Quarta-feira, 7 de abril de 2010 - 20h05
Por Marcela Alves
No mundo atual enfrentamos vários problemas de saúde pública, desde doenças bíblicas, como tuberculose, hanseníase e desnutrição, até enfermidades da era contemporânea que assolam a humanidade em grandes proporções como a Hipertensão arterial, o diabetes e a obesidade. Em meio a este arsenal de patologias que afetam a população de uma forma abrangente e que, sem dúvida, são dignas de nossa peculiar atenção neste panorama, não podemos deixar de citar uma doença silenciosa que é, segundo a maioria das fontes literárias e científicas, considerada “doença do século 21”. Esta doença tenta a todo custo competir com o paciente, tomar as rédeas de sua vida e torná-lo um simples espectador de seu próprio declínio. Esta doença passa muitas vezes despercebida pelo médico em seu exame clínico, pois não existem sinais clínicos mensuráreis com valores pré-estabelecidos indicando com exatidão sua presença, dependendo o seu diagnóstico da sensibilidade e capacidade de percepção do médico em ver o paciente como um todo indivisível, complexo e único.
Em muitos casos o próprio paciente sente-se intimidado, com receio de expor seus sintomas, por medo de não ser compreendido. Quando alguém da família é afetado, tendemos a ser indiferentes inicialmente, por crer tratar-se de um mal passageiro, e o doente trava esta dura batalha sozinho, quase sempre sem êxito, pois todo o apoio é necessário. Por causa do preconceito da sociedade ou mesmo em virtude da ignorância do paciente e sua família sobre a doença, o auxílio médico é procurado de forma tardia, dificultando ainda mais uma recuperação rápida. Esta doença é a depressão.
Para se ter uma idéia da abrangência e gravidade do problema, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da OIT (Organização Internacional do Trabalho), incluindo suas diversas manifestações típicas ou atípicas, a depressão representa a quarta doença mais diagnosticada no mundo nos últimos anos e responde por uma parcela significativa de afastamentos, baixa produtividade e acidentes de trabalho. É, também, uma das principais causas que levam à aposentadoria por invalidez. A doença causa, ainda, inúmeros problemas sociais, como empobrecimento das redes sociais e de sustentação, doenças, solidão e até suicídios (AUNE e PENNA, 2006). Vale ainda ressaltar que grande parte da população que sofre com depressão não chega a ser diagnosticada, existindo uma alta taxa de subnotificação.
Existem vários agentes etiológicos que podem estar envolvidos, desde fatores constitucionais e genéticos até fatores socioculturais e vivências traumáticas. Os sintomas são amplos e variados, porém a psicopatologia recomenda como válida a existência da tríade sintomática composta por sofrimento moral, inibição global e estreitamento vivencial. A depressão é, sem dúvida, uma doença grave que pode levar o indivíduo a se envolver ou provocar acidentes (às vezes fatais). Em um grau mais avançado pode, ainda, levar à morte da própria pessoa pela desistência da vida, seja pelo suicídio ou pelo adoecimento. Além de reconhecer estes aspectos pertinentes à doença em si, o médico deve estar munido também de senso de responsabilidade, pois não considerar relevante esta doença e as repercussões que esta traz para a vida do doente pode representar um erro sem direito à volta.
O médico, após levantar esta suspeita durante a consulta, deve encaminhar o paciente a um serviço de saúde aos cuidados de um psiquiatra para que as devidas orientações e conduta sejam estabelecidas, proporcionando uma melhor qualidade de vida àquele que sofre com este mal.
Outro empecilho para a abordagem da depressão em nosso meio são os vários tabus acerca da doença que em nada contribuem, e apenas ajudam a distanciar os doentes do auxílio médico. Uma idéia que é amplamente difundida entre a população sobre a depressão é que a mesma não tem cura e o paciente está condenado ao sofrimento por toda a vida. No entanto, sabe-se que, se tratada adequadamente e até preventivamente, ela tem cura, devolvendo à pessoa a vontade de viver. Outro problema comum é a dificuldade em procurar um psiquiatra, não só pela escassez destes profissionais em algumas localidades, mas principalmente por medo de ser intitulado como “louco”, pois muitas pessoas resumem, equivocadamente, o amplo campo da Psiquiatria, com todas as suas patologias e vertentes de tratamento, a algo que não a define em sua essência e muito deixa a desejar perto de sua abrangência. Espera-se que os futuros médicos, dotados também deste senso de responsabilidade, conscientizem-se de sua importância como difusores de idéias e ajudem a repelir estes falsos conceitos, que nada agregam, muito prejudicam e apenas afastam o paciente de uma possibilidade real de cura.
Marcela Alves é acadêmica do 8º período do curso de Medicina da Faculdade São Lucas
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