Porto Velho (RO) segunda-feira, 27 de junho de 2022
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Gente de Opinião

Dante Fonseca

Quem realmente concluiu a construção do Real Forte do Príncipe da Beira?


Notas prévias.


O Real Forte Príncipe da Beira é uma majestosa obra de arquitetura militar situada na margem direita do rio Guaporé. Esse rio desliza de sua nascente na serra dos Parecis, em Mato Grosso, em direção ao rio Mamoré, do qual é um dos formadores ao juntar-se ao rio Madre de Dios, que corre do interior da Bolívia. Continuando em direção ao norte, o rio Mamoré junta-se ao rio Beni, que igualmente nasce no interior da Bolívia, formando o rio Madeira, que deságua na ribeira esquerda do rio Amazonas, no estado de mesmo nome. Essa rede fluvial compôs o referencial de parte das fronteiras estabelecidas pelo Tratado de Madri (1750), o qual dividia as terras de Portugal e da Espanha nesse trecho da América do Sul. Em 1769 foi esse acordo anulado pelo Tratado de El Pardo. A fortificação foi construída ao tempo do Tratado de Santo Ildefonso (1777), que novamente reconstituiu diplomaticamente as fronteiras coloniais das potências ibéricas naquela área.

Real Forte Príncipe da Beira - Óleo sobre tela da artista plástica Cristiane Carbone - Gente de Opinião
Real Forte Príncipe da Beira - Óleo sobre tela da artista plástica Cristiane Carbone

A fortificação foi construída entre os anos de 1776 e 1783. Dirigia então a Capitania de Mato Grosso (1772 e 1789) o governador e capitão-general Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres. Quando de sua construção, situavam-se nesse trecho da fronteira: no lado espanhol as províncias de Chiquitos e Mojos, integrantes da audiência de Charcas, e do lado português a capitania do Mato Grosso e a capitania de São José do Rio Negro (subalterna à capitania do Grão-Pará). A fortificação situava-se na Capitania do Mato Grosso. Tinha por objetivo defender o território colonial português das pretensões territoriais espanholas em sua fronteira interna. Foi elo de uma cadeia de fortificações, erigidas ao longo dos diversos rios que correm pelas fronteiras interiores do Brasil. Situa-se na hoje Região Norte do Brasil (Amazônia), no estado de Rondônia.

O Real Forte Príncipe da Beira Fonte: MOUTINHO, 1869, p. 162 (verso). - Gente de Opinião
O Real Forte Príncipe da Beira Fonte: MOUTINHO, 1869, p. 162 (verso).

Até aqui as informações são referendadas pelas fontes históricas. Ainda, consta em diversas obras, que tratam da história do forte, a informação de que a direção do início das obras foi realizada pelo italiano Domingos (Domenico) Sambuceti. Consta também que, tendo o mesmo falecido em 1780, foi substituído pelo coronel Ricardo Franco de Almeida Serra, que concluiu a obra. É do conjunto de informações sobre o forte, constantes no presente parágrafo, que se ocupa o escrito seguinte a essas notas prévias.

 

Em março de 2014 recebi de Lisboa um correio eletrônico, cujo remetente colocava em dúvida a validade factual dessas informações. O remetente foi o tenente general do Exército português (três estrelas) Silvino da Cruz Curado. Conforme informa “O Tuiuti” de janeiro de 2014, além de suas qualificações militares, o referido oficial general:

 

Foi Adido de Defesa junto da Embaixada de Portugal em Brasília, o que estimulou o seu interesse pela história militar luso-brasileira, temática sobre a qual tem proferido numerosas conferências em Universidades e reuniões científicas ligadas à História, em Portugal e no Rio de Janeiro, no Recife e em Brasília. É autor do livro "Campanha de Montevidéu: a ocupação portuguesa do Uruguai 1816-1823". Possuí variadas condecorações portuguesas e foi honrado, pelo Governo do Brasil, com a Ordem de Mérito Militar, a Ordem de Mérito Aeronáutico, a Ordem de Mérito Forças Armadas, todas no grau comendador, e a Medalha "Mérito Tamandaré". É académico de mérito da Academia Portuguesa da História, membro efetivo do Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História Militar e sócio correspondente do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil.

Tenente general Silvino da Cruz Curado - Gente de Opinião
Tenente general Silvino da Cruz Curado

O breve currículo acima apresentado, creio, é suficiente para atestar as marcantes capacidades intelectuais do remetente. Na correspondência anexa ao correio eletrônico, o ilustre missivista procurou alertar sobre algumas inconsistências existentes nas publicações que tratam da construção do Forte Príncipe da Beira. Tais inconsistências, especificamente, situam-se nas datas e nos personagens que participaram na direção da sua construção.

Devo confessar que, já naquele ano de 2014, considerei esses reparos de enorme importância para a História Regional da Amazônia e de Rondônia. No seu conjunto, os reparos colocados nos devidos termos têm o condão de modificar as informações presentes em grande parte dos livros sobre o assunto, corrigindo-as.

Sabemos todos nós, que nos profissionalizamos na árdua profissão de historiador, que a exatidão factual não é mérito, mas obrigação do pesquisador. Sua ausência pode condenar ao erro conclusões de estudos, aferição de hipóteses ou mesmo a validação de teorias. É evidente que toda a ciência somente existe porque há o erro ou o conhecimento insuficiente de determinada matéria. Assim, a constante revisão do conhecimento adquirido deve ser praticada (como em outras ciências) pelo historiador, inclusive no sentido de corrigir equívocos factuais.

Mas é hábito entre nós muitas vezes acreditarmos em fontes de segunda mão, seja pelo crédito que concedemos aos seus autores, seja pela quase unanimidade de sua divulgação. Essa confiança nos conduz a não conferirmos nas fontes documentais a precisão dessas informações contribuindo, quando é o caso, para a propagação do erro. É certo que o volume de informações, que um historiador tem a manipular, é normalmente tão grande que a conferência da exatidão de todos os dados tornaria mais difícil ainda o seu trabalho. Assim, confiamos em alguns casos que não houve erro no trabalho dos que nos antecederam. Confiados então, transmitimos essas informações para o futuro. Fica sendo uma daquelas verdades provisórias, as quais o epistemólogo Karl Popper[1] se referiu. São provisórias, porque há nelas a possibilidade de sua refutação, desde que se busquem as referências mais seguras. Esse é o nosso caso. Ocorre que naquele já longínquo ano de 2014 a refutação foi feita, mas o texto da missiva ficou esquecido, quando deveríamos tê-lo divulgado. Uma falha imperdoável de todos nós, que reproduzimos os equívocos apontados pelo general Curado e que agora procuraremos divulgá-los em sua correção.

Devo alertar, antes de informar sobre as refutações das quais tratamos, que o general Curado publicou um estudo sobre o mesmo tema no “O Tuiuti”. É um estudo mais extenso que o artigo infra divulgado e está disponível na internet[2]. No mesmo número de “O Tuiuti” encontramos outro também interessante artigo intitulado “Ricardo Franco de Almeida Serra - apontamentos para a biografia de um herói”, do lisboeta, engenheiro mecânico e Delegado em Portugal da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB) Rui Santos Vargas.



[1] POPPER, Karl R. Conjecturas e refutações. Brasília: Editora UnB.1980.

Planta do Real Forte Príncipe da Beira  Fonte: FERRAZ, 1938, p. 145. - Gente de Opinião
Planta do Real Forte Príncipe da Beira Fonte: FERRAZ, 1938, p. 145.

Vamos então à questão: após o falecimento de Domingos Sambuceti, primeiro diretor da construção do Real Forte Príncipe da Beira, é atribuída a direção da conclusão dos trabalhos ao engenheiro militar Ricardo Franco de Almeida Serra. Com base em suas pesquisas, que encontram sólido apoio documental, apresenta-nos o general Curado a seguinte cronologia:


[2] CURADO, Silvino da Cruz (gal). O Real Forte do Príncipe da Beira: entre os mitos e a verdade possível. O Tuiuti. Órgão de divulgação das atividades da Academia de História Militar Terrestre do Brasil/Rio Grande do Sul (AHIMTB/RS) - Academia General Rinaldo Pereira da Câmara - e do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS), ano 2014 janeiro n° 106, pp. 6 a 20

 

Ø 1775, meados de abril: Sambuceti chegou ao local das obras do Real Forte Príncipe da Beira.

Ø 1776, 20 de junho: foi lançada a pedra fundamental da fortificação.

Ø 1777, 8 de janeiro: registro da última carta de Sambuceti dirigida ao Governador do Mato Grosso.

Ø 1777, março: faleceu Domingos Sambuceti (não em 1780, conforme algumas fontes afirmam).

Ø 1777, antes de 10 de setembro: José Pinheiro de Lacerda é nomeado pelo governador do Pará, a pedido do seu colega de Mato Grosso e passou a dirigir a construção do forte até o ano de 1797.

Ø 1778: José Pinheiro de Lacerda elabora as primeiras plantas do Forte, indicando o que estava feito.

Ø 1780, 26 de fevereiro: aportam em Belém do Pará os componentes da 3ª Partida de Demarcação de Limites na América, relacionada ao Tratado de 1777, dentre eles Ricardo Franco de Almeida Serra.

Ø 1781, 1 de setembro: Ricardo Franco parte de Barcelos (AM), desce o rio Negro, entra no Amazonas, e chega no dia 9, à boca do Madeira.

Ø 1782, 17 de janeiro: pernoita no Real Forte do Príncipe da Beira, já em fase de conclusão.

Ø 1782, 28 de fevereiro: Ricardo Franco chegou a Vila Bela (capital da capitania do Mato Grosso)

Ø 1783: o essencial do Forte foi concluído e para ele se mudou a guarnição e o armamento do arruinado Forte Bragança.

Ø 1782 e 1783: Ricardo Franco estava ocupado em missões diversas mais para sul de Vila Bela.


Ø 1775, meados de abril: Sambuceti chegou ao local das obras do Real Forte Príncipe da Beira.

Ø 1776, 20 de junho: foi lançada a pedra fundamental da fortificação.

Ø 1777, 8 de janeiro: registro da última carta de Sambuceti dirigida ao Governador do Mato Grosso.

Ø 1777, março: faleceu Domingos Sambuceti (não em 1780, conforme algumas fontes afirmam).

Ø 1777, antes de 10 de setembro: José Pinheiro de Lacerda é nomeado pelo governador do Pará, a pedido do seu colega de Mato Grosso e passou a dirigir a construção do forte até o ano de 1797.

Ø 1778: José Pinheiro de Lacerda elabora as primeiras plantas do Forte, indicando o que estava feito.

Ø 1780, 26 de fevereiro: aportam em Belém do Pará os componentes da 3ª Partida de Demarcação de Limites na América, relacionada ao Tratado de 1777, dentre eles Ricardo Franco de Almeida Serra.

Ø 1781, 1 de setembro: Ricardo Franco parte de Barcelos (AM), desce o rio Negro, entra no Amazonas, e chega no dia 9, à boca do Madeira.

Ø 1782, 17 de janeiro: pernoita no Real Forte do Príncipe da Beira, já em fase de conclusão.

Ø 1782, 28 de fevereiro: Ricardo Franco chegou a Vila Bela (capital da capitania do Mato Grosso)

Ø 1783: o essencial do Forte foi concluído e para ele se mudou a guarnição e o armamento do arruinado Forte Bragança.

Ø 1782 e 1783: Ricardo Franco estava ocupado em missões diversas mais para sul de Vila Bela.

 

A cronologia e a documentação que serve de base a ela permitem afirmar que quem dirigia a construção do forte quando da instalação da guarnição nele (considerado momento de sua conclusão) foi José Pinheiro de Lacerda e não Ricardo Franco de Almeida Serra.

Em livro publicado no ano de 1869, encontramos uma informação que, de certa forma, inverte a cadeia de equívocos que seria publicada posteriormente. É que a direção da construção do forte nessa publicação é atribuída exclusivamente a José Pinheiro de Lacerda. De fato, no lançamento da pedra fundamental, em 1776, a construção da fortificação estava a cargo de Sambuceti. Em que pese o erro, essa é a única publicação que conheço, afora a do general Curado, que insere o nome de Lacerda como dirigente da conclusão do forte, como segue:

 

Forma um quadrado de quatro baluartes, e fronteia a Nordeste. Tem 56 canhoneiras. Seus alicerces forão lançados a 20 de Junho de 1776 pelo general Luiz de Albuquerque Pereira e Caceres, sendo director das obras o official de engenheiros José Pinheiro de Lacerda.[3]

 

[3] MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Noticia sobre a provincia de Matto Grosso seguida d'um roteiro da viagem da sua capital a São Paulo. São Paulo: H. Schroeder, 1869, p. 161.


