Porto Velho (RO) quinta-feira, 22 de agosto de 2019
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CRÔNICA - PIMENTA NOS MEUS OLHOS



Sou um vendedor de profecias. Por natureza, ando por aí, cantando em prosa e verso as vocações do Estado de Rondônia. Quando digo que não se pode fazer discurso único no meio de tanta diversidade é por convicção de um bom observador. 

Rondônia é linda, rica, hermafrodita. Do masculino Rondon ela virou fêmea – Rondônia, por isso do seu encanto, imprevisível, que pode oscilar no cipoal da realidade à fantasia, pode ser tudo, pode ser quase, ela é e pode ser ainda mais. 

Fui sacolejando pela BR 364 neste final de semana. Dentro do carro, mais ou menos como um saco de batatas, acomodando aos baques do pneu na buraqueira sem fim. O malabarismo de uma viagem sinuosa, arriscada, entre o torpor do nevoeiro e as chuvas torrenciais. 

Pimenta Bueno descortina-se entregue a si mesma, dentro da sua couraça de mistérios e segredos. Corre nas suas veias uma carga genética coletiva e um desejo, ainda surdo, de surpreender. Creio que a cidade seja a mais mineira de todas as demais cidades do Estado. Não gosta de dizer o que tem. E a providencial esperteza de falar pouco. A sabedoria de ouvir. Enquanto a cidade inteira movimenta uma energia imensa quase subterrânea. 

A cidade foi fincada no delta dos Rios Melgaço e Pimenta Bueno. Este ano, por lá, os igarapés de vida curta transbordaram, pegaram feições de rios, subiram os aclives de terras firmes. As águas brincam com a paciência dos moradores, invadem suas casas, sobem e descem nos seus terreiros, parecendo conversar com o homem. Conversa de natureza com o animal. A própria linguagem do tempo, dizendo: - tem lugar de água e tem lugar de gente. Cada um deve ficar no seu devido espaço. E o rio tem o seu. É a briga de todos os anos entre o rio e o homem. 

Pimenta Bueno está ali, transfixada ao meio pela BR 364, no extremo da prudência, com um amargor entalado na goela, por tudo que é mais humilhante - a cidade e seus escombros rodoviários. Trecho urbano perenemente inacabado. E o que era para ser belo e urbanístico transformou-se em símbolo máximo da inoperância. Da ofensa. Da agressão ao bom senso. Da justificada ira do morador. Fantasmas de concreto, armados para serem viadutos, almas penadas a mancharem os céus e as terras pimentenses. Símbolos perversos das contradições. 

Vias marginais danificadas pelo movimento incrível das carretas. Esqueletos malditos a assombrarem os sonhos de quem deveria ter paz. É o Governo com sua pesada burocracia do Estado, com seu paquidérmico órgão de estradas – o DNIT a sorrir indiferente e sarcástico das dores de uma cidade inteira. “Até quando Catilinas, tu abusarás da paciência nossa?” 

Fora isto, aguaceiro e esqueletos de concreto, a cidade não para. A carga genética de que falei é a transbordante capacidade de empreender. Por-se a desafiar, ir do risco ao sucesso pela persistência. E assim, que se constrói por aqui, a mais nova cidade das confecções. A cidade está ocupada pelas costureiras. Por empresas médias e pequenas, a espargir a onda para as famílias, que trabalham sob encomendas e por tarefas. Mesmo em casa, fazem parte do grande elo da riqueza para todos. 

Além dos serviços, do vigor estilista e alfaiate, Pimenta Bueno produz tijolos e telhas para Rondônia inteira. A sua argila é uma bênção da própria natureza. Tirou dela a terra fértil para a agricultura e em troca entregou-lhe o ouro do barro quase pronto para louças e cerâmicas de acabamento. As empresas do ramo não param de crescer. 

Por ali, nesta estação do ano, a água mareja no solo, fura o esfalfo, corre na rua. Um lençol extremamente superficial, devido a uma manta impermeável de solo, conhecido ali como terra “chocolate”. Uma barra de chocolate sobre a terra, ampla e profunda, a mesma cor do cacau, quando solto sobre o piso fragmenta-se em pequenos estilhaços. Tal qual um vidro. Este solo chocolate que há de ser ainda, e não tardará, a maior fonte de riqueza do município – é a matéria prima para cerâmicas e pisos de altíssima qualidade. Chocolate o ouro negro de Pimenta. 

Poderia parar por aqui. O que já foi dito já é muito. Mas, não. Ainda estou no começo. A empresa Cairu, quem de fora olha jamais entenderá a sua grandeza. Ela por si só é grande para qualquer Estado desta federação. Mais de mil empregos na cidade. Um labirinto de organização contábil, vendas, pesquisas, compras, depósito de peças que brevemente ocupará quinze mil metros quadrados de área coberta. Especializada em bicicletas e motos. E tudo começou como uma singela bicicletaria de consertos. 

Fui longe ao Rio Melgaço, que na cidade espraia-se, distante, corre estreito dentro de paredões de pedras, um cânon ou cânion estreito e fundo, que se prestou a obras de engenharia para produção de energia. A ELETROGÓES está concluindo duas usinas – uma térmica e outra hidrelétrica. Produzirá energia para atender a trezentos e cinqüenta mil pessoas. Tudo ali é extraordinário. Da engenharia aos resultados. 

Não é profecia – é fato concreto. Pimenta tem potencial e vocação empreendedora. Será o município de uma nova economia – o reflorestamento com eucalipto e espécies nativas. Tudo para mover a termoelétrica. E abastecer a construção civil e rural. E a natureza pródiga com todos. 

Fonte: Confúcio Moura

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