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A “COP da verdade” e o teste de Rondônia: o que o Brasil precisa entregar além do discurso


A “COP da verdade” e o teste de Rondônia: o que o Brasil precisa entregar além do discurso - Gente de Opinião

Belém (PA) — Na abertura do encontro de líderes da Cúpula do Clima em Belém, nesta quinta (6.nov.2025), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou a régua: a COP30 — que começa oficialmente na próxima semana — deve ser a “COP da verdade”. Um slogan potente que vem com cobrança severa: decisões ancoradas na ciência, mais financiamento e, principalmente, proteção efetiva da Amazônia. O discurso conectou clima, fome e desigualdade, ampliando o alcance político da agenda. Até aqui, estou com ele.

O recado central

Lula repetiu o que o mundo já sabe: acelerar a saída dos combustíveis fósseis, triplicar renováveis e dobrar a eficiência até 2030. O foco, porém, foi o dinheiro: ligar Belém ao acordo financeiro fechado em Baku (COP29). O “Roteiro Baku–Belém” mira US$ 1,3 trilhão/ano até 2035 para países em desenvolvimento. É inédito — e precisa sair da promessa e virar obra no chão.

Por que a urgência agora?

2024 foi o ano mais quente do registro, com média anual perigosamente próxima de 1,5 °C acima do período pré-industrial, apontam OMM e Copernicus. Não é “apocalipse retórico”; é a nova fisiologia do clima: secas mais duras, enchentes mais frequentes, ondas de calor que fritam as cidades. Trazer a COP para o coração da Amazônia encurta a distância entre sala de negociação e quem vive o problema no território. Faz sentido.

E o que isso tem a ver com Rondônia?

Tudo. Rondônia é laboratório dos extremos — e das oportunidades da transição.

  • Agronegócio. Em um estado pecuarista, previsibilidade é insumo. Reduzir desmatamento e fogo protege produtividade, diminui perdas na seca e mantém acesso a mercados que exigem rastreabilidade e desmatamento zero ao longo da cadeia. É sobrevivência econômica.
  • Energia. Somos peça-chave com as hidrelétricas do Madeira (Jirau e Santo Antônio). Mas depender de uma só matriz é arriscado. A expansão da geração solar e do uso de biomassa gera empregos locais e reforça a segurança elétrica em sistemas isolados e áreas rurais dispersas — com menor custo no longo prazo.
  • Cidades e saúde. O dilema é prático. Em Porto Velho, a cheia histórica de 2014 e as estiagens severas recentes ilustram o preço da inação: milhões em reconstrução e pressão na saúde (problemas respiratórios). Adaptação urbana — macrodrenagem, manejo de calor, água e saneamento — é mais barata, e mais humana, do que refazer a cidade a cada evento extremo.

Há boa notícia: caiu o desmatamento anual estimado em 2024/2025. O desafio permanece: incêndios e seca seguem pressionando a floresta e a nossa qualidade do ar. Há avanço — sem licença para tirar o pé.

O ponto cego da coerência

Aqui a “COP da verdade” esbarra no primeiro obstáculo. O governo pede para superar a dependência de fósseis, mas avança o licenciamento exploratório de petróleo na Margem Equatorial. O argumento oficial é que é fase exploratória, sob salvaguardas. No tabuleiro global, soa como ruído de coerência. Em Belém, isso vai aparecer.

O que falta dizer (e fazer)

Se o Planalto reivindica a “COP da verdade”, a cobrança começa com CEP brasileiro. Falta apresentar, com data e número:

1.    NDC-2025 (compromissos para 2035/2040) com metas absolutas e setoriais (energia, agroflorestas, transportes), compatíveis com 1,5 °C;

2.    Calendário do pico e do declínio de petróleo e gás, com plano de substituir térmicas fósseis por capacidade firme limpa;

3.    Roteiro para triplicar renováveis e dobrar a eficiência até 2030 — traduzido em leilões, linhas de crédito e política industrial;

4.    Desmatamento zero até 2030, com metas anuais por bioma e pagamento por resultados a estados e municípios;

5.    Pacote financeiro doméstico (taxonomia verde, garantias, fundos subnacionais) para atrair o capital prometido em Baku a projetos bancáveis aqui no Norte.

O que está em jogo

Belém oferece ao Brasil uma vitrine raríssima: liderar a conversa global e entregar em casa. Para Rondônia, a escolha é prática: ou o estado surfa a transição — com cadeias produtivas limpas, energia moderna e proteção florestal —, ou paga a conta da instabilidade climática com prejuízo no campo, emergência urbana e custo de vida mais alto.

Resumo da cúpula: discurso forte, agenda correta, janela curtíssima. A “verdade” que o Planalto reivindica será medida pelos anúncios concretos que saírem de Belém — e, sobretudo, pelo que chegar a todas as regiões de Rondônia — do Vale do Guaporé ao Cone Sul, da BR-364 ao Vale do Jamari — em forma de obra, crédito, tecnologia e emprego sustentável.


Lúcia Amaral* - Doutora em Administração (USCS) e mestre em Educação – Currículo (PUC-SP). Atua em currículo, gestão e educação para a sustentabilidade. Técnica em Assuntos Educacionais no IFSP. Opiniões pessoais; não representam o IFSP.

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