Porto Velho (RO) quarta-feira, 1 de abril de 2020
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Meio Ambiente

OS RIOS VOADORES CORREM RISCO DE SECAR


A umidade que transpira da floresta abastece de água outras áreas do País - e os impactos lá são sentidos aqui

Herton Escobar - Estadão de São Paulo

É uma máquina de fazer chuva funcionando a todo vapor. Às 5 horas da manhã, o sol já surge sobre a Amazônia. Parece mergulhado em uma espessa nuvem de umidade que emana da floresta em direção à atmosfera. Do alto de uma torre de alumínio de 54 metros, erguida no meio da mata, ao norte de Manaus, o ecólogo Flávio Luizão, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), assiste a tudo com atenção. E o especialista, que já viu aquilo centenas de vezes, ainda se espanta com a quantidade de água.

Olhando do alto é possível ver como a floresta mexe com o clima. De toda a umidade que entra do Atlântico pelo Norte do País e que vira chuva sobre a Amazônia, só metade é drenada de volta ao mar, levada pelos rios. A outra metade é reciclada pela floresta, devolvida à atmosfera e exportada para outras regiões, segundo o especialista Enéas Salati, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável. A maior parte é empurrada pelo vento em direção ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul, ajudando a irrigar colheitas e abastecer hidrelétricas nas áreas mais produtivas do País.

A torre é uma das 16 instaladas na Amazônia como parte do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), um projeto internacional que há dez anos estuda as interações entre a biologia e o clima. Instrumentos científicos no solo e acoplados à estrutura metálica registram os sinais vitais da floresta: produção de vapor, radiação, variações de temperatura, gás carbônico que entra e sai.

Na baixa atmosfera, a umidade que transpira da floresta vai desaguar em um "rio voador" que flui do Atlântico e entra no País pela costa do Pará, carregado de água evaporada do oceano. Ao passar por cima da Amazônia, os vapores oceânico e da floresta se misturam, formando uma gigantesca carga de ar úmido. Cerca de metade, segundo os cientistas, vai virar chuva na própria região e metade será carregada para longe. Ao "bater" nos Andes, a corrente se volta para o sul e passa a fluir em direção à Bacia do Prata, passando sobre várias regiões do Brasil.

"Quando você toma um copo d’água em São Paulo, está bebendo água da Amazônia também", diz o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Com o avanço do desmatamento, esse fluxo corre o risco de ser quebrado. Quanto menos floresta, menor é a transpiração e menos água é devolvida à atmosfera, prejudicando a formação de chuvas. Um trabalho publicado por Sampaio e outros pesquisadores mostra que uma redução de 40% na cobertura florestal do leste da Amazônia já seria suficiente para desencadear mudanças climáticas severas na região, com aumento de temperatura e redução dos índices pluviométricos.

"A Amazônia vai ficar mais seca, com certeza", decreta o especialista José Marengo, meteorologista do Inpe. Quem vive fora da Amazônia também teria muito a perder. "Estudos indicam que a perda da floresta pode mudar os níveis de precipitação em vastas áreas do território da América do Sul, como o Centro-Sul, Sudeste e Sul do Brasil", afirma Marengo, num relatório que escreveu sobre o tema para o projeto Brasil das Águas. "Pensando em cenários de mudança de clima, com o desmatamento aumentando, conseqüências diretas sobre as estações chuvosas são esperadas, embora ainda não seja possível quantificar essa mudança."

Pode parecer paradoxal, mas é possível que, mesmo sem o vapor d’água da floresta, a quantidade de chuvas no Sul aumente com o desmatamento. O volume de vapor que entra do oceano pelo rio voador é enorme: 600 mil metros cúbicos de água por segundo, três vezes maior do que a vazão do Rio Amazonas, segundo o pesquisador António Manzi, do Inpa. Sem a floresta para consumir parte desse fluxo, e com o agravamento das mudanças climáticas, o vapor do oceano poderá passar como um trem expresso pela Amazônia, chegando com muito mais força ao seu destino final. Em vez de funcionar como um sistema de irrigação, o rio voador se transformaria numa seqüência de enxurradas, com curtos eventos de chuva forte seguidos por longos períodos de estiagem - um cenário péssimo para a agricultura.

"O ar flui mais rápido sem a floresta e não dá tempo de chover. Só vai chover no final", explica Marengo. "O Sul terá mais chuva, mas ela será mal distribuída. O efeito maior será de falta de água."

Para alguns pesquisadores, o rio voador corre o risco de secar totalmente, transformando grandes áreas do Sudeste e do Sul em desertos. "Você tira a floresta e o continente inteiro pode virar uma savana", sentencia o ecólogo António Nobre, do Inpa. Ele se apóia no trabalho de uma dupla de físicos russos, segundo o qual a transpiração da floresta funciona como uma válvula de sucção que puxa o ar úmido do oceano para dentro do continente. O desmatamento enfraqueceria esse mecanismo, podendo provocar, até mesmo, uma mudança de direção dos ventos, que passariam a soprar umidade para fora do continente.

"Embora haja indicação de que o impacto hidrológico do desmatamento seria menor que o imaginado, ocorre o oposto", afirma o biólogo Philip Fearnside, também do Inpa. A contribuição da Amazônia para as chuvas do resto do País, segundo ele, pode ser maior do que se imagina. "Podemos não saber a quantidade exata, mas é muito".

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