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Por que quase todas as obras estouram prazo e orçamento — e o que o planejamento pode fazer para mudar isso


Fernando Ervedeira, Chief Engineering da We Are Group - Gente de Opinião
Fernando Ervedeira, Chief Engineering da We Are Group

A construção civil convive com um problema crônico: atrasos, estouros de orçamento e desperdício de recursos. Segundo estudo global da McKinsey & Company, mais de 98% dos megaprojetos ultrapassam prazo ou custo, com custos médios 79% acima do orçamento e prazos cerca de 52% maiores do que o previsto.

Embora esses dados se refiram a obras de grande porte, a lógica por trás das falhas é a mesma nas obras corporativas e comerciais: planejamento fragmentado e execução desconectada da realidade do canteiro.

No Brasil, a situação se repete. Em muitos casos, o cronograma é elaborado no escritório, entregue à obra e raramente atualizado conforme o avanço real. O resultado é previsível: retrabalho, improvisos e a rotina de “apagar incêndios”.

O planejamento, que deveria ser a espinha dorsal da gestão, acaba tratado como um requisito burocrático — um documento para cumprir protocolo, e não como ferramenta estratégica de decisão.

Quando o cronograma é construído sem a participação de quem está em campo, ele se torna um instrumento distante, incapaz de antecipar variáveis essenciais: clima, logística, prazos de fornecedores, interferências entre equipes e restrições do local. É assim que a previsibilidade se perde — e junto com ela, a confiança do cliente.

Estudos setoriais indicam que o desperdício de materiais pode chegar a 25–30% do total utilizado e que falhas de coordenação impactam diretamente a produtividade, somando bilhões de reais em perdas anuais no setor.

Cada atraso, cada improviso e cada retrabalho representam não apenas custo adicional, mas também erosão de credibilidade.

Nos últimos anos, metodologias como Lean Construction e AWP (Advanced Work Packaging) trouxeram uma nova visão: planejar não é prever o futuro, mas garantir as condições para que o plano aconteça.

Embora o nome seja recente, essa forma de pensar a obra — de trás para frente, considerando dependências, prazos de compra e montagem — é algo que aplico há mais de 20 anos.

A lógica é simples: dividir o projeto em módulos menores, garantindo que cada etapa só comece quando todas as condições estiverem asseguradas.

Em uma obra de 60 dias, por exemplo, se o mobiliário tem prazo de entrega de 45, ele precisa ser comprado até o 7º dia. Esse intervalo adicional é essencial para absorver as etapas de fabricação, transporte, recebimento, conferência, montagem e verificação final em canteiro.

Essa antecipação evita o efeito dominó dos atrasos e reduz a dependência de improvisos.

Quando o planejamento é feito junto com o residente de obra, o time de suprimentos e os fornecedores críticos, o cronograma deixa de ser “bonito no papel” e se torna uma ferramenta viva, usada diariamente para decidir, corrigir e priorizar.

O controle deixa de ser um relatório mensal e passa a ser uma rotina operacional em tempo real.

Essa integração muda completamente a dinâmica entre escritório e campo. O planejamento deixa de ser instrumento de cobrança e passa a ser um aliado da execução — um mapa de decisões construído por quem entende o terreno.

Sim, exige mais dedicação no início. Mas o retorno é exponencial: menos desperdício, menos paradas, mais previsibilidade e maior qualidade percebida pelo cliente.

No fim, o verdadeiro ganho não é apenas produtividade. É confiança — entre equipes, fornecedores e clientes.

Quando o planejamento é vivo, a obra deixa de ser um risco e passa a ser um compromisso com resultado.

*por Fernando Ervedeira, Chief Engineering da We Are Group - empresa especializada na execução de ambientes corporativos e comerciais de alto padrão. Mais informações no site.

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