Terça-feira, 21 de outubro de 2008 - 07h37
Alda do Amaral Rocha, de Paris - Jornal Valor Econômico
A falta de crédito para importação e o excesso de oferta de carne bovina, principalmente brasileira, na Rússia virtualmente paralisaram as vendas do produto do Brasil para aquele mercado. Com a incerteza em relação à capacidade de pagamento dos russos por conta da crise financeira internacional, frigoríficos brasileiros já suspendem a produção destinada àquele país. Os russos, por sua vez, pedem prazos maiores para pagar a carne que está a caminho ou que já chegou aos portos de São Petesburgo e Roterdã, na Holanda. E cresce o temor de que os russos poderão não cumprir contratos de importação.
Luis Carlos de Oliveira, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), diz que recebeu da entidade que reúne importadores russos de carne correspondência em que alega dificuldade de crédito junto a bancos para pagar a mercadoria adquirida. As partes se reunirão hoje em Paris, onde acontece o Sial (Salão Internacional de Alimentação) para tratar do tema. Importadores também reclamam da taxa de demourrage que têm pago, já que há produto parado nos portos.
Além do crédito escasso, a grande oferta de produto explica a decisão russa de pedir mais tempo para pagar ou queda no preço da carne comprada. Segundo uma empresa exportadora brasileira, em 15 dias o preço da tonelada de cortes dianteiros exportados à Rússia caiu de US$ 4.300 para US$ 3.200 por causa da maior oferta. Outra razão é o câmbio: como o real perdeu valor ante o dólar, os importadores pressionam, pois na prática, os exportadores do Brasil estão recebendo mais reais por tonelada vendida em dólar.
Alexei Ionov, da Agroimport, uma das maiores importadoras de carnes da Rússia, disse que o Brasil ofertou muita carne bovina recentemente. Só em agosto, a importação do produto brasileiro chegou a 45 mil toneladas, ante as 25 mil toneladas mensais normais. Ele disse que os importadores de menor porte têm tido dificuldade de obter crédito para comprar. A expectativa é de alguma injeção de crédito pelo governo da Rússia, o que ainda não ocorreu. Ionov se esquivou de responder se há uma tentativa de reduzir preços, mas não descartou a possibilidade.
"Já sinalizamos que não vai haver renegociação", afirmou Oliveira. Ele admitiu, porém, a ampliação de prazos de pagamento como alternativa. Roberto Russo, presidente do frigorífico Independência, disse, que na média, importadores pagam 20 dias após a compra da mercadoria. Com o novo cenário, estão pedindo mais 10 a 15 dias. "O fluxo [de negócios] não vai parar", disse, apesar do impasse.
A Abiec não tem estimativa do volume de carne bovina destinada à Rússia que está parada em fábricas brasileiras e portos, mas, no mercado, acredita-se que sejam cerca de 90 mil toneladas. O impasse com a Rússia preocupa pois o país é hoje o principal cliente do Brasil, com US$ 1 bilhão importados entre janeiro e setembro deste ano, segundo a associação. No total, entre carne in natura e industrializada, as exportações brasileiras alcançaram US$ 3,9 bilhões no intervalo.
O exportadores admitem, ainda, que diante das oscilações do câmbio fica difícil fechar novos contratos. O fato é que tanto importador quanto exportador adiam negócios atualmente por não saber o valor do dólar.
A jornalista viajou a convite da Abef
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