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Fraternidade e Amazônia


Roberto Malvezzi, Gogó *

Adital - A Quaresma brasileira é única no mundo. É quando a Igreja Católica traz uma temática importante para ser refletida, não só para seus fiéis, mas para o conjunto da sociedade brasileira. Dessa vez é a Amazônia.

Essa Campanha vem exatamente no momento em que o aquecimento global é apontado como o maior de todos os predadores da grande floresta. Fala-se abertamente na sua savanização, isto é, redução a uma mata rala e sem grande biodiversidade. Ela ainda iria queimar com mais facilidade, emitir mais gás carbônico, intensificando o efeito estufa. Perderia também sua capacidade de fixar CO2, portanto, de purificar o ar do planeta.  Perderia grande parte de suas águas pela evapotranspiração. Em poucas décadas não seria mais que uma trágica memória do que ainda é.

Some-se ao aquecimento global a derrubada da floresta para venda da madeira, depois plantio de capim para pastagem, depois cultivo de soja, até a degradação rápida dos solos.

Com esse conjunto de ações vem a apropriação das terras das comunidades tradicionais e indígenas, o trabalho escravo, a violência contra ambientalistas, religiosos e defensores dos direitos humanos. Portanto, essa Campanha da Fraternidade insere-se no horizonte da crise global que atravessa a humanidade e diante do qual tudo o mais parece perder relevância.

Essa Campanha convida cada brasileiro, principalmente em comunidade, a olhar para seu próprio bioma. Assim, estaremos olhando para a Amazônia, mas também para o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, a Mata Atlântica e os Pampas. Estaremos refletindo sobre o que fazemos com a criação que Deus nos deu.

A contribuição das Campanhas da Fraternidade para a sociedade brasileira tem um valor inestimável. Por isso, particularmente, espero que o bom senso triunfe dentro da CNBB e não se permita separar a Campanha da Fraternidade da Quaresma. Há quem ache que elas prejudiquem o espírito quaresmal. Francamente, acho que essas pessoas não entenderam o que é Quaresma e nem o que é Campanha da Fraternidade. Um mote concreto de reflexão a cada ano faz com que a Quaresma ganhe positividade, abertura aos irmãos, para além dos muros dos templos. Sem essas temáticas as Quaresmas se tornam necrófilas, como se Deus fosse Deus de mortos e não Deus de vivos. Já chega o prejuízo que foi cancelar as músicas litúrgicas afinadas com os temas. Quem tem experiência pastoral sabe o quanto a música é fundamental para fixar o tema em meio ao povo.

Em todo caso, que nossas reflexões, nossas orações, nossas ações nessa Campanha da Fraternidade realmente nos ajudem a evitar o pior dos mundos que se desenha para o breve futuro da humanidade. Que vença a fraternidade e a Amazônia.

* Agente Pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

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