Porto Velho (RO) quinta-feira, 9 de abril de 2020
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Meio Ambiente

Estudo mostra que umidade amazônica influencia chuvas de outras regiões do país


O vapor d'água proveniente da transpiração das plantas e da evaporação na floresta amazônica, transportado pelas massas de ar, pode ter impacto sobre as chuvas do país, incluindo as regiões Sudeste e Centro-oeste. Essa é uma das conclusões do projeto Rios voadores, que vem estudando a importância da floresta amazônica no ciclo hidrológico brasileiro. O objetivo do projeto é avaliar as consequências do desmatamento da floresta amazônica e seu impacto, não apenas no local, mas em outras regiões do Brasil e da América do Sul.

Ao longo de dois anos, o engenheiro e ambientalista Gérard Moss, acompanhado pelo colega de equipe Tiago Iatesta, fez 12 voos a bordo de um monomotor para captar amostras de vapor de água. As expedições concentraram-se no eixo transversal Amazônia-Sudeste. Cidades como Belém, Santarém, Manaus, Alta Floresta, Porto Velho, Cuiabá, Uberlândia, Londrina e Ribeirão Preto foram sobrevoadas por Moss em sua busca das correntes de ar carregadas de umidade -- os chamados ‘rios voadores’. 


Mil amostras 

Para determinar sua rota de caça, Moss contou com o apoio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que forneceu diversas informações, como a direção dos ventos, temperatura e umidade do ar. Esses dados, captados por radiossondagem – medição feita diariamente nos campos de aviação por meio de balões no ar – foram transformados em modelagens meteorológicas.

Ao todo foram coletadas mil amostras de águas, sendo 500 de rios, lagos e chuvas e 500 de vapor d’água atmosférico em diversas altitudes. Um dispositivo instalado na janela do monomotor coletava o ar ambiente que, ao passar por um tubo de vidro cercado de gelo seco, condensava a umidade do ar em gotas d’água. Depois de cada campanha voada, essas amostras de gotas preciosas foram analisadas pelo Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba.  

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A água evaporada do rio Juruá contribui para a umidade local (foto: Margi Moss).



À frente da pesquisa científica está o professor Eneas Salati, diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), responsável por estudo fundamental sobre o ciclo hidrológico da Amazônia nos anos 1970.

Para tentar identificar a origem, a dinâmica e o deslocamento das massas de ar e de vapor d’água, foi feito o estudo de isótopos de hidrogênio (H 2 , deutério) e oxigênio (O 18 ) do vapor d’água da atmosfera em diversas altitudes.

“Por terem propriedades físico-químicas distintas, as moléculas de água que contêm esses isótopos comportam-se diferentemente durante os processos de evaporação, transpiração e condensação do vapor d’água”, explica Salati. Esse comportamento diferencial permite acompanhar o que ocorre com o vapor d’água proveniente do oceano e os processos aos quais é submetido até o momento em que, ao condensar, produz as nuvens e as precipitações associadas. 


Mais amostras em menos tempo
 

A análise isotópica foi realizada no Cena, com a colaboração dos pesquisadores Marcelo Zacarias Moreira e Reynaldo Luiz Victoria. Com recursos da Petrobras, que financiou o projeto, a USP conseguiu importar um equipamento similar ao utilizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena, um espectrograma de massa que permite analisar mais amostras em menor tempo, sem comprometer a precisão do estudo. O aparelho joga um feixe de laser e observa as diferentes formas como cada molécula de água absorve o laser.

Segundo Moss, o reconhecimento da existência do fenômeno dos ‘rios voadores’ já é de suma importância. “Ao sobrevoar o estado de São Paulo num certo dia, durante o projeto, encontramos um ‘rio voador’ cuja ‘vazão’ naquele dia era de 27 vezes a do rio Tietê. Boa parte dessa umidade vinha da Amazônia”, ressalta o ambientalista. Ele espera que os resultados do projeto motivem mais políticas públicas e pesquisas na área antes que seja tarde demais.

Moss destaca que é extremamente arriscado para a economia do país que permitamos a continuação da devastação amazônica sem medir as conseqüências duradouras sobre o clima brasileiro. “Uma árvore amazônica de grande porte é capaz de colocar cerca de 300 litros de água por dia na atmosfera. Sua retirada não atinge somente a Amazônia, mas todas as outras regiões para onde a água é transportada pelos ventos”, explica.

Marcella Huche
Ciência Hoje/RJ

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