Sexta-feira, 1 de junho de 2007 - 19h31
Comparação é sempre um negócio complicado, porém, é praticamente impossível não utilizá-la. Afinal, as referências existem e não podem ser desconsideradas. É claro que existem complexidades em certas comparações, outras nem tanto.
Por exemplo: comparar Rio Branco/AC com Porto Velho/RO, no aspecto cultural é perfeitamente possível. Não adianta alegar que Rio Branco tem uma história de luta, que não foi invadida, como Porto Velho, na época da política de ocupação da Amazônia, nos anos 70. O desenvolvimento cultural, infelizmente, no Brasil é totalmente dependente de ações de governo, seja municipais, estadual e federal, de preferência integradas, o que é praticamente impossível dado o sistema de ilhas em que se tornou a política brasileira.
Agora a pergunta: por que Rio Branco é muito diferente de Porto Velho no aspecto cultural? Aliás, por que o Acre é muito diferente de Rondônia em termos culturais? Ouso a responder da pior forma possível: bem ou mal o Acre teve ou tem governantes que acreditam que somente com o desenvolvimento das pessoas haverá desenvolvimento em todos os sentidos. E a educação e cultura são os principais vetores de desenvolvimento humano.
Em Rondônia, o interesse no desenvolvimento da população não é visível, pode até existir, mas, com certeza, não é prioridade. Se temos problemas graves na educação, na cultura nem se fala, está totalmente abandonada.
Basta visitar o principal "museu" de Rondônia, o da lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré, cujos objetos, com infinito valor histórico, encontram-se ornamentados por excrementos de pombos. Na realidade não se trata de um museu, mas sim um depósito de objetos históricos dispostos de maneira aleatória. E o pior, sem nenhuma medida de conservação. Esse exemplo representa a situação geral e pertinente em Rondônia.
Na semana de 14 a 20 de maio de 2007, aconteceu a 3ª edição da Semana Nacional de Museus, realizado pela Associação Brasileira de Museologia ABM, que tem como objetivos congregar estudantes e profissionais que atuam na área de museus e afins, incentivar o intercâmbio cultural, promover e difundir conhecimentos museológicos através de eventos e cursos, conferência e publicações. Esse ano o tema foi "Museus e Patrimônio Universal".
Segundo André Malraux, os museus estão entre os locais que nos proporcionam a mais elevada idéia do homem. Eles são janelas, portas e portais, elos poéticos entre memória e o esquecimento, entre o eu e o outro; elos políticos entre o sim e o não, entre o indivíduo e a sociedade. Tudo o que é humano tem espaço nos museus. Eles são bons para exercitar pensamentos, tocar afetos e estimular ações.
Durante a semana foram realizados cerca de 1400 eventos distribuídos em mais de 460 instituições.
Agora vem a prova do abismo cultural que separa Rondônia dos demais Estados da Região Norte, e claro do resto do Brasil. Segundo a programação do referido evento, que está dividido por Regiões, a participação da Região Norte foi a seguinte:
ACRE: Casa dos Povos da Floresta, Memorial dos Autonomistas, Museu da Borracha, Governador Geraldo Mesquita, Palácio Rio Branco, Museu de Sena Madureira, Museu do Xapuri.
AMAZONAS: Museu de Manacapuru, Museu Amazônico, Museu do Homem do Norte.
AMAPÁ: Centros de Pesquisa Museológicas Museu da Sacaca.
PARÁ: Museu Paraense Emílio Goeldi, Museu da Universidade Federal do Pará, Museu de Arte de Belém, Sistema Integrados de Museus e Memoriais SIM/SECULT, Museu Aracy Paraguaçu, Museu Vale dos Tapajós, Museu Municipal de Marabá.
RORAIMA: Museu integrado de Roraima.
TOCATINS: Museu Histórico do Tocatins/Palacinho.
RONDÔNIA?????????????????????????????????????????????????????????
Por quê? Falta de conteúdo? Falta de local? Falta de pessoas capacitadas para construir e manter museus? Nada disso. É falta de política cultural. Rondônia, talvez, seja o único Estado que não tem visão cultural. Tanto que é o único Estado do Brasil que não está no folder da programação do referido evento. Que não tem um mísero museu digno de participar de uma programação nacional. Que não teve atividades voltadas para a 3ª Edição da Semana de Museus de 2007. É o único Estado que não tem perspectiva de investimentos em qualquer área. O que existe está com forte tendência de deterioração, em suas instalações físicas estruturais e patrimoniais.
A única tendência percebível, visível e em pleno curso é o desaparecimento do pouco que resta da história do Estado de Rondônia. Até os pioneiros estão desaparecendo com todo o conhecimento adquirido sem que haja ações de documentação, de preservação da história real que essas pessoas representam.
Portanto, cada vez mais nos distanciamos dos demais Estados. O abismo está "de vento em popa". Somos a vergonha da Região Norte, culturalmente falando. Que tipo de pessoas estão sendo desenvolvidas em Rondônia?
Mas nem tudo está perdido: temos conteúdo para fazer o primeiro museu do Brasil que preservará a história dos escândalos políticos que tem dado notoriedade nacional a esse Estado, onde possam estar disponível à sociedade todo o know-how, expertise, modelos, exemplo de como não fazer política.
Viva a ignorância.
Fonte: Sérgio Ramos (www.sergioramos.com.br)
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