Quinta-feira, 7 de julho de 2011 - 09h33
Carlão Pacheco. Um dia esbarrei com esse sujeito no corredor da Minhagência. A primeira vista Carlão podia assustar. Se estava num dia de pá virada, mostrava para todos o seu mau humor, com cara de mau e voz de trovão. Mas era só fachada. Logo se descobria que aquele homenzarrão era só um meninão que gostava de brincar. E ele se divertia ao fazer esse tipo mauzão. E era só isso mesmo: um tipo, mais um dos seus personagens que ele usava para provocar quem estivesse por perto. Carlão falou uma besteira um dia qualquer e eu o chamei para conversar, decidido a dar uma dura no sujeito. Carlão veio insolente, mas desconfiado. Eu abri o verbo. Carlão foi arregalando os olhos, ficando mais vermelho, se é que isso era possível. Imaginei: o cara vai me dar uma bordoada. Ele se levantou. Pediu desculpas. Saiu. Ficamos alguns dias sem nos falar, depois nos cumprimentando formalmente e rapidamente.
Um dia a Banda Bicho du Lodo ensaiava no Zé Beer, as portas abaixadas. Carlão empurrou a porta e foi entrando, tinha uma latinha na mão. O reconheci pela silhueta recortada pela luz. A cada música que passávamos, Carlão batia palmas com suas mãos de peso pesado. Aquilo ecoava pelo salão vazio. Carlão jogou charme para a gerente do bar que estava fechado e conseguiu mais umas cervejas. Fui lá e fiz as pazes com o cara. Apresentei para os outros integrantes da banda. Todo mundo se amarrou na figura. Carlão subiu no palco e tocou gaita, irreverente.
Depois vieram as conversas sobre poesia, sobre a vida. Sobre besteiras em geral. Mas pouco falávamos sobre propaganda. Descobri que Carlão era figura conhecida na noite de Porto Velho. E querida. O redator e poeta Carlão tinha um belo texto. Boas idéias. Amor pelas mulheres, pelo blues, pelos prazeres de uma mesa de bar. Amor incondicional pela filha Pandora. Carlão gostava de praia, de pegar onda, de tirar onda. Carlão era um menino que passou pelo nosso porto e deixou a palavra saudade escrita em nossos corações. Seu último texto vai ser aprovado lá no céu.
Fonte: Rud Prado
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