Porto Velho (RO) quarta-feira, 19 de setembro de 2018
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Meio Ambiente

Pesquisadores analisam hábitos alimentares de indígenas e ribeirinhos do Amazonas


 

Amanda Mota
Agência Brasil


Manaus - Identificar os itens mais comuns consumidos durante as refeições por indígenas e ribeirinhos que vivem no interior do Amazonas e saber se o hábito alimentar dessas comunidades está de acordo com os padrões de segurança alimentar têm despertado cada vez mais interesse de pesquisadores na Amazônia. Este ano, durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus, esses temas também foram destaque e ganharam espaço privilegiado na sessão de pôsteres do evento.

Uma das pesquisas apresentadas foi a da estudante de mestrado em ciências do ambiente e sustentabilidade na Amazônia Ivanilce Castro. Durante um ano, ela avaliou a percepção de crianças que vivem em duas comunidades indígenas do Alto Solimões, no oeste do Amazonas. O grupo observado faz parte das etnias Ticuna e Cocama. Ivanilce também integra o Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos Amazônicos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Em entrevista à Agência Brasil, ela explicou que a análise faz parte de uma pesquisa realizada com o objetivo de entender como se dá o aproveitamento dos recursos naturais e se os alimentos fornecidos pela floresta são suficientes para as duas comunidades.

“Descobrimos que as comunidades têm seu próprio sistema de governança ambiental porque  pensam como fazer a produção, usam diversos ambientes para isso, incluindo terra firme e várzea, pescam, fazem extrativismo e têm pequenas criações de animais de pequeno porte. Elas mesmas fazem a gestão e o manejo desses recursos. Na pesquisa, descobrimos que a disponibilidade de alimentos para as comunidades indígenas do Alto Solimões é regular.”

Segundo a pesquisadora, a extensão territorial por onde passa o Rio Solimões vai desde Tabatinga, no Amazonas, até Gurupá, no Pará. Ivanilce ressalta que a diversidade de frutas encontradas na calha do rio se sobressai exatamente no Alto Solimões e destaca, como exemplo, as frutas mapati (conhecida como uva da Amazônia) e a sapota, que tem formato parecido com o de um pequeno mamão e sabor semelhante ao da manga. De acordo com ela, as crianças costumam consumir essas frutas com frequência.

“Essa região é riquíssima em variedades de frutas. Na área de terra firme, percebemos que há mais espécies de fruteiras em relação à área de várzea. Contudo, a maior estabilidade na produção está nas várzeas por causa da estabilidade do solo. O açaí é outro fruto muito marcante nessa localidade”, constatou Ivanilce.

“Seria importante que, para a formulação de políticas públicas voltadas para a Amazônia, fossem consideradas as diferenças e, no caso do Alto Solimões, essa regularidade de alimentos e também as diferenças entre as áreas de terra firme e de várzea. A produção precisa ser incentivada e também acompanhada para que, como aconteceu este ano, no casos de enchentes, seja possível apontar alternativas viáveis para garantir a manutenção dessas produções, como canteiros suspensos de hortaliças”, acrescenta.

Em outra parte do estado, no município de Coari do Amazonas, a 370 quilômetros de Manaus, a diversidade de frutas aliada à prática da agricultura e da pesca de subsistência do Alto Solimões não foi uma característica verificada na rotina alimentar das comunidades ribeirinhas. Buscando compreender melhor o perfil nutricional das donas de casa que vivem às margens dos rios na cidade, a estudante Kaliny de Souza Lira, que cursa nutrição na Ufam em Coari , dedicou-se entre os dias 22 e 30 de dezembro do ano passado a visitar e avaliar aproximadamente 200 ribeirinhos. Ela foi uma das integrantes de expedição realizada pelo Núcleo de Epidemiologia e Saúde Coletiva do Médio Solimões, também da Ufam.

“Optamos por observar as donas de casa porque são elas que vão influenciar diretamente a alimentação de todos os moradores de uma residência. Em geral, ela determina o que será comprado e o que será plantado. Partimos da curiosidade de saber se isso está se dando de forma positiva ou negativa.”

Para fazer a pesquisa, Kaliny também recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam). Segundo ela, um dos objetivos foi orientar os ribeirinhos sobre hábito alimentar. Uma das conclusões é que essas comunidades estão consumindo muitos produtos industrializados, sobretudo, refrigerantes, enlatados e frangos.

“Eles deixam de fazer sua própria produção e pesca, por exemplo, para consumir o que é vendido na cidade. Também verificamos que nessa área o consumo de frutas é limitado. Percebemos que o cultivo de frutas vem diminuindo e se restringe ao que está mais de fácil alcance como goiabas. Poucos ribeirinhos plantam frutas como abacaxi e ingá. Eles também estão consumindo muitos doces e, por isso, sem saber ou reforçar os cuidados na escovação dos dentes, acabam tendo problemas de saúde bucal”, diz a universitária.

“Procuramos sempre reforçar que eles têm todas as condições para ter uma alimentação mais saudável, fazendo, por exemplo, o plantio de hortaliças sem agrotóxicos e a pesca”, acrescentou.

O trabalho de Kaliny revelou ainda que em torno de 33% dos 200 ribeirinhos visitados apresentam obesidade, resultado da falta de orientação alimentar. Para os pesquisadores, governos e autoridades precisam dar mais atenção às populações que vivem no interior do Amazonas, principalmente as mais isoladas, os ribeirinhos e os indígenas. A pesquisa revelou que essas populações têm muita carência de cálcio e ferro, por exemplo.

“Essas pessoas com obesidade do tipo 2 já estão caminhando para a do tipo 3, que é de maior risco. Isso é preocupante e é preciso dar mais atenção para essa população porque a obesidade se associa a outros problemas como doenças cardiovasculares e que podem se agravar. Há necessidade de um monitoramento maior dos ribeirinhos e indígenas. Muitos desconhecem a importância de uma alimentação saudável.”

Considerada um espaço diferenciado para divulgação da ciência, a sessão de pôsteres da 61ª Reunião Anual da SBPC em Manaus trouxe este ano 2.290 trabalhos de pesquisa. Cerca de 460 foram apresentados por dia, nas áreas de engenharia, artes, letras e linguística e ciências exatas, da terra, biológicas, agrárias, da saúde, sociais aplicadas e humanas. A partir de outubro, os resumos dos trabalhos serão publicados em livro eletrônico no site da SBPC.

 

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