Sexta-feira, 9 de maio de 2014 - 05h29
Felipe Azzi
OLEMARDEN EUSTÁQUIO MONSORES, mestre de letras do Educandário Simon Bolívar, era pessoa de tratos finos, de não economizar cumprimentos, fosse um “Bom dia!”, um “Como vai, como tem passado?”... Ou mesmo um “Permita-me, por favor!”. Era mesmo de abrir a mais emperrada porta para uma dama passar. Cismático, mas não casmurro, desde que fora excluído da partilha do espólio de certo tio distante, devido a dúbio grau de parentesco, pegou a mania de apalpar os bolsos e vasculhar com a verruma do olhar o chão em seu derredor, como se procurasse algo perdido.
Como professor, era enérgico nos ensinamentos. Na Sala dos Professores, ao sabor do cafezinho, enquanto fazia anotações no Diário de Classe, saciava a curiosidade dos colegas docentes a respeito de seu sucesso com os alunos, e esclarecia:
– Tenho os meus métodos... Comigo, o aluno já lê na segunda volta do texto!... Procuro manter sempre à mão os instrumentos ensinatórios e elucidatórios.
A bem dizer, os instrumentos de ensino de OLEMARDEN eram dois: a palmatória de jacarandá da Bahia que ficava em cima da cátedra, como cobra em moita de espera; e, o que os alunos mais temiam: o alicate picotador de passagem de trem, usado por condutores para invalidar os bilhetes de viagem. O infeliz aluno que escapasse dos afagos da palmatória, do alicate não passava, caso não lesse, no corridinho das palavras, o texto do exame.
Em certo exame final, palmatória à vista e alicate no covil da gaveta, a molecada ia lendo e passando de ano, cada um na sua vez, com o incentivo do mestre que, orgulhoso, dizia:
– Leitura bem calhada... Pode estar aí um “Rui Barbosa” ou, quem sabe, um “Castro Alves!
Tanto foi repetida a frase lida que, para os mais sapecas, se tornou decoreba. Chegada a vez de TELÊMACO RUIBARBO MORITIS, o mestre mostrou-lhe a frase para leitura no justo momento em que MAMACO jogou no chão uma pataca de um cruzeiro. De imediato, OLEMARDEN abaixou-se em busca da moeda fujona, e MAMACO leu:
– O SAPO VOA E O PÁSSARO PULA...
Já com a moeda em seus domínios, o professor – fanático por dinheiro – deu a aprovação liberando o aluno, com este elogio mimoso:
– Muito bem lido... Dentro dos conformes da gramática!...
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