Porto Velho (RO) sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
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Opinião: A dança das cabeças


Rinaldo Santos*

Quem foi ao encerramento da I Mostra Sesc Amazônia das Artes pôde conhecer a proposta do Núcleo de Criação do Dirceu, de Teresina, com o espetáculo Mediatriz.

Na maior parte do espetáculo a coreografia valoriza os pés, focalizando, aos poucos, partes distintas do corpo, num jogo inteligente de iluminação e com movimentos precisos da cortina que ocultam o corpo dos intérpretes. A proposta principal do grupo é fazer uma dança com a totalidