Porto Velho (RO) segunda-feira, 19 de agosto de 2019
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Como eu queria gostar de Rondônia


Professor Nazareno*

Sei que muitas vezes sou mal interpretado quando produzo textos mostrando os inúmeros problemas enfrentados por Porto Velho, Rondônia e sua gente. Muitas pessoas ficam irritadas e mal humoradas quando leem o que escrevo. Às vezes tenho certeza de que se me conhecessem e me encontrassem, talvez chegassem “às vias de fato” comigo. E eu não tiro a razão de ninguém: afinal somos todos criados e educados, não se sabe o porquê, para amar, gostar e enaltecer a terra onde nascemos mesmo que ela nada nos dê. Um escritor, um artista ou qualquer pessoa famosa já teceu loas de encantamento e paixão pelo lugar onde nasceu. São as raízes telúricas falando mais alto. E ainda pesa contra mim o fato de não ter nascido aqui e de ter vindo, quando muito jovem, parar nestas terras distantes do lugar onde fui parido.

Na verdade nunca entendi por que desde criança odiava o Brasil. A seca e árida Paraíba não me encantava em quase nada. Naquela época já não entendia, e nem aceitava, o conceito da famigerada “indústria da seca” que castigava e ainda castiga meus sofridos conterrâneos e quando, vagando no meio do mundo, buscava outros portos, fora do país, claro, encontrei este último porto, sujo e mal cuidado, mas que aceitou receber a minha enferrujada e suja âncora e que ainda hoje, mais de três décadas depois, insiste em grudá-la às suas entranhas. Perto da Bolívia e do Peru, Rondônia me esperava e me recebeu muito bem. “Se este pedaço de Brasil for diferente, finco raízes para sempre por aqui”, pensei na época. Não era, mas “me plantei de corpo e alma”. Então, por que não vou amar um povo bom como sem igual, uma comida que é a melhor do mundo e um clima incomparável?  O desencanto: Rondônia copiou o Brasil.

Há 34 anos sem querer voltar à Paraíba e sem querer ficar em Rondônia, percebi e denunciei que o quê há de ruim neste lugar é a mesma coisa que há de péssimo no restante do país: a classe política e os aproveitadores de plantão. Rondônia tem muita gente honesta e trabalhadora, tem muita riqueza e muito dinheiro, mas é um lugar atrasado, subdesenvolvido e quase amaldiçoado. Aqui, nada dá certo. Quase todos os políticos, como no restante do país, são patifes, ladrões, desonestos, mentirosos e roubam todo o dinheiro destinado ao nosso desenvolvimento e progresso. E não fazemos quase nada, assim como os paulistas, capixabas, cariocas, nordestinos ou gaúchos. A gente se deixa roubar e ainda acredita nas lorotas que eles criam para nos enganar. “Em meu governo só haverá ficha limpa”, dizem. “O povo em primeiro lugar”, afirmam cinicamente outros ou então a máxima “farei jorrar mel e leite das ruas”.

Quero gostar de Rondônia e de sua capital, mas os políticos não deixam. Situada em dois biomas conhecidos internacionalmente, fronteira do MERCOSUL, um território gigantesco, água em abundância e uma população pequena, este Estado era para ser uma potência econômica. Mas não é. Como me dói na alma falar o que falo de Porto Velho: vivemos sem nenhuma qualidade de vida sufocados em poeira e fumaça e atolados na lama. Essa é a pura verdade. Entra prefeito e sai prefeito, entra governador e sai governador e a roubalheira e a desgraça continuam, os problemas continuam, o caos continua e parece que todos nós estamos nos adaptando ao que é ruim, ao que é medíocre. E pior, perdemos a capacidade de nos indignar e de exigir os nossos direitos. A saída, solução dos covardes, não é sair, é ficar e tentar mudar. É pedir que o novo prefeito seja honesto e trabalhe sem roubar. É torcer para que tudo dê certo. É exigir que a mídia não compactue com a corrupção e os desmandos. É ensinar o conceito de justiça e de cidadania às futuras gerações. Como pode um “paraibinha” metido a besta, um rebotalho qualquer, um retirante querer isto para quem não se nutre o mínimo de amor? 

*É Professor em Porto Velho.

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