Porto Velho (RO) terça-feira, 7 de abril de 2020
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Meio Ambiente

Abaixo a formiga


Elas parecem inofensivas e mesmo quando surgem em quantidade visível representam apenas um incômodo secundário. Fortes e resistentes, não se deixam liquidar por venenos de baixa toxidade, requerendo formicidas específicos que podem chegar a afetar a saúde humana. Como o “remédio” parece mais ameaçador que o problema, devido à toxicidade dos formicidas, tornando-os repulsivos, a lei do menor esforço por vezes manda aturar os pequenos invasores sem um combate adequado à sua disseminação em ninhos ocultos, invisíveis aos olhos humanos.
Vetores de fungos e bactérias, as formigas podem contaminar alimentos em casas e restaurantes e disseminar doenças em hospitais. Por isso, precisam ser prontamente controladas. Os pesquisadores sempre se debruçaram sobre o problema, tentando criar mecanismos mais práticos e menos tóxicos de combate às formigas. Agora a tecnologia também entrou em campo e os pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) criaram um sistema de combate mais seguro ao pequeníssimo inimigo. Dois biólogos do Centro de Estudos de Insetos Sociais da Unesp, localizado em Rio Claro (SP), Odair Correa Bueno e Osmar Malaspina, conseguiram desenvolver um eficiente sistema para o controle de formigas a partir dos conhecimentos adquiridos em mais de duas décadas de pesquisa básica.
Isca esperta – O inseticida encontrado é um mata-formiga na forma de isca, produto que o inseto leva para o interior do ninho como se fosse alimento. Lá dentro, por conta do complexo sistema de trocas alimentares das formigas – umas fornecem comida às outras com alimentos regurgitados –, o veneno atinge grande número de indivíduos, aniquilando o formigueiro.
Por isso, o elemento atrativo da isca, um de seus principais constituintes, teria que ser os próprios componentes da alimentação do inseto. “Um dos aspectos mais importantes do estudo foi identificar quais atrativos, que são o chamariz da isca, seriam os mais indicados para a composição do inseticida”, diz o biólogo Osmar Malaspina, o outro integrante da dupla. Os pesquisadores também concluíram que, para controlar as oito principais espécies de formigas urbanas existentes, responsáveis por mais de 85% das infestações no mundo, teriam que desenvolver diferentes iscas.
Fantasma e lava-pés – A mais disseminada no Brasil é a formiga fantasma (Tapinoma melanocephalum), que é atraída por substâncias açucaradas. Minúscula, ela mede de 1 a 1,2 milímetro e ganhou esse nome devido a sua cabeça preta e parte do abdômen branco e translúcido na contraluz. Outras espécies, como a lava-pés (Solenopsis saevissima) – que dá ferroada principalmente nos pés quando se pisa no formigueiro, causando ardor intenso só amenizado quando lavado com água –, preferem alimentos gordurosos.
Os pesquisadores apontam uma grande vantagem nos produtos desenvolvidos por eles em relação a produtos hoje utilizados. “Iscas com alta concentração de inseticidas ou com princípios ativos inadequados matam a formiga durante o seu transporte para a colônia, porque o inseto carrega o produto na boca ou papo, uma espécie de primeiro estômago existente nesses animais”, explica Bueno. Não é esse o objetivo. “Queremos que as formigas responsáveis pela coleta de alimentos, as operárias forrageiras, levem a isca para o interior do formigueiro e a distribuam para os demais indivíduos do ninho, como as larvas, os jovens e as rainhas.”
Abaixo a formiga - Gente de Opinião
Elas são desconfiadas e exigentes
O desafio dos cientistas foi produzir uma isca tóxica que imitasse com perfeição o alimento das formigas, porque elas são muito sensíveis e não se deixam “enganar” facilmente. “Por meio de um aprendizado adquirido ao longo do processo evolutivo, as formigas são muito especializadas na sua alimentação e sabem evitar aquilo que não faz bem para elas e sua colônia”, explica o biólogo Odair Correa Bueno, um dos autores do trabalho.
“Percebemos que uma única formulação não seria eficiente porque as várias espécies têm hábitos alimentares e comportamento distintos. Assim desenvolvemos cinco formulações com dois princípios ativos: um para iscas açucaradas e outro para as oleosas”, afirma Odair Bueno. O princípio ativo para as iscas doces foi o ácido bórico e para as gordurosas, a sulfluramida. As duas substâncias já são usadas em iscas vendidas no mercado, mas os inseticidas criados nos laboratórios da Unesp têm uma diferença: os princípios ativos estão numa concentração muito baixa, de cinco a dez vezes menor do que a existente nas iscas comerciais. Essa formulação faz as iscas serem menos tóxicas e terem ação mais lenta.
“A baixa concentração é vantajosa porque reduz substancialmente o risco de acidentes domésticos, como a ingestão acidental por crianças ou animais, e de contaminação ambiental. E o fato de ser menos tóxica não torna a isca menos efetiva do que os formicidas comuns”, diz Malaspina.

A complexa sociedade formigueiros
Os conhecimentos da biologia e do comportamento das diferentes formigas invasoras de ambientes urbanos foram essenciais para que os pesquisadores Odair Correa Bueno e Osmar Malaspina conseguissem criar o novo sistema de controle de formigas:
  •  Há espécies que têm mais de uma rainha no mesmo ninho. A rainha é o indivíduo responsável pela postura dos ovos na colônia.
  • A maioria das formigas acasala em pleno vôo, no chamado “vôo nupcial”, ao passo que o acasalamento das espécies urbanas acontece no interior do próprio ninho, numa estratégia de defesa para evitar se expor a predadores.
  • Algumas formigas não precisam construir ninhos. Usam frestas de madeira, tubulações elétricas e espaços ocos atrás de azulejos para formar suas colônias.
  • Ao contrário da maioria das espécies, as urbanas formam populações unicoloniais. A característica multicolonial faz as formigas da mesma espécie, mas de ninhos diferentes, disputarem o território entre si.
  • As urbanas perderam a defesa colonial e circulam livremente entre vários ninhos, que, na média, têm de 2 mil a 4 mil indivíduos, sem contar as formas imaturas (larvas e jovens).
  • Elas podem criar colônias tão amplas quanto países. Havia uma megacolônia na Europa abrangendo Espanha, Portugal, França e Itália, que se estendia por mais de 6 mil quilômetros nas costas do oceano Atlântico e do mar Mediterrâneo.

    Fonte: Revista Momento

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