Porto Velho (RO) sábado, 5 de dezembro de 2020
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Cinta-Larga, um povo em extinção


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Mara Paraguassu

Que país é este.

O povo Cinta-Larga se desintegra em terra cuja riqueza incalculável é desconhecida pelo governo brasileiro, mas muito bem utilizada por criminosos de dentro e fora do país, caciques inescrupulosos, empresários nacionais e internacionais, gananciosos que se aproveitam do descaso com que as instituições tratam os moradores da Reserva Indígena Roosevelt e o valioso potencial diamantífero.

Correndo risco de extinção, a população Cinta-Larga, que experimentou crescimento a partir da década de 80, contabiliza, desde que o garimpo foi avistado, em 1999, sucessão de mortes causadas pela violência, tuberculose, pneumonia, sarampo e outras doenças.

Vivem na miséria, sem saúde, educação e assistência jurídica, e a riqueza que lhes assalta a alma e rouba a paz comunitária os deixa, paradoxalmente, cada vez mais pobres.

Entre 2008 e 2009 o governo federal investiu R$ 7 milhões em repressão, e apenas R$ 700 mil na proteção aos Cinta-Larga. A comunidade, convicta de que o garimpo só problemas trouxe, acreditou que o governo federal poderia gerenciar, mediante a Fundação Nacional do Índio (Funai), um processo de concepção e execução de projetos que ofertassem alternativas econômicas, tentativa fracassada após três anos de parceria com o Ministério Público Federal.

Ao órgão indigenista falta tudo, por isso pouco pode fazer a não ser que o Ministério da Justiça o fortaleça. Não há sinal disso. E, a julgar pelas palavras do procurador Reginaldo Pereira da Trindade, numa sexta-feira em Brasília, a qualquer instante explodirá nova bomba. De novo os jornais contarão em suas manchetes os cadáveres, como em 2004, autoridades se alarmarão, farão promessas e o saque na Roosevelt prosseguirá como sempre.   

Escolha de Sofia        

O procurador teve interlocutor privilegiado, o ministro Gilberto Carvalho, que admitiu haver problemas demais com povos indígenas, e por isso não poderia o governo “fazer uma escolha de Sofia”, diante do apelo insistente do procurador para atendimento prioritário aos Cinta-Larga.  

Ok, o ministro tem lá sua razão, mas ao que se sabe dentre todas as terras indígenas apenas a Reserva Roosevelt, com seus mais de 2 milhões de hectares, parte em Mato Grosso, é paraíso de diamantes da melhor qualidade - grandes, redondos e translúcidos -, gerando cobiça imensurável, provocando grave alteração na organização social do povo Cinta-Larga e com isso ameaçando sua existência.

Se cabe ao Executivo a proteção devida aos Cinta-Larga, cabe ao Congresso Nacional regulamentar a mineração em terras indígenas. Sem uma e outra tarefa, infelizmente as coisas continuam como estão, perdendo o Brasil, que nunca, em momento algum, promoveu algum tipo de levantamento sobre o potencial de suas jazidas diamantíferas, não sabendo quanto de fato ganhamos com elas.

Social

Para atenuar a situação de penúria e preconceito instalada entre os Cinta-Larga, o governo de Rondônia e o Ministério Público Federal desenvolvem entre os dias 22 e 24 de novembro uma Ação Social com mais de dez instituições, entre elas a Funai, o DNPM, Sesai, TRE e INSS.  Cidadania e saúde são o foco das atividades.  

A ideia, diz o procurador Reginaldo da Trindade, é romper com o paradigma de “completo abandono por parte do governo”, sentimento que domina os Cinta-Larga há tempos.

Email: [email protected] / Amazôniadagente

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