Porto Velho (RO) domingo, 5 de abril de 2020
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Meio Ambiente

Pesquisador vê alternativa ao extrativismo na floresta


                          Agência Amazônia

                  CRUZEIRO DO SUL (AC) — O extrativismo não é a panacéia para
                  Amazônia, advertiu em Cruzeiro do Sul (AC), na fronteira
                  brasileira com o Peru, o pesquisador da Empresa Brasileira de
                  Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Belém, Alfredo Homma. Ele
                  participa da Reunião Regional da Sociedade Brasileira Para o
                  Progresso da Ciência (SBPC). 

                  Para o cientista, o extrativismo ébom quando o mercado é
                  pequeno, no entanto, quando ele cresce, o setor não consegue
                  atender a demanda, porque existe uma oferta fixa determinada
                  pela natureza. "Depois do assassinato de Chico Mendes, em
                  dezembro de 1988, o extrativismo ficou sendo a grande solução
                  para conter desmatamento e melhorar renda. Diziam que,
                  deixando a floresta em pé, seria possível o pessoal ganhar
                  mais", comentou.

                  Espécies domesticadas

                  O pesquisador recomendou medidas para solucionar a questão. A
                  Amazônia tem 71 milhões de hectares de terras desmatadas que
                  podem ser usadas para plantar espécies domesticadas oriundas
                  do extrativismo e de potencial como pau-rosa, pupunha,
                  castanheira, seringueiras, cupuaçu e outras, recomenda o
                  pesquisador. "Estamos perdendo muitas alternativas e
                  oportunidades de mercado", afirmou.

                  Conforme Homma, o extrativismo de pau-rosa na Amazônia chegou
                  no auge na década de 50 com exportação de 450 toneladas, e
                  hoje chega no máximo a 20 a 30 toneladas por ano. A espécie é
                  usada para alta perfumaria fina, como o perfume Chanel-5.
                  "Antes usava óleo de pau rosa para fazer sabonete Phebo. Mas o
                  litro custa mais de R$ 200. Nós já devíamos ter plantado pau
                  rosa na Amazônia para cortar 30 mil árvores por ano", observou.

                   Aids e câncer

                  "Ficam falando muito na biodiversidade imaginária, na
                  biodiversidade abstrata e esquecendo essa biodiversidade do
                  presente, concreta", afirma Homma. "A gente fica dormindo",
                  disse ele, e cita como exemplo o caso do pau rosa que não está
                  sendo cultivado.

                  "O pessoal está pensando que vai encontrar uma planta que vai
                  curar câncer ou Aids, e de uma hora para outra vamos ficar
                  ricos", comenta Homma. Para ele, tem muita coisa divulgada na
                  mídia nesse sentido. A biodiversidade é qualquer planta:
                  laranja, jambo, caju e boi também. Tem a biodiversidade do
                  passado, do presente e do futuro, assinala.

                  O pesquisador lembra que muitas plantas sofreram o processo de
                  domesticação, a exemplo do guaraná. "Agora ninguém mais fala
                  de fazer o extrativismo de guaraná. Na década de 70 a produção
                  não passava de 200 toneladas por ano. Hoje produz 5 mil
                  toneladas, 20 vezes mais que na fase extrativa", compara.

                  Nos últimos 10 mil anos, o homem domesticou mais de 3 mil
                  plantas e centenas de animais. "Hoje nenhum de nós compra
                  laranja, banana nem maçã extrativa. A domesticação provoca o
                  colapso da economia extrativa. Uma das plantas domesticadas
                  foi a seringueira, pelos ingleses. "Eles perceberam que o
                  mundo não podia ficar dependendo de uma coleta extrativa de
                  borracha". 

                  Variáveis e desagregação

                  "Ao contrário do que está sendo falado que é uma coisa que
                  pode durar ad infinitum, o extrativismo se sujeita a diversas
                  variáveis que levam à sua desagregação. Homma conta que
                  Cruzeiro do Sul foi forte na economia extrativa da borracha.
                  No País, nos últimos 10 anos a produção extrativa de borracha
                  despenca de 23 mil toneladas para 4 mil toneladas. 

                  Segundo ele, o pessoal está deixando de cortar seringa, apesar
                  do discurso em prol da seringueira, chegando à conclusão que
                  não dá para viver do extrativismo. "Cruzeiro do Sul, grande
                  exportador de farinha para o estado do Amazonas, está ganhando
                  mais dinheiro em produzir farinha do que em catar borracha".

                  "Isso não quer dizer que devamos acabar como extrativismo.
                  Longe disso", ressalva. "O extrativismo foi muito importante
                  no passado, é importante no presente e tem muitas plantas
                  extrativas com grande estoque que vai continuar por muito
                  tempo", observa, ao dar como exemplo o açaí no Pará, embora
                  existam plantios em Espírito Santo e São Paulo. 

                  Guaraná baiano e castanha

                  O maior plantador de guaraná não é mais o estado do Amazonas;
                  é a Bahia. "Foi uma oportunidade de mercado que perdemos",
                  disse Homma. O cupuaçu é exemplo de outra planta que foi
                  domesticada nos últimos 10 anos. Há 25 mil hectares plantados
                  de cupuaçu e a pupunha está entrando em domesticação.

                  "Devíamos também plantar castanha, cuja oferta é 100%
                  extrativa. A Bolívia é o maior produtor. Temos de pensar em
                  plantar hoje para tentar colher daqui a 15-20 anos", aconselha
                  Alfredo Homma.

                   O pesquisador assinala que "com essa febre do extrativismo
                  foi criada uma falsa concepção de que todo produto é
                  sustentável, o que não é verdade. A sustentabilidade econômica
                  não garante sustentabilidade biológica. E sustentabilidade
                  biológica não garante sustentabilidade econômica", explica.
                  Amazonense nascido em Parintins, Homma diz que o modelo do
                  Acre não pode ser espalhado para o Amazonas ou Pará. "Cada
                  estado apresenta uma economia distinta".

                  Num seringal com 500 hectares, estão dispersas 450
                  seringueiras em três estradas de seringa, 150 árvores em cada
                  estrada, com baixa produtividade da terra e da mão-de-obra,
                  conta Homma. "Essas 450 árvores cabem num campinho de futebol
                  , o que reduz o custo, aumenta a qualidade".

                   Com informações do Jornal da Ciência, da SBPC
 
                   AGÊNCIA AMAZÔNIA (*)
                  contato@agenciaamazonia.com.br

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