Terça-feira, 31 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

ARTIGO: SENTIDO DE POLÍTICA


 
Bruno Peron Loureiro

Os prefixos às vezes embaralham as idéias. Convidam-nos a entender previamente o significado da palavra que os segue: anti-capitalista, pós-moderno, superestrutura, supracitado, ultra-conservador. Se os termos vão com ou sem hífen, já é outra história. O tempo nos adaptará às novas convenções sobre a língua portuguesa.

Temo-nos relacionado de uma maneira distante e pré-concebida com a política como se esta rememorasse um bicho de sete cabeças. Sem pretensão de acreditar que a época atual é a-política, em alusão aos que creem eximir-se das relações oficiais de poder, ou pós-política, cuja expressão supõe uma fase posterior de mimetismo incompleto do que um dia este universo de ordenação do poder representou, o que se vê hoje são nuanças de um único fenômeno.

Seria irresponsável de minha parte veicular o tema fora dos conjuntos da arte, a economia, a sociedade, e outros que compõem sua complexidade. Por isso, desenvolvem-se campos do conhecimento como o da cultura política, a economia política, a sociologia política, entre outros. Gosto de traçar paralelos entre inquietações populares e saberes acadêmicos a fim de não redundar num texto maçante sobre tema banal.

A primeira crítica que faço é à desvinculação cultural do cidadão com a esfera de relações políticas, enquanto a mesma não ocorre no patamar de fato. Quer dizer: o dissabor, o descrédito e o afastamento com relação a este âmbito não implica perda de vínculo real dele, uma vez que somos obrigados a votar, pagamos impostos e tributos variados, recorremos frequentemente a serviços públicos e, vez ou outra, reclamamos de alguma ação mal prestada.

A outra crítica é ao nosso despreparo em ser cidadãos. Em síntese: não sabemos ser cidadãos. A maioria da população desconhece as garantias jurídicas mínimas, é incapaz de reivindicar direitos e, quando o faz, busca recursos que não foram oferecidos pelas instituições de governo. O diálogo com secretários municipais através de cartas em jornais e a crença de que um governante deve prover tudo são exemplos do descompasso a que me refiro.

Quando escrevo algo sobre política, já o faço com a intenção de esclarecer pontos nebulosos e a ressalva de associá-la a outras esferas, como a cultura. Cada vez que o lápis é meu cúmplice neste assunto, sinto o afã de redirecionar o que entendemos por política. Há um movimento grande para deslegitimá-la, ausentar-nos de nossos direitos e deveres, e recrudescer a influência do mercado em relações que este não está preparado para mediar.

É confortante ser cidadão, saber exercer esta prerrogativa e conhecer o seu alcance e seus limites. A política com cidadania é o que todos os brasileiros teríamos o prazer de nutrir, reverenciar e sustentar. Ao contrário, uma política sem cidadania é vazia e dela não tiramos proveito como habitantes de uma nação moderna. É cedo usar os prefixos “a” ou “pós” quando ainda não se entende nem se usufrui do sentido de “política”.

Bruno Peron Loureiro é mestre em estudos latino-americanos e analista de relações internacionais.

Gente de OpiniãoTerça-feira, 31 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Onde há fumaça, há fogo

Onde há fumaça, há fogo

Circulou em um grupo de WhatsApp de aposentados da Câmara Municipal de Porto Velho que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (G

Autismo e educação: escola regular ou especial?

Autismo e educação: escola regular ou especial?

O dia 2 de abril é celebrado mundialmente como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). Mai

A violência começa antes do crime — e a lei chega tarde

A violência começa antes do crime — e a lei chega tarde

Punir não basta: o Brasil endurece as leis, mas o problema é mais profundo.Novas medidas contra a violência e humilhação de mulheres são necessárias

É preocupante o nível de desconfiança da população nas principais instituições brasileiras

É preocupante o nível de desconfiança da população nas principais instituições brasileiras

Apesar de a democracia está plenamente consolidada no Brasil, parcela significativa da população não confia nas nossas principais instituições. O Co

Gente de Opinião Terça-feira, 31 de março de 2026 | Porto Velho (RO)