Terça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Meio Ambiente

Rio Acre atinge níveis cada vez mais extremos na seca e na cheia


 

 

Gente de OpiniãoMarcos Chagas
Enviado especial da Agência Brasil

Rio Branco – Estudos hidrológicos feitos por técnicos da Secretaria de Meio Ambiente do Acre (Sema) em parceria com a Agência Nacional de Água (ANA) demonstram que o Rio Acre tem apresentado níveis cada vez mais extremos, tanto nas enchentes quanto nas secas. Em 2011, o rio atingiu uma lâmina d’água de 1,5 metro, a segunda pior em 40 anos. A tendência é que a seca deste ano, que vai de agosto a outubro, a situação seja ainda pior.

A assessora técnica e engenheira florestal da Sema, Vera Reis, disse que as medições do nível do rio chegaram a 2,05 metros no início da estiagem. “Até meados de setembro, a tendência é que ele continue baixando”, acrescentou.

Segundo a técnica, os estudos apontam que as “alterações extremas” do Rio Acre são causadas pelo desmatamento, por ocupações irregulares, pelas queimadas e pela expansão das estradas. No período de estiagem, o rio é abastecido por lençóis freáticos que ficam comprometidos por essas ações.

“Nesta fase temos problemas de desabastecimento fortíssimo”, ressaltou Vera Reis. “Todas essas ações predatórias, além de outras, comprometem a vazão do Rio Acre ajudando na provocação de cheias que atingem boa parte da capital acriana”, disse.

Outro problema é a pouca informação sobre o comportamento hidrológico do rio. Em 2011, por exemplo, os técnicos da Sema consideravam que não haveria estiagem forte devido o longo período de cheia do rio, com fase crítica em abril. “Em 11 de setembro, tivemos a maior seca dos últimos 40 anos”, contou Vera Reis.

Em janeiro de 2012, o alagamento atingiu 17,6 metros, enquanto que o nível médio é 7,5 metros. O estado de alerta, segundo a técnica, é dado quando o nível do rio atinge 13,5 metros, momento em que água começa a entrar e alagar casas de moradores em bairros ribeirinhos.

Para melhorar a avaliação preventiva de cheias e secas, foi montada uma Unidade de Situação na Universidade Federal do Acre. Em parceria com a ANA, a unidade deve iniciar o funcionamento a partir deste ano, estima a técnica.

“Esta unidade moderniza nossa rede de hidrometeorologia que recebe informações sobre ocorrências de chuvas, níveis do rio e quando elas atingirão as cidades”, disse Vera Reis. O monitoramento permitirá aos bombeiros e à Defesa Civil adotar medidas preventivas capazes de minimizar as consequências das enchentes.

Estão sendo tomadas também medidas de conservação e preservação do Rio Acre. Entre elas, a recuperação de nascentes e plantio de mudas frutíferas em habitações ribeirinhas. A técnica informou que já foram plantadas 3 milhões de mudas para a recuperação de matas ciliares e nascentes do rio.

A falta de saneamento básico em bairros na beira do rio, como o Taquari na capital Rio Branco, é outro desafio a ser enfrentado. Ao visitar o bairro, a reportagem da Agência Brasil constatou derramamento de esgoto não tratado nas margens do rio. Os moradores não têm água potável, nem rede de esgoto.

Dada a forte estiagem em alguns pontos, é possível atravessar a pé o rio de uma margem à outra. A dona de casa e moradora do Taquari, Maria das Dores de Santana, 67 anos, reconhece que, apesar da poluição, usa a água do rio para cozinhar.

Gente de Opinião“Às vezes, eu uso a água do rio para cozinhar. Eu trato, coloco hipoclorito e uso. Graças a Deus até hoje não deu problema de saúde”, contou a moradora, que no período das cheias foi obrigada a deixar a casa onde vive. Para beber, ela disse que a filha compra galões de água potável.

Antônio Ferreira de Oliveira, pedreiro, 35 anos, também mora no bairro. Porém, pagou cerca de R$ 400 para construir um poço, chamado de cacimbão. Ribeirinho desde que nasceu, Antônio reconhece que “antigamente” o comportamento do rio nos períodos de chuvas e de estiagem não era tão severo.

“Ninguém sabe o que está acontecendo, o clima tá muito quente, amigo”, disse Antônio. O vizinho dele, Raimundo Lima Rebouças, 67 anos, teme que seu poço fique seco em um mês por causa do agravamento da seca. Diante da falta de água, o auxiliar de portaria de uma escola pública disse que compra 500 litros do caminhão-pipa. A quantidade dá para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupa durante quatro ou cinco dias.

A cada compra, Raimundo Lima desembolsa R$10. Para quem tem caixa d'água com capacidade de mil litros, o custo dobra – o que movimenta uma verdadeira indústria de caminhões-pipa que vendem água nas comunidades pobres.

Gente de OpiniãoTerça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

‘Rio Madeira, as mudanças climáticas e os grandes empreendimentos’ será tema de audiência pública em Porto Velho (RO)

‘Rio Madeira, as mudanças climáticas e os grandes empreendimentos’ será tema de audiência pública em Porto Velho (RO)

A comunidade ribeirinha do Baixo Madeira e a população em geral de Rondônia estão convidadas a participar da audiência pública ‘Rio Madeira, as muda

Plataforma de identificação e mensuração de riscos ambientais da brasileira LandPrint é uma das 12 melhores soluções do mundo para prevenção de desastres no planeta, segundo a ConservationXLabs

Plataforma de identificação e mensuração de riscos ambientais da brasileira LandPrint é uma das 12 melhores soluções do mundo para prevenção de desastres no planeta, segundo a ConservationXLabs

A startup brasileira LandPrint acaba de ser reconhecida como uma das 12 melhores tecnologias globais para análise de riscos físicos e financeiros as

Ecobags para coleta de garrafas PET são doadas pela prefeitura de Porto Velho

Ecobags para coleta de garrafas PET são doadas pela prefeitura de Porto Velho

Aquela garrafa PET vazia, que muitas vezes acaba esquecida em casa, pode ganhar um novo destino.A Prefeitura de Porto Velho, por meio da Secretaria Mu

Crea-RO e WR Ambiental apresentam projeto sustentável de coleta de recicláveis ao prefeito de Porto Velho

Crea-RO e WR Ambiental apresentam projeto sustentável de coleta de recicláveis ao prefeito de Porto Velho

O Crea-RO e a WR Ambiental apresentaram ao prefeito de Porto Velho um projeto sustentável voltado à coleta de resíduos recicláveis durante eventos d

Gente de Opinião Terça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)