Porto Velho (RO) domingo, 20 de junho de 2021
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Artigo: Em Recife, com Dom Hélder Câmara


 

João Baptista Herkenhoff


Nesta página recordo uma viagem que fiz a Recife, em 1997, a convite do Sindicato de Servidores da Fazenda, para falar num congresso da categoria ocorrido em Gravatá. Fui discutir questões éticas ligadas à profissão fazendária. O convite me foi feito por Jorge Luís Amaral, presidente do Sindicato.

Registro outras palestras e visitas que fiz, na mesma oportunidade, inclusive palestra na centenária Faculdade de Direito do Recife. Por fim, o mais importante de tudo: relembro o encontro com Dom Hélder Câmara, fato que deu título a este texto.

A inclusão da Ética, nas preocupações do movimento sindical, revela um aspecto altamente positivo. Mostra a rejeição de uma visão corporativa de mundo, tão comum no interior de algumas categorias profissionais.

Os fazendários pernambucanos elegeram como tema do Congresso: “O Fisco e as mudanças de cenário”. Quiseram discernir tudo que se esconde neste panorama social que o neoliberalismo pretende impor como “ordem econômica”. Examinaram alternativas de resistência, que a sociedade brasileira pode opor, ao projeto neoliberal. Indagaram qual a responsabilidade dos servidores do Fisco, como parcela do conjunto dos trabalhadores, na luta a ser travada.

A pulverização do pensamento, a setorização da análise é um dos instrumentos que as classes dominantes adotam para impedir o conhecimento da realidade. A tentativa de ver o universal, de fugir das visões fragmentárias, quebra o monopólio da pretensa verdade decretada pelos poderosos da Terra.

Em Recife, compareço à Procuradoria da República, a convite da Dra. Sônia Macieira, para falar a Procuradores, Magistrados, servidores da Casa, estagiários e convidados. Debatemos o papel do Ministério Público. Vimos que a Constituição de 1988 ampliou em muito seu eixo de ação, ao lhe confiar, por exemplo, a defesa dos interesses sociais indisponíveis. Hoje o Ministério Público é peça essencial na construção da Democracia.

Vou também à Faculdade de Direito do Recife, a convite da Professora Fátima Oliveira e do Professor e Juiz Federal Dr. Roberto Wanderley Nogueira. Subo com emoção suas escadarias mais que centenárias, piso aquele chão de gloriosas tradições, penetro com unção quase religiosa no Salão Nobre, franqueado à palavra do capixaba pelo Professor Doutor João Maurício Leitão Adeodato.

Visito o GAJOP (Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares), uma organização que veio depois a servir de modelo para todo o país. No GAJOP sou recebido por Jayme Benvenuto Lima Júnior e seus companheiros de militância.

Compareço à TV Tribuna, para ser entrevistado, graças à jornalista Wedja Gouveia Gomes.

E como se não bastasse, tenho a oportunidade de rever Dom Hélder Câmara. Fisicamente alquebrado, nos seus mais de 90 anos, porém com os olhos luminosos de uma criança.

Quando lhe presenteio com um livro, no qual aparece uma página sobre D. João Baptista da Mota e Albuquerque, ele comenta com saudade e ternura: um grande Bispo, um grande amigo.

Conto-lhe um fato do qual ele acha muita graça. Digo-lhe que durante o período em que seu nome não podia ser mencionado no rádio, na televisão, no jornal, eu havia “furado” o bloqueio, num jornal do interior do Espírito Santo. Referia-me ao jornal “A Ordem”, de São José do Calçado. Eu era então Juiz da Comarca e, nesse jornal, na edição de 4 de agosto de 1969, publiquei um artigo (Reflexões após um período de férias), em cujo miolo havia cinco parágrafos em sua defesa.

Quem conhece a sociologia das cidades do interior sabe que, na arquitetura do poder local, jamais o redator-chefe de um jornal censuraria um artigo do Juiz de Direito da Comarca, ainda que tendo, na mesa do jornal, ordens expressas de escalões federais proibindo referências a Dom Hélder.

Para fechar a conversa, disse a Dom Hélder uma frase fulminante. Não esperei a reação adversa, pois tinha certeza que viria:
“Meu caro Dom Hélder,

Quando os pósteros olharem para o passado e avaliarem a dimensão de sua presença, na História brasileira, não tenho dúvida de afirmar – O Século XX será o Século de Dom Hélder Câmara.”

 

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