Abaixo divulgamos um resumo da pesquisa do general Silvino Curado feito pelo mesmo e a quem agradecemos a amável concessão para sua publicação. É o anexo do correio eletrônico de 2014. Devo ainda deixar o alerta de que no texto que segue mantivemos a grafia tal como praticada em Portugal. Ainda, que acrescentei alguns rodapés no texto, para melhor inteligência do leitor.

 

Porto Velho (Rondônia), 10 de abril de 2022

 

Dante Ribeiro da Fonseca

 

Contribuição para a correcção de alguns escritos sobre Ricardo Franco de Almeida Serra e o Real Forte do Príncipe da Beira

 

Silvino da Cruz Curado

 

Início da carreira

 

Convém ser prudente na comparação da formação e carreira dos oficiais dos tempos atuais com os da época de Ricardo Franco. A Academia Militar da Corte limitava-se a dar aulas a civis e militares, tal como qualquer outra escola. Destinava-se, fundamentalmente a formar engenheiros militares. A formação dos oficiais de infantaria era feita nas respetivas unidades e a artilharia, passou, por essa época, a ter uma aula em cada regimento respetivo, com programas e livros estabelecidos pelo Conde de Lippe. Não havia, ainda unidades de engenharia, assim designadas. Havia, apenas, em cada Regimento de Artilharia, uma companhia de mineiros e sapadores[4] e outra de artífices e pontoneiros[5].

Os engenheiros, iniciavam a carreira como ajudantes de infantaria com exercício de engenheiro, não eram arregimentados e começavam a projetar, dirigir ou executar trabalhos nas fortificações, na cartografia e medições de terrenos, na regularização de rios e portos, em arquitetura civil, etc. Ainda durante muitos anos, foram os únicos engenheiros existentes, fazendo trabalhos civis e militares ou sendo, por exemplo, os técnicos quer na defesa, quer no ataque a fortificações.

Os partidistas eram os discípulos que preenchiam, por mérito, um número limitado de vagas, tendo direito ao partido, isto é, um prémio que já constituía um vencimento. Já contavam, por isso, tempo de serviço, desde a obtenção do partido. Não se podendo afirmar que tenha sido o caso, é possível que Ricardo Franco já tivesse frequentado a Academia, pelo menos durante um ano, antes de conseguir ser partidista. Parece difícil transmitir todos os conhecimentos necessários em dois anos. Tinha estudado aritmética, desenho, artilharia, álgebra, arquitetura civil, geometria, medições, fortificação de praça e de campanha, hidráulica, trigonometria plana, orçamentos, estereotomia e tática militar. Falava francês.

Ricardo Franco foi partidista de 9 de Setembro de 1766 a 14 de Novembro de 1768, sendo promovido a ajudante de infantaria com exercício de engenheiro a 15 de Novembro de 1768 (de acordo com documento do Arquivo Histórico Militar Português, mencionado no livro do general Raul Silveira de Mello, Um homem do dever, Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra (Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1964, p. 359)[6].



[4] Encarregados de abrir fossos, trincheiras e tuneis.

[5] Militar de engenharia especializado na construção de pontes ou pontões.

[6] Há também um resumo desse livro, apresentado sob a forma de conferência no Instituto Militar de Engenharia (IME) em 2 de agosto de 1988, no transcurso da primeira comemoração festiva do Dia do Quadro de Engenheiros Militares (QEM). A referida palestra foi publicada em: MELLO, Luiz Gonzaga de. Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra - o soldado, o engenheiro e suas obras. A Defesa Nacional, n. 741. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército - BIBLIEX, 1989, pp. 7- 41.


Atividades em Portugal

 

Passou a ser um dos oficiais que coadjuvavam Guilherme Elsden, tenente-coronel de infantaria com exercício de engenheiro e quartel mestre general do Exército, não num Alto Comando, mas nas “muitas e diversas diligências” de que foi encarregado, tais como mapas, plantas e, durante vários anos nos “projetos, inspeção, construção, cálculos e medições dos edifícios que novamente se edificaram na Universidade de Coimbra “, como consta da atestação de serviços muito elogiosa, passada pelo referido Elsden, em 25 de outubro de 1777, e confirmada, no que respeita à Universidade, pelo Bispo reformador reitor da mesma, em 25 de novembro de 1777. (Conforme documentos transcritos a páginas 361 e 362, do livro acima mencionado).

Em 1777, com a queda do marquês de Pombal, a “sua” Universidade correu riscos, devido à “Viradeira” e, possivelmente, as obras foram suspensas ou limitadas. Ricardo Franco achou que era altura de requerer a sua promoção a capitão, para o que tinha que juntar ao requerimento as atestações dos seus serviços atrás mencionadas e a do tempo de serviço prestado. O requerimento recebeu como despacho “Só poderá atender quando houver promoção no seu corpo”. Veio para Lisboa, não para um Regimento, mas para continuar as suas atividades de engenheiro.

 

Nomeação para as demarcações de limites

 

Com vista às nomeações, em 14 de Novembro de 1779, foi organizada, pelo Coronel aposentado Filipe Rodrigues de Oliveira, durante muitas décadas lente da Academia Militar, uma relação de todos os engenheiros existentes com indicação do local onde estavam, dos seus conhecimentos de matemática e desenho (risco) e se tinham encargos de família. Tem junto um borrão anónimo que completa as informações dos 7 pré-selecionados. De Ricardo Franco refere, entre outros elementos, que risca bem, tem boas qualidades, viveza e capacidade; encontra-se a trabalhar em Alcântara e é muito expedito e desembaraçado no trabalho. O informante considera-o o segundo melhor dos 7 e a, Joaquim José Ferreira, o quarto. (documento 6863, do Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil – Pará). O melhor tinha sido formado pelo pai, Carlos Mardel, que dirigiu a reconstrução de Lisboa e, depois da morte deste, por Ângelo Blasco, engenheiro mor do Reino. Não deve ter sido nomeado por ter a seu cargo um irmão cego e três irmãs. O terceiro melhor tinha sido lente da aula militar do Rio de Janeiro e foi nomeado para a 4.ª Divisão das Demarcações.

Parece poder concluir-se que Ricardo Franco já era muito conceituado quando seguiu para o Brasil. Tal não significa que tenha sido expressamente nomeado para chefiar a 3ª Divisão, tarefa que pertencia ao Governador. Os engenheiros e matemáticos atribuídos à divisão, dois de cada, permitiam atuar com duas subdivisões, cada uma chefiada por um comissário, encarregado de estabelecer os entendimentos com o correspondente espanhol. Para o efeito, o Governador ainda nomeou 1.º comissário, ao tenente-coronel António Filipe da Cunha, e 2.º, ao sargento mor José Manuel Cardoso da Cunha, os quais não chegaram a atuar por não ter havido demarcações.

Entretanto, o Governador determinou o reconhecimento e mapeamento do território fronteiriço. Sendo mais antigo e, por isso, o mais graduado dos militares, Ricardo Franco comandou as expedições organizadas para o efeito, em que tomou parte.

 

Construtores do Forte Príncipe da Beira

 

Salvo se for apresentada documentação em contrário, Ricardo Franco de Almeida Serra, merecedor da nossa admiração e respeito pelas suas virtudes militares, pela sua capacidade e competência técnica de engenheiro, pela sua extrema dedicação ao serviço e pela heroicidade de que deu inexcedíveis provas, não terá tido qualquer intervenção no projeto e construção da imponente fortificação, levada a cabo nas mais adversas condições.

Mas o mito impôs-se e está espelhado em numerosas publicações, incluindo oficiais.

Está associado a um outro erro também muito difundido, o qual consiste em se escrever que Domingos Sambuceti, que iniciou a construção do Forte, faleceu em 1780, quando, de facto, se finou em Março de 1777, deixando a fortificação no início. É o que se conclui da carta do Governador Luís de Albuquerque, de 12 de setembro de 1777: “A casualidade de terem falecido de doença os dois únicos oficiais engenheiros que eu tinha nesta Capitania, a saber, o capitão Salvador Franco da Mota e o ajudante Domingos Sambuceti de que também dei conta na Real Presença (…) Até ao presente não tem vindo do Pará o novo engenheiro ou engenheiros que pedi (…)” (AHU, doc. 1167 de Brasil – Mato Grosso). Em 10 de Setembro de 1777 já o Governador do Pará informava Lisboa de ter nomeado um engenheiro para o efeito.

Gilberto Freire, depois de uma estadia na Casa da Ínsua, escreveu um livro pouco conhecido sobre Luís de Albuquerque[7], servindo-se dos documentos ali existentes que passado algum tempo foram consumidos num incêndio, salvando-se, contudo, um excecional conjunto de mapas e plantas. Felizmente, o livro transcreve a correspondência de Sambuceti para o Governador, verificando-se que a última carta tem a data de 8 de janeiro de 1777. Quanto às plantas do Forte, a primeira de José Pinheiro de Lacerda é já datada de 1778, indicando o que estava feito. Na cartela de outra planta pode ler-se: Planta do novo methodo das acomodações interiores do Forte do Príncipe da Beira; Projéctado pelo Ajud. Engenheiro Diréctor José Pinheiro de Lacerda no ano de 1780. Uma outra apresenta o estado das obras em 14 de outubro de 1781.

Ainda em Dezembro de 1791, o então Governador atestava: O ajudante engenheiro José Pinheiro Lacerda serve S.M. nesta Capitania para que veio do Pará no mesmo posto desde o ano de 1777 (…). (AHU, doc. 1633, Brasil-Mato Grosso)

Quanto a Ricardo Franco, só chegou a Vila Bela em 28 de fevereiro de 1782. O Governador Luís de Albuquerque estava preocupado com os limites, no trecho da boca do rio Jauru ao rio Guaporé, em terreno mal conhecido. E, ainda que pertencesse à 2.ª Divisão de Demarcações, era à Capitania de Mato Grosso que interessava afastar a linha divisória de Vila Bela. Por isso, logo em Junho, partiu com os engenheiros e matemáticos, ainda convalescentes das doenças com que tinham chegado, para reconhecimento e cartografia do território próximo de Vila Bela. Depois,



[7] FREYRE, Gilberto. Contribuição para uma sociologia da biografia: o exemplo de Luiz de Albuquerque, governador do Mato Grosso no fim do século XVIII. Cuiabá. FCMT, 1978.


Ricardo Franco comandou expedições para o mesmo fim, mais para sul, em 1782 e 1783. A 2 de novembro de 1783, num destes trabalhos, foi salvo de morrer afogado por um auxiliar, quando o cavalo que montava afocinhou na travessia de um ribeirão. No dia 17 de Dezembro de cada um destes anos, recitou poesias em Vila Bela, na festa comemorativa do aniversário da Rainha, conforme referem os Anais da pequena capital.

Todos os factos referidos estão documentados e parecem demonstrar que Ricardo Franco não esteve no Forte do Príncipe da Beira em 1782 e 1783, a não ser a caminho de Vila Bela.

Nem o seu consciencioso biógrafo, general Raul Silveira de Melo, nem o respeitado investigador, Virgílio Correa Filho, relacionaram o engenheiro com a construção do Forte.

Em 1929, numa atitude conciliadora, António Leôncio Pereira Ferraz[8], escreveu: “O principal técnico de que dispôs Luís de Albuquerque, no seu projeto de edificação do forte, foi o ajudante de infantaria Domingos Sambuceti, conquanto tenha sido ouvido a respeito Ricardo Franco. O director de obras, porém, foi o capitão José Pinheiro de Lacerda [...]” (p. 510). Anos mais tarde, em 1938[9], referiu: “Na escolha do local, entre outros técnicos, foi ouvido Ricardo Franco [...]” (142). Ora, em 1774-76, o nosso herói estava bem longe de supor que viria a pisar terras brasileiras.

Mas a História nunca está concluída. Caso exista documentação da época que, efetivamente, confirme a ligação de Ricardo Franco à conclusão das obras do Forte, convém que seja publicada ou mencionada a fonte onde pode ser encontrada. Até lá, estaremos em presença de um mito e os mitos são difíceis de combater.



[8] FERRAZ, Antônio Leôncio Pereira. Memoria sobre as fortificações de Matto Grosso. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – RIHGB. Tomo 102, vol. 156 (2º. De 1927), Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1929, pp. 501-566.

[9] FERRAZ, Antônio Leôncio Pereira. Real Forte do príncipe da Beira. In: Revista do Serviço do Patrimonio Histórico e Artístico Nacional. No. 2. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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