Porto Velho (RO) domingo, 23 de setembro de 2018
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Meio Ambiente

DANIEL PANOBIANCO: Esse é o rio Jaru hoje!


Queimadas em agosto:
Os números do desenvolvimento!

A quantidade de focos de incêndios no Brasil ainda vai aumentar. O mês de setembro é considerado como o mais crítico em números de queimadas e conseqüentemente, em emissão de gases poluentes na atmosfera. CLIQUE E VEJA FOTOS DAS PRAIAS DO RIO MADEIRA EM FRENTE AO BELMONT

Daniel Panobianco – Os números de focos de queimadas computados durante o mês de agosto em todo o Brasil, pelo grupo de Monitoramento de Queimadas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de São José dos Campos-SP, através de onze satélites, não geram nenhuma ação de comemoração, muito menos de propaganda de vitória dos governos. Pelo contrário, embora na totalidade a quantidade seja de apenas 5432 focos de queimadas abaixo do mesmo período registrado no ano passado, em todo o País, a distribuição territorial aumentou com relação a agosto de 2006. O fogo avançou para áreas como o centro-leste do Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia, ditando que a fronteira agrícola segue firme e forte nos extremos da então chamada "faixa de produtividade" do Brasil. No sudoeste do Pará, norte de Mato Grosso e noroeste de Rondônia, a quantidade de queimadas continua no mesmo ritmo acelerado de destruição. No total, em todo o País foram detectados pelos satélites 20376 focos, contra 25808 registrados em agosto de 2006.

Situação em Rondônia
O ritmo do desenvolvimento em Rondônia está tomando outras posições que geram preocupação. Enquanto em agosto do ano passado, o maior número de focos de queimadas ficou concentrado apenas na região de Buritis, o município rondoniense mais devastado na atualidade, em agosto desse ano, o fogo se dispersou largamente pelo interior atingindo reservas florestais e áreas de preservação ambiental, fato totalmente desconhecido pelas autoridades locais, que adoram se aparecer na imprensa ditando que medidas cabíveis estão sendo tomadas. Sim, claro, tantas medidas foram tomadas, que Rondônia fechou agosto com mais de 1500 focos de queimadas e o governo ainda tem a cara de pau em ditar que estão controlando o ritmo desordenado de desmatamento ilegal no Estado. Um fato até interessante, pois, quem rege pelo controle e fiscalização dos crimes ambientais em Rondônia, como SEDAM (Secretaria de Desenvolvimento Ambiental) e IBAMA, também rege o fator desenvolvimento, enriquecimento local.

O governo está lá preocupado com queimadas no Estado coisa alguma, se tivesse teria junto aos seus parlamentares, medidas concretas e eficazes contra esse crime que ano após ano se repete em Rondônia. Lembra do exemplo no vizinho Estado do Acre, que entrou em colapso ano passado em virtude dos incêndios e da intensa fumaça? Pois é, lá os deputados existem. Fizeram duras leis, com duras penas para o cidadão que colocasse fogo fora de época e agora você já viu o resultado? Uma diminuição de 90% no número de queimadas.

Será que em Rondônia, caso os deputados existissem de verdade, medidas como as tomadas no Acre, também teriam o mesmo efeito? Por que será que ninguém ainda pensou nisso, só estão preocupados com o enriquecimento pessoal e o bem mais importante que fique pra segundo plano? Porque em Rondônia ainda existe muita, muita árvore mesmo em pé. Árvores que custam alto, que geram lucro e desenvolvimento para o Estado. Essa é a verdade, enquanto existir espaço para o desmatamento ilegal, a política governamental e outras tantas ONGs e siglas de centros de pesquisas enfiadas nesse lugar, que só estão interessados nos números positivos, com o desenvolvimento da região, o desmatamento que se dane!

A atual estiagem que castiga a agricultura, a pesca, a pecuária e a população urbana de muitas cidades em si, até pode ser levada na conversa infame dos pesquisadores locais, de que tudo se finda em fenômenos de grande escala, ou melhor, traduzindo, no bendito aquecimento global. São tão idiotas pensando que as pessoas levam a sério suas teses e conclusões, em boletins e mais boletins esparramados na imprensa, mas esquecem de somar o atual ritmo de destruição do Estado ao fator cume de agora. A seca excessiva em solo rondoniense, a diminuição drástica do volume de chuvas ano após ano e o aumento assustador das temperaturas, está totalmente ligado aos números do desmatamento, ou melhor, do desenvolvimento que o governo tanto vangloria nesse lugar.

Idiotas! Pagam agora o preço esse colapso climático com a intensa seca, o mesmo preço que computaram anos atrás com toneladas e toneladas de madeiras viradas ao progresso.

Em Rondônia, três regiões merecem destaque nessa avaliação.

Parque Nacional dos Campos Amazônicos em Machadinho d' Oeste
O primeiro ponto, com focos variando entre 50 e 100, foi detectado ao norte do município de Machadinho d' Oeste, nas proximidades do rio Machado, na divisa com os Estados do Amazonas e Mato Grosso. É nessa mesma região que no ano passado, o Ministério do Meio Ambiente criou a então Floresta Nacional dos Campos Amazônicos, e que há duas semanas foi descoberto, mediante uma operação conjunta entre IBAMA e Policia Federal, o regime de escravidão na área e retirada ilegal de madeira. Conclusão: O governo, inocente como só, cria áreas de lei para ditar que está fazendo a sua parte e joga nas costas das demais autoridades, a competência e responsabilidade de fiscalização. Esse é um dos muitos pontos mais destruídos em Rondônia na atualidade. Uma área de lei federal, mas que na atual situação, em nada tem valia se é de lei ou simplesmente uma terra de grilagem perdida por ai. O negócio é explorar mesmo, pois o desenvolvimento madeireiro no Estado não pode parar! Estamos em alta, momento ápice de exportação de madeira para a Europa!

Parque Indígena Karipunas, entre Nova Mamoré, Buritis e Porto Velho
Inocentes são os índios que estão vendo suas terras virar cinza não é mesmo? Mentira! Há três anos consecutivos, as terras dos Karipunas estão registrando a maior quantidade de focos de queimadas e conseqüentemente de desmatamento em Rondônia. Localizada no noroeste do Estado, a área, também de lei, é a mais devastada que se tem registro. Nos dados apenas do mês de agosto, de queimadas na região, três pontos de quadrículos acumulam entre 50 e 100 focos. Será que tanto fogo ao mesmo tempo e por vários anos seguidos seria somente descontrole da natureza, ou melhor, acidente ambiental? Com tanta imagem de satélite, com a maior resolução possível da área, FUNAI, onde está? Na mesma região mais a leste está o município de Buritis. Esse município foi criado em 2001 onde até então, comportava aproximadamente 9100 habitantes. Apenas cinco anos adiante, hoje Buritis apresenta o maior índice de crescimento populacional em Rondônia, segundo dados do IBGE, com mais de 50 mil habitantes.

Será que mais uma mina de ouro foi descoberta na região para tanta gente se mudar para lá em tão pouco tempo? Sim, claro, o nosso ouro verde tem de sobra naquele lugar, e como Buritis é um município rondoniense 100% sem um palmo de terra de lei, com parques, reservas e áreas de preservação ambiental, o negócio é guincho nas máquinas e fogo no mato, pois o desenvolvimento na localidade anda a todo vapor!

O interessante é que hoje, dia 1° de setembro de 2007, muitos moradores da mesma Buritis do progresso, da riqueza e do desenvolvimento, estão assustados com a escassez de água potável. Olha como é bela a ironia do destino. Uma região tão rica e tão inexplorada até então, não tem água para seu povo beber. Onde está o erro? Será que isso os pesquisadores locais se habilitam em dizer onde o todo apocalíptico aquecimento global tem influência direta? Ou será que o problema é mais embaixo, mais localizado?

Município de Vilhena
Esse é um dado que preocupa de verdade. O município de Vilhena, localizado no extremo sul de Rondônia, na divisa com o Estado de Mato Grosso, é um dos mais ricos do Estado. O desenvolvimento flui de maneira espetacular, onde a soja e a criação de gado fala mais alto. É o campeão no quesito exportação dos dois produtos, considerados, a face de Rondônia lá fora.

A mesma Vilhena do progresso, do futuro e do enriquecimento levou um grande susto no mês passado. A quantidade de poluentes na zona urbana, principalmente, jamais foi registrada, nem mesmo na década de 80, quando o governo federal "abriu as porteiras" para o povoamento da região amazônica e o avanço do progresso ao tão jovem Estado de Rondônia. A visibilidade horizontal na cidade no período noturno chegou a impressionantes 400 metros de distância. Para se ter uma idéia de como a fumaça, ou melhor, o desenvolvimento no Cone Sul lançado a atmosfera anda acelerado, a OMS (Organização Mundial de Saúde) estabelece que, visibilidade horizontal de partículas provenientes da combustão de gases antropogênicos (gerados pelo homem), abaixo de 2 mil metros, já é considerada como Estado de Emergência, pois, além de oferecer sérios riscos aos meios de transporte, aéreo, rodoviário e fluvial, como o engavetamento ocorrido dias atrás causado pela falta de visibilidade na rodovia, influi diretamente na saúde das pessoas, com o agravamento de doenças respiratórias, principalmente problemas de garganta, além da proliferação de qualquer tipo de vírus contido na atmosfera. A mesma Vilhena do desenvolvimento vê hoje em seus postos de saúde e no Hospital Regional, uma quantidade absurda de pessoas, principalmente crianças e idosos, amontoados nos leitos pedindo ajuda para sugar um ar mais límpido.

A quantidade de queimadas registradas só no mês de agosto no município de Vilhena é maior que os focos de 2005 e 2006 juntos no mesmo mês. A região do distrito de São Lourenço é a mais devastada, onde o fogo tem que queimar, pois logo a chuva chega e o pasto tem de estar preparado para engodar o gado. E assim vamos levando o desenvolvimento adiante!

Note nas três situações em destaque do mês de agosto, O Parque Nacional dos Campos Amazônicos, o Parque Indígena Karipunas, o sul do município de Porto Velho, o município de Buritis por completo e o oeste do município de Vilhena, que o desenvolvimento segue firme e forte e não há ação de governo ou outra entidade de fiscalização que freie esse processo de destruição. Note também que nas mesmas localidades, pessoas passam sede, fome, são escravizadas, ficam doentes com uma pandemia de doenças infecciosas e respiratórias, mas para o governo, o que importa são dados positivos, dados do enriquecimento de Rondônia, da região amazônica, por parte do governo de Lula e companhia limitada. A população local, ela que se dane, pois gente chegando à região não falta mesmo. Morre um chegam dez para o trabalho.

A incumbência dos nossos governantes deixa de levar a riqueza de certa região, a que regras geradas para o desenvolvimento de uma sociedade organizada. Apenas atacar o governo não vale, seria demagogia demais criticar quem não existe mesmo, só aparece na hora do voto. O povo brasileiro, o povo amazônico e o povo rondoniense são totalmente coniventes com a atual situação de colapso climático que a região enfrenta. Se não fossem tão ignorantes e se não colocassem a maldita gana de riqueza a frente de suas idéias, o tão falado, comentado e elogiado desenvolvimento regional poderia ocorrer sim, só que de forma pacifica, ordenada e compreendida. Mas como né, se tudo ao final volta para a política. O ciclo de ignorância é esse mesmo. Começa pelos políticos, passa pela população e volta pra quem nós colocamos no cargo. No pesar da balança, veja se os milhões conseguidos com a venda de madeira ilegal suprem os gastos em um grande hospital, onde todos são tratados como miseráveis. É a política do nosso governo na Amazônia.
Protetores, defensores, isso um dia existiu?

Dados: CPTEC/INPE – IBGE – SEMUSA
Fonte: De olho no tempo – Rondônia – wwwdeolhonotempo.blogspot.com


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