Porto Velho (RO) domingo, 7 de março de 2021
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Crônica

O Sarrafo é mais em cima


O Sarrafo é mais em cima - Gente de Opinião

A concorrência por amplas vitórias, nos relacionamentos interpessoais, na olimpíada da vida, nem sempre se adapta ao sarrafo. Os saltos, envolvendo alteridade ou empatia, são os mais difíceis de serem conseguidos. Como é difícil encontrar dentro da gente um ser humano sinceramente altruísta − a máscara de santo encobre o originariamente mesquinho. Entrementes, vitoriosos, vencedores, triunfantes, possuem seus seguidores, seus fãs, conhecidos ou não, e podem, razoavelmente, interagir com o inerente caráter humanitário, o sentir a dor do outro, desde que haja uma sinergia, a fim de que a altura do sarrafo não impossibilite o vitorioso salto da empatia.

“Se dois amigos pedirem para você julgar uma disputa, não aceite, porque você irá perder um amigo; por outro lado, se dois estranhos pedirem o mesmo, aceite, porque você irá ganhar um amigo” (Santo Agostinho).

Se em cada cabeça há uma sentença, assimilar e aceitar as vistas da janela do outro, não é tão fácil assim. Tudo bem que o outro se ache mais sábio, mais inteligente, no entanto, na corrida para ultrapassar o sarrafo da concorrência, a vida nos ensinou que o homem que diz sei, não sabe, que diz sou, não é, e, na pressa pela vitória a qualquer custo, acaba derrubando o sarrafo, na frente dos espectadores. Das definições possíveis do homem, uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa (AH).

E se você for o reitor de uma universidade, presidente de um partido político, da Câmara de Vereadores, da Assembleia Legislativa, da Câmara dos Deputados, do Senado, ou simplesmente presidente de uma academia de letras, formada por escritores, juízes, desembargadores, médicos, advogados, professores, cientistas, artistas, quarenta egos inflados, prontos para competirem no salto em altura, com ou sem vara? Não, não é fácil conviver, administrar vitórias e derrotas. Reconhecer um sarrafo alto ou perder pro outro, faz parte do jogo da vida! Abraham Lincoln nos ensinou que aqueles que valorizam o pódio mais do que a disputa não são dignos de subir nele.

Às vezes eu me ponho a abrir a janela do outro ou a trocar a janela dele pela minha, as vistas são de difícil assimilação, porque envolvem muito mais do que a simples diferença de cor, de gênero, de grau de instrução, de cargo, de status e vão às profundezas da alma, onde se escondem os primeiros comprometimentos genéticos, que determinam de que parte do mundo você veio, quais conceitos você assimilou, ao longo do tempo, o que entrou mais no seu cérebro e permanece até hoje, tanto do lado materno quanto do paterno. Gustave Young dizia que no cérebro humano está a soma de todas as civilizações.  

Para se sentir em processo de alteridade você precisa atravessar os obscuros labirintos da mente humana, desnudar as paixões oriundas do ego, trazer à tona a esponja que apaga a inveja, nivelar, na medida do possível, o sarrafo dos desejos, descobrindo os grandes fantasmas da concorrência, que perseguem o homem desde a origem. Você não pode desejar e ser feliz ao mesmo tempo.

Com isto não quero dizer que não seja possível a interação humana, quando você se relaciona com outras pessoas ou grupos, difícil é reconhecer e aprender com as diferenças, fazendo-se respeitar ao mesmo tempo em que respeita o outro, uma verdadeira via de mão dupla, onde não se deve baixar o sarrafo no adversário, entretanto, ocorrem invasão de pista alheia, derrapagem, contramão, atropelamento e até mesmo mortes. O perdão, ah o perdão! tão divino e tão mundano!!!

Agir conforme princípios morais deveria ser a norma, nas vistas geradas pela janela da relação interpessoal, em grupos associativos, família, trabalho, lazer, etc. Mas, embutidos nas vistas morais, há que se ter um profundo conhecimento do perdão, noções fraternas de diálogo, humildade, consideração e a capacidade psicológica de sentir o que sentiria o outro, numa mesma situação vivenciada: perfil difícil de se encontrar nas vistas advindas da janela das disputas humanas, onde o sarrafo, geralmente, é colocado na possibilidade de poucos saltos. O sol não nasce pra todos, infelizmente.

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