cursa Administração de Empresas, a dona de casa cursa Administração de Empresas. Então, todos já sabem administrar razoavelmente bem, de sua cozinha à sua empresa. Existe uma bagagem cultural por detrás desse desenvolvimento todo. E não restam dúvidas: quanto mais elevado for o nível cultural, maior será o desenvolvimento, maior será a harmonia entre as pessoas, menor será o índice de conflitos, coisas mal-entendidas, mal-expressadas, e assim por diante. Esse deve ser, com certeza, o grande sonho. Sem nenhum menosprezo, evidentemente, às pessoas com saber mais limitado, que também são dignas do mais elevado respeito e que também servem de exemplos éticos e morais. Mas, sem dúvidas: povo culto, desenvolvimento certo. E o domínio do idioma é pressuposto indispensável para a aquisição de cultura e de progresso.

SÉRGIO RAMOS – O idioma, na sua opinião, é o início de tudo?
Professor IRONI ANDRADE – Sim, o domínio da Língua Portuguesa é o início de tudo. Se nós pensarmos em progresso cultural, abstraindo o idioma, seremos tolos. Justamente porque o idioma é a ferramenta a partir da qual se propaga a cultura dentro de qualquer país. E, se os conhecimentos em relação ao idioma fossem melhores, com menor esforço, haveria maior transmissão de conhecimentos, maior assimilação deles e, conseqüentemente, maior progresso.

SÉRGIO RAMOS – Ouço desde muito tempo que a Língua Portuguesa é complexa e o Senhor diz que ela é estruturada, é lógica, é matemática. Como é isso?
Professor IRONI ANDRADE – Em primeiro lugar, eu quero isentar todos os meus colegas professores de qualquer responsabilidade em relação ao que eu vou dizer agora. Clareando, o professor ensina aquilo que sabe, e sabe aquilo que aprendeu. E ensina o que aprendeu, normalmente, como aprendeu. A verdade é que o sistema todo está equivocado. Até hoje se ensina a Língua Portuguesa fragmentadamente, como se a concordância não tivesse nada a ver com a regência. Como se a acentuação gráfica não tivesse nada a ver com a concordância. Como se tudo não tivesse nada a ver com a pontuação. Não, não! Temos que entender que existe, dentro do idioma, uma seqüência lógica, em que nós temos que entender um primeiro assunto como pressuposto para o entendimento de um segundo. E o segundo só será entendido com a aplicação do primeiro. E o primeiro e o segundo serão aplicados na compreensão do terceiro. O primeiro, o segundo e o terceiro, entendidos, serão os pressupostos para a compreensão do quarto, e assim por diante. Basta ver que o mínimo do mínimo, na compreensão de um idioma, são os fonemas, os sons. E, depois dos sons, vêm as letras, e maiores que as letras são as sílabas. E maiores que as sílabas são os vocábulos, depois as frases, depois os períodos, depois os parágrafos. E maior que os parágrafos, o texto, que é a culminância de tudo. E é justamente essa a seqüência lógica que precisa ser trilhada para a compreensão do idioma como algo matemático, lógico, exato. Eu acho muito interessante quando falo aos meus alunos, dizendo-lhes que não há uma exceção sequer dentro de todo o idioma e eles não acreditam. E consigo esgotar todo o conteúdo, de zero a cem, e provar que não existe, de fato, uma exceção sequer. Mas isso ocorre justamente porque o idioma é seqüencial, é lógico, é matemático, é exato. Para isso, basta distribuir os conteúdos numa seqüência lógica. Infelizmente, porém, não é assim que nosso idioma é ensinado!

SÉRGIO RAMOS – O Senhor costuma lembrar a expressão de um estadista que sentenciou: "Dêem-me a palavra por um minuto e mudarei o curso da História". Qual o verdadeiro sentido disso e qual sua intenção com isso?
Professor IRONI ANDRADE
– A expressão "Dêem-me a palavra por um minuto e mudarei o curso da história" é uma figura para mostrar que o bom domínio do idioma pode operar, realmente, maravilhas. Exemplo de pessoas que, figurativamente, em um minuto mudaram o curso da história: Demóstenes, o gago Demóstenes, que dividiu a oratória antes e depois dele. Mas fique bem claro que, com a expressão "Dêem-me a palavra por um minuto e mudarei o curso da história", já estamos passando da linguagem escrita à linguagem falada, à prática da oratória. Veja só, até Demóstenes, as pessoas falavam rapidamente. E quem falava mais rapidamente, acreditava-se, empolgava mais a platéia. Demóstenes, contudo, provou o contrário. Como ele era gago, só se comunicava bem falando pausadamente. E aí a humanidade foi ver que a fala pausada era mais convincente, era mais bonita, era mais atraente. Por quê? Porque quem fala pausadamente dá tempo a que o cérebro organize bem o pensamento. Quem fala pausadamente, e de forma bem relaxada, consegue manter um raciocínio mais retilíneo, sem muitas voltinhas. Machado de Assis já dizia: "Os detalhes aporcalham a comunicação humana". Saindo do plano histórico de Demóstenes, por que não citar, nesse campo, e a despeito de todos os preconceitos, Adolf Hitler, que era capaz de, com meia dúzia de palavras, mobilizar um exército todo? Napoleão Bonaparte também era assim. Aliás, os grandes estadistas foram todos assim. Eram pessoas realmente maravilhosas, que maravilhavam multidões, pela prática persuasiva do idioma e pelo domínio, seguro também, das regras gramaticais. Mentes iluminadas, mentes claras, mentes transparentes, que conseguiram fazer do difícil o fácil. E esse haverá de ser sempre o grande objetivo de toda pessoa que fala.

SÉRGIO RAMOS – Creio que os nossos políticos empobrecem a Língua para se fazerem entender pela maioria dos eleitores. Qual a sua opinião sobre isso?
Professor IRONI ANDRADE – Respeito tua opinião, mas me permito discordar dela. Eu acho que nós vivemos uma crise cultural muito grande, e a maioria de nossos representantes, sobretudo no campo político, empobrecem a Língua porque são mesmo pobres lingüisticamente falando. É a primeira observação. A segunda, eu entendo que a pessoa que agride o idioma, sob o pretexto de se fazer entender, é uma pessoa de pouca luz, é uma pessoa muito pobre intelectualmente. Eu, por exemplo, sou detentor - por obrigação, que isso não é nenhuma virtude - de um vocabulário muito amplo. Afinal, eu ensino Língua Portuguesa, ensino Redação, ensino Literatura, ensino Oratória há mais de trinta anos. Há pouco, acabou, aqui, a centésima décima nona turma de Oratória de minha vida. Eu elaboro provas para concursos já faz 20 anos. Eu tenho um vocabulário realmente muito amplo. Mas eu tenho a presença de espírito necessária para, dependendo do ambiente, dependendo do nível cultural das pessoas com quem me comunico, saber transformar o difícil em fácil. Eu diria assim: não é nenhum pouquinho louvável agredir o idioma para se fazer entender. Ao contrário, qualquer agressão ao símbolo pátrio por excelência, ao invés de ser louvável, é extremamente detestável. É falta de presença de espírito.

SÉRGIO RAMOS – Bem, tenho visto, e até concluído, que políticos de pouca bagagem cultural, que "falam a língua do povo", têm vantagem competitiva nas eleições. Aliás, são até elogiados por causa disso. Tanto que, em debates, quando alguém fala com melhor qualidade lingüística é logo taxado de candidato da elite.
Professor IRONI ANDRADE – Aí, convenhamos, estaríamos indo para um outro lado, o lado da demagogia. La Brunyère, pensador francês, dissera: "É uma calamidade não possuir bastante espírito para falar bem, nem bastante bom-senso para ficar em silêncio". Ele queria, com isso, dizer que é possível falar bem, comunicar-se bem, com qualquer pessoa, tendo bastante espírito para articular bem o pensamento e fazer-se entender. Exemplos, muitos, como esse que acabas de dar, ilustram apenas outra faceta da nossa sociedade. A faceta da demagogia, da exploração, da submissão. E da submissão pela ignorância; há muita ignorância em quem age dessa forma, infelizmente. E a saída: cultura para o povo. Porque, quando o povo tiver cultura, esse tipo de político não sobreviverá. Assim como, quando o povo tiver cultura, com certeza os corruptos também desaparecerão. É aquela velha história: não há corrupto, sem o corruptor. Não estariam ignorantes no poder, se a população não fosse tão ignorante. Essas coisas são realmente lamentáveis e a demagogia precisa ser banida.

SÉRGIO RAMOS – O senhor tem uma técnica toda particular, exclusiva, para ensinar a Língua Portuguesa?
Professor IRONI ANDRADE – Bem, de fato, eu desenvolvi, ao longo de mais de trinta anos de profissão, uma metodologia muito especial e exclusiva para o ensino do idioma pátrio. Eu não vivia muito satisfeito com a minha própria atuação em sala de aula, haja vista que me esforçava muito e os resultados, às vezes, eram muito pequenos. Diante disso, desenvolvi realmente uma metodologia, que é muito particular, é exclusivamente minha e, ao longo de mais de duas décadas, vem provando que é eficiente. É muito grande o número de alunos que fazem o curso de Português comigo e que, com um dia de aula por semana, ao longo de um semestre, conseguem gabaritar provas dos mais variados concurso. Como? Aprendendo a pensar o idioma. Aprendendo o idioma numa seqüência lógica, que é nisso que se fundamenta a minha metodologia. Essa é a metodologia, aliás, que eu tentei, em mais de uma oportunidade, dar de presente ao governo brasileiro, por amor a pátria. Mas o nosso governo reluta em aceitar. Porque todo o ensino do idioma teria de passar por uma reciclagem. E aí, infelizmente, a lei do menor esforço acaba prevalecendo. Os interesses políticos, o desinteresse de se indispor com a classe dos professores, sempre vai falando mais alto. Mas chegará o dia em que a população se dará conta de que, diariamente, milhões de crianças saem de casa e vão às escolas aprender um montão de coisas erradas. Se nós pegarmos os livros de Português e passarmos a examiná-los detidamente, nós veremos que setenta por cento são erros graves, erros primários, que são, diariamente, passados à frente. Repito: sem culpa dos professores. Nessa questão, os professores são vítimas. Porque o professor ensina o que aprende. E ensina como aprende. Essa metodologia, hoje, está sendo estudada, com grande interesse, pelo governo português. Quiçá os portugueses demonstrem realmente interesse, apliquem essa metodologia maravilhosa lá, com resultados espetaculares, e, um dia, aí sim, o Brasil resolva simplesmente imitar ou, quem sabe, comprar do governo português para poder implantar aqui.

SÉRGIO RAMOS – Ou, então, uma recolonização (brincando)...
Professor IRONI ANDRADE – É, a recolonização talvez fosse uma saída para quem, colonizado há tanto tempo, ainda não acordou.

SÉRGIO RAMOS – E a nossa tão sonhada equivalência a países de primeiro mundo é possível, com toda essa falta de investimento em educação?
Professor IRONI ANDRADE – É uma coisa muito complicada. Em primeiro lugar, existe um comodismo muito grande. Deixar as coisas como estão é mais cômodo. Segundo: há o interesse político, evidentemente, em cima disso tudo. Que povo inculto, normalmente, dá mais votos. Terceiro: só quem tem alguma base cultural consegue dimensionar verdadeiramente o real valor da cultura. E, depois, há a questão da demagogia. Mas que bom se, daqui a quarenta e dois ou quarenta e três anos, os nossos filhos, os nossos netos estiverem experimentando um nível de vida estável, com a tranqüilidade dos europeus, por exemplo! Agora, para que isso aconteça, com certeza, terá que haver uma revolução. Revolução sem armas. Uma revolução interior. Os brasileiros todos se voltando para o próprio interior e descobrindo que, sem cultura, não se vai a lugar nenhum, ou, ao menos, se consegue ir a poucos lugares e obter poucas vitórias.

SÉRGIO RAMOS – Realmente estamos fadados ao fracasso. Além da questão do baixo nível da educação, ainda temos as novelas, as músicas, de uma pobreza inquestionável. E nossos filhos estão convivendo com isso. A base cultural que deveria ser formada em casa e na escola não dá suporte para que eles possam reagir a essa onda de letras pejorativas e vazias. E acabam assimilando isso rapidamente, dada a carga que sofrem através da mídia. Por isso creio que, realmente, a nossa situação é complicadíssima, não é?
Professor IRONI ANDRADE – É o contexto todo. É uma espécie de avalancha que vai arrastando tudo e todos que estão no caminho. O contexto todo está bastante problematizado. Esse pretexto de que tem que ser assim porque o povo é assim, é absurdo, é inaceitável, é incompreensível. Porque, se nós pensarmos dessa forma, teremos que admitir que o povo vai ser sempre assim. Ao contrário, é mais ou menos como um conceito que tenho de democracia: não há nada mais nobre que a democracia, quando ela funciona. Eu sou democrático, extremamente democrático. Agora, quando as coisas não andam democraticamente, eu pisoteio a democracia. Então me parece assim: enquanto nós tivermos esse tipo de conteúdo musical, como tu falaste, enquanto nós tivermos essa pregação política, enquanto nós tivermos esse nível de telenovelas, e outros programas que estão por aí, nós vamos permitir, possibilitar que o público continue na mesma. Agora, se o nível começar a se elevar, ocorrerá algo melhor. Como se diz lá no Sul: "As melancias se ajeitam com o andar da carroça". Quando as pessoas de mente mais abertas, de mentes mais iluminadas pela cultura, começarem a exigir mais, a reação, com certeza, será maior. Do contrário, cairemos no comodismo, no conformismo, e tudo, realmente, ficará como está.

SÉRGIO RAMOS– O senhor falou da música e da política. E o discurso religioso, atualmente, não está um pouco deturpado, dentro dessa linha em que estamos conversando?
Professor IRONI ANDRADE – A questão religiosa eu classifico assim: infelizmente, a maior das religiões do universo, a religião católica, na minha maneira de ver, é muito conservadora. Nela, há dois aspectos, de certa forma, paradoxais. O primeiro: é uma pregação que está muito acima da compreensão dos fiéis. É uma pregação que não toca o seguidor naquilo de que ele mais precisa, justamente porque ele não consegue compreender a pregação que é feita. O segundo: o tipo de comunicação que é praticado está totalmente ultrapassado. Pois, se prestarmos bem atenção, o discurso que nós ouvíamos na igreja, quando éramos pequenos, nós ainda estamos ouvindo hoje, em algumas religiões. E, aí, o que acontece é a prova de que isso é um equívoco. As ditas religiões menores, ou igrejas menores, que estão surgindo a cada dia, e cada vez em maior número, estão se agigantando, se agigantando. E, para uma religião se agigantar, outra terá que se acanhar. As conservadoras estão perdendo fiéis em favor das novas, que estão entrando com outro discurso, com uma outra forma de comunicação. Falei há pouco que encerrei, aqui, o centésimo décimo nono curso de Oratória de minha vida. Eu já dei muitos cursos de Oratória para muitas igrejas. Nenhum, todavia, para igrejas mais tradicionais. Justamente aquelas do discurso mais pesado, do discurso mais distante dos anseios de quem precisa, de quem busca o conforto e, para a cabeça pequena de algumas pessoas, a própria salvação.

SÉRGIO RAMOS – Nessa linha, as igrejas tiveram que popularizar o discurso, assim como os políticos, usando uma linguagem pobre porque o povo seria inculto?
Professor IRONI ANDRADE – Não, necessariamente. Tenho observado, e a observação me credencia a afirmar, que a mensagem que está sendo repassada é a mesma. A forma de as igrejas, ou religiões, repassarem a mensagem é que é diferente. Não é necessariamente agredindo o idioma, usando o vocabulário das pessoas menos cultas que se atingirá uma fatia maior da população. Se a camada menos culta está aderindo a essas igrejas não é, necessariamente, pelo fato de que o nível de comunicação baixou. Não. Inteligentemente, essas igrejas mais novas estão transmitindo as mesmas idéias, as mesmas mensagens, as mesmas (in)verdades, porém num discurso acessível aos indivíduos menos cultos. Eu, como um princípio de vida, preocupo-me, preocupo-me e preocupo-me em não falar difícil. Agora, por exemplo, estou curioso para ouvir toda esta entrevista a fim de ver se, em algum momento, usei palavras de difícil compreensão. É possível vender uma imagem boa, é possível repassar uma mensagem fantasticamente construtiva, tudo num linguajar simples, e que toca mais profundamente do que alguns discursos tradicionais, repassados e repassados ao longo dos séculos, e que não atingem a alma do ser humano.

SÉRGIO RAMOS – Professor, o que o leitor pode encontrar, produzido pelo Senhor, para ler, sobretudo sobre a importância do idioma para uma nação e para o indivíduo e, principalmente, sobre o seu método de ensinar Português corretamente?
Professor IRONI ANDRADE
– Conforme falei anteriormente, eu criei uma metodologia própria de ensino, muito diferente do que essa que está por aí à venda, muito distante do que essa que está por aí à venda. Ela vem acompanhada por uma produção muito grande, volume muito grande de material didático. Mas material que não será posto à venda enquanto a metodologia não se tornar conhecida. Porque, infelizmente, esse problema cultural de que nós falamos leva as pessoas a resistirem ao novo, a enxovalharem o novo, a destruírem o que é novo. Entendo que seria realmente uma temeridade, para não dizer irresponsabilidade, lançar no mercado obras tão avançadas para a realidade que ora vivenciamos. Tenho, de forma muito carinhosamente especial, um dicionário arquivado, à espera de publicação. Tenho uma gramática com todo o conteúdo da Língua Portuguesa, tenho o mesmo trabalho subdividido em partes, mas em partes interligadas entre si, tenho material reunido para alguns livros de Português. Tenho muito material arquivado na área da poesia, que tenho muita facilidade para a poesia... Enfim, há muita coisa a caminho; porém, pouquíssimo, ou quase nada ainda, nas prateleiras de livrarias.

SÉRGIO RAMOS – Qual a mensagem que o Senhor deixa aos leitores que, como a maioria dos brasileiros, sofrem para aprender Português?
Professor IRONI ANDRADE
– Com certeza, minha mensagem é de fé no futuro, minha mensagem é de crença em dias melhores. Eu creio sinceramente que essa miopia que ora cega as pessoas responsáveis pelos destinos da educação brasileira tenha cura. Eu acredito, sim, que o ensino da Língua Portuguesa virá a ser como sempre deveria de ter sido: agradável, fácil, seqüencial, envolvente, matemático, lógico, exato... Patriótico. Nada está perdido!

SÉRGIO RAMOS – A seus colegas, professores, o que o Senhor tem a dizer?
Professor IRONI ANDRADE – Perseverem. Sejam criativos. Diminuam, ao menos, o fardo que nossos alunos, hoje, ainda têm que carregar nos ombros. Filosofem e, filosofando, descubram a seqüência lógica do idioma. Afinal, se as mudanças são necessárias, mas não são sugeridas, nós temos de ter a necessária responsabilidade para descobri-las. Tornem suas aulas leves, agradáveis, produtivas. É muito fácil dar boas aulas de Português. Envolvam seus alunos, despertando neles o gosto pela leitura, o gosto pelo estudo gramatical, o gosto pela produção de textos. Compensem, com criatividade, esforço, coragem e amor ao trabalho, esse preconceito, errôneo e inaceitável, que existe contra o símbolo pátrio por excelência.

SÉRGIO RAMOS – O Senhor se disporia a uma cruzada nacional em defesa do idioma, divulgando sua metodologia, facilitando a vida dos estudantes e auxiliando seus colegas?
Professor IRONI ANDRADE – Com absoluta certeza. Nada me satisfaria mais do que tornar o ensino da Língua Portuguesa, para os outros, tão agradável quanto o é para mim. Juro que chego a sonhar com isso. Como seria bom saber que a população toda estaria estudando o idioma principalmente pelo prazer que existe no seu estudo. Como seria bom saber que todos os meus colegas estariam sendo mais felizes no trabalho, ensinando as mesmas coisas, mas de forma correta, envolvente, agradável. Como seria bom saber que o desempenho em Língua Portuguesa estaria sendo cada vez melhor, mais correto, mais elevado. Talvez não exista, no meu íntimo, nada que eu esteja querendo mais do que tornar o idioma mais conhecido e seu ensino mais lógico, mais exato, mais seqüencial, mais agradável, mais fácil. Autoridades educacionais, professores e estudantes, contem comigo!

SERGIO RAMOS – Obrigado Professor.

Para falar com o Professor IRONI ANDRADE:
Fone: 054-9175-6552
E-mail:
ironi@ginet.com.br

 

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