Quinta-feira, 19 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

BORDEJO DE CARNAVAL (I) - Um códex musical esquisito no ar


BORDEJO DE CARNAVAL (I)  -  Um códex musical esquisito no ar  - Gente de Opinião

 
Altair Santos (Tatá)* 


Nem bem se iniciaram os pré-carnavalescos dos blocos (os ditos ensaios), já podemos assistir a algumas distorções mexendo com a tradição da festa de Zé Pereira. O que se tem visto e ouvido nos últimos anos, reverbera agora, neste prelúdio da quadra momesca, em alguns ensaios, desagradando foliões de hoje o que, por certo, lá atrás, deixaria louco o Rei da Folia. Vítima quase que totalmente fulminada, no histórico processo dos atuais carnavais, o outrora cantado em verso e irreverência – Zé Pereira e todo o adorno temático do assunto – é pouco lembrado nos metiês da folia de então. Sem querer formatar a coisa pelo quadradísmo da mesmice, ou seja, apenas garantir espaço para a tradição e fazer a defesa intransigente dos ritmos pátrios do carnaval (marchinhas, sambas e frevos), deu pra perceber que algumas bandas já se arvoram tocando aqueles ritmos esquisitos onde impera a anti-música do calcinha preta, aviões, bondes, trens, metrôs e até carroças do forró, passando pelos pancadões, indo é claro, até os hits do tal “dejavu”, este por sinal, bem poderia se chamar ”eujavou” pra nunca mais voltar. É obvio que os modismos vigentes, por força da famigerada indústria cultural, exercem forte influência nas pessoas. Só achamos que pra tudo tem hora. Parafraseando o mestre Paulinho da Viola, “tá legal eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim.”, ou seja: essa de ensaio de carnaval, sem música de carnaval é como estar com sede e beber num copo vazio. Para executar esses ritmos de destemperada poesia e igualmente salobre melodia, temos um ano inteiro pela frente, de domingo a domingo, de sol a sol, dia útil, dia santo e feriado. Isso basta, alias, é muito! Porto Velho, uma cidade de tradição, em cujo seio repousa uma significativa e influente frente carnavalesca, bem poderia, a partir das suas agremiações culturais praticar melhores e maiores contributivos para a sedimentação da cultura popular e seus legados, permitindo a construção da sua identidade cultural com a realização de ensaios que priorizassem a salvaguarda e defesa do rico repertório existente, fomentando espaço para o novo, sem render-se a modismos e vícios. Os ritmos oportunistas não somam para a edificação do patrimônio cultural, senão vejamos: ninguém mais lembra (e espero que continuem a não lembrar) dos tais risca a faca, beber cair levantar e tantos outros de má qualidade. Todos podem formar uma banda e tocar o que bem entender. Isto é livre arbítrio, é estado de direito. Porém, em que pese os promotores (blocos) serem os senhores absolutos das suas programações e concepções, devemos todos, chamar debate sobre o assunto e dar prumo às coisas, antes que mesmificação cultural faça do carnaval popular de Porto Velho uma esfarrapada bandeira. Nas águas onde navegam e se banham cantadores de mamãe eu quero mamar e beber cair e levantar, talvez - na hora da sede - a água seja pouca, quase nenhuma, para indecisos sedentos. 

(*) O autor é músico e presidente da Fundação Cultural Iaripuna
tatadeportovelho@gmail.com

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 19 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Para além da sociologia

Para além da sociologia

Os Limites da Análise de Roxana Kreimer e a Exigência de uma Matriz Antropológica IntegralAntónio da Cunha Duarte JustoResumoO presente artigo propõ

Marcos Rogério sai na frente na corrida pelo governo de Rondônia

Marcos Rogério sai na frente na corrida pelo governo de Rondônia

Começam a esboçar as primeiras pré-candidaturas ao governo de Rondônia. E quem deu o pontapé inicial na corrida pela sucessão do governador Marcos R

Brasil, próxima vítima dos EUA

Brasil, próxima vítima dos EUA

           A China é um país comunista e hoje tem um PIB que rivaliza com o dos Estados Unidos. Fala-se que a partir dos anos 2030/2035 os chineses

Deus não é cabo eleitoral

Deus não é cabo eleitoral

É comum candidatos aos mais diferentes cargos da República usarem o santo nome de Deus em suas aparições públicas e nos programas de propaganda elei

Gente de Opinião Quinta-feira, 19 de março de 2026 | Porto Velho (RO)