Porto Velho (RO) terça-feira, 7 de abril de 2020
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Meio Ambiente

Colapso do frágil ecossistema amazônico



Ponto sem retorno 

Por Fábio de Castro, de Manaus (AM)

Agência FAPESP – A maior pressão ambiental sobre a floresta amazônica se concentra na região oriental, especialmente no Pará, onde o setor madeireiro e a agricultura de larga escala têm mais força. E um grande desmatamento nessa região seria suficiente para devastar o bioma até o extremo ocidental da Amazônia.

De acordo com o professor Paulo Eduardo Artaxo Netto, chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), a compreensão de processos como esse, que formam o complexo equilíbrio amazônico, é um exemplo do avanço de conhecimento produzido pelo Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA).

O também coordenador do Instituto do Milênio do Experimento LBA abriu nesta segunda-feira (17/11), em Manaus, a Conferência Internacional Amazônia em Perspectiva. O encontro, que será encerrado na quinta-feira (20), tem o objetivo de articular as pesquisa realizadas pelo LBA, pela Rede Temática em Modelagem Ambiental da Amazônia (Geoma) e pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), todos focados na Amazônia.

Colapso do frágil ecossistema amazônico - Gente de Opinião
Estudos feitos no LBA tentam determinar limites para colapso do frágil ecossistema amazônico. Para Paulo Artaxo, coordenador do programa, com mais de 40% de desmatamento no Pará, todo o bioma poderá ser destruído (foto: F.Castro)

Segundo Artaxo, o conjunto dos estudos realizados pelo LBA indica que a Amazônia é um bioma em frágil equilíbrio ambiental. Os cientistas procuram descobrir quais são os pontos de saturação que provocariam mudanças irreversíveis – os chamados tipping points.

“Estamos chegando à conclusão de que existem vários tipping points na Amazônia, em relação a temperatura, precipitação ou queimadas, entre outros. Estimamos, por exemplo, que, se o desmatamento se limitar a 5% ou 10% da floresta, ela ainda conseguirá manter um nível crítico de funcionamento. Mas, se o desmatamento atingir os 40%, não teremos mais volta”, disse à Agência FAPESP.

Artaxo conta que o número de 40% para o limite de desmatamento até o colapso ambiental foi estabelecido pelo climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em estudo com modelos regionais ligado ao LBA. Nobre é também o coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais.

“Ninguém sabe exatamente, com precisão absoluta, qual é o limite. Mas o conhecimento acumulado aponta para um tipping point de 40% em termos de níveis de desflorestamento. É um ponto sem retorno”, disse.

“Quando o Pará é desmatado, todo o processo de reciclagem do oceano para a floresta é interrompido. Essa é a questão crítica. A partir daí, a precipitação aumenta, elevando a quantidade da água que é enviada de volta para o oceano pelo rio. Assim, o resto do bioma, a oeste do Pará, fica sem água. Esse é o mecanismo que foi identificado com muita precisão pelo LBA”, afirmou.

Dependendo da quantidade de floresta desmatada no leste, pode-se interromper a reciclagem da água ao longo de toda a bacia, secando a parte central da Amazônia dentro de apenas 30 ou 40 anos, segundo Artaxo, que é membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas e um dos coordenadores da área de geociências da FAPESP.

“A floresta solta cerca de 100 toneladas de carbono por hectare por ano na atmosfera. Com isso, o desmatamento também intensifica o efeito estufa. Por isso o processo é muito rápido. Três ou quatro décadas, para o funcionamento de um ecossistema,é um período que podemos considerar como praticamente instantâneo”, disse.

O aumento da temperatura também desencadeia uma série de processos ecofisiológicos decisivos para o equilíbrio do sistema. “Acima dos 40 graus as plantas, para se proteger, desligam alguns processos. Para não perder tanta água, elas param de abrir os estômatos para respirar. Como elas respiram menos, há menos evaporação, com impactos na precipitação e assim por diante”, destacou.

Fonte: FAPESP

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