Porto Velho (RO) sexta-feira, 23 de agosto de 2019
×
Gente de Opinião

Opinião

ARTIGO: A RESSACA DO ARRAIAL


 

“alegrias e tristezas na conexão pau de sebo – trio elétrico”

 

* Por Altair Santos (Tatá)

 

Silenciaram os teclados (afinal, já não se toca mais sanfona). Tememos que o Cobra Choca, afamado sanfoneiro de outros junhos maracujaenses, seja empurrado vidro a dentro e, feito cobra de laboratório, passe a contar seus dias no alto duma prateleira. Os santos do mês e nós também, repousam os ouvidos daquela batida do eletro-ritmo produzindo xotes ajaponesados em contraponto ao zabumba e triângulo. Orientalizaram de vez com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Pif, Trio Nordestino e outros. Achinezaram para sempre o forró. O enfadonho refrão de sempre, “pé de côco”, sai do ar para dar vez - no próximo final de semana - ao principal hit do universo axé, aquele grito de “tira o pé do chão galeraaaaaa!!!.”  Caipiras urbanos repousam os corpos sobre o tafetá, brocado, organza e rendados, os tecidos do figurino de então, sonhando com abadá, a indumentária de gala dos próximos dias festivos. Na transição dos sonhos os cansados vencedores e vencidos, após cinco horas de exaustiva apuração sob sol forte, adormecem na pele de catirinas para, daqui a pouco, despertarem travestidos de súditos do trio elétrico. Os décimos de pontuação que conferiram o bi-campeonato ao bumbá Diamante Negro, embalam a insônia do Gigante Sagrado (Corre Campo). O título da do Furacão do Norte (Rádio Farol), inconteste, diga-se de passagem, premia o bom gosto, a organização o trabalho planejado. Os dez pontos perdidos pela Rosa Divina (sem direito a defesa) expõem as vísceras de um regulamento unilateral, antidemocrático, ou seja: pode a acusação, mas não pode a defesa (isso é perigoso). Aliás, no paraíso do pode/não pode, não podia: pular na arquibancada, se animar no camarote, não podia se indignar, protestar, se coçar, fazer careta... Que arraial é esse! Algumas quadrilhas juninas e bumbás capricharam no esmero coreográfico, no figurino, na alegria de ser e fazer cultura popular, resultado: estão além da organização e do regulamento. Nas arquibancadas, o povo se contorcia pra tentar ver os personagens das quadrilhas, haja vista que, às suas frentes, estavam instaladas duas enormes treliças de iluminação com canhão e tudo. Nos camarotes, bem na cara dos convidados, as gruas (braços de ferro das tv`s) faziam passeios invasivos, verdadeiras acrobacias aéreas por sobre as cabeças de catirinas, cazumbás e casal de noivos. Diante de coisas boas e ruins, sobrou para a sábia inquietude do meu amigo Antonio Serpa (Basinho) discorrer sobre o fétido lamaçal que nos transpôs as narinas, sujou as chinelas e fez escorregar uma bela moça, a ponto da mesma ir direto, de bumbum ao chão. Já viu né? Ademais, estas e outras coisas como, por exemplo, os quindins e quitutes da época ali vendidos a preços estratosféricos tudo parecia muito normal e aceitável a poucos metros do zoom de pelo menos seis emissoras de tv, rádios, jornais, sites e fofoqueiros, sem que ninguém denunciasse ou sequer comentasse algo afinal, seus alvos preferidos eram os políticos que por ali circulavam. Assim sendo, deu tempo pra içar a vela e navegar direto na conexão pau de sebo – trio elétrico.

O autor é músico

tatadeportovelho@gmail.com           

 

                                           

Mais Sobre Opinião

O bom do silêncio

O bom do silêncio

Bolsonaro disse que não adianta exigir dele a postura de estadista, por que não é estadista.

Meu cargo, minha vida

Meu cargo, minha vida

Bolsonaro se revelou um profundo conhecedor da natureza humana

Cada quadrado no seu quadrado

Cada quadrado no seu quadrado

Os argentinos são como são. E não querem nem aceitam conselhos.

Feliz dia de quem matou os pais!

Feliz dia de quem matou os pais!

Dia em que Suzane von Richthofen e Alexandre Nardoni estão de férias da prisão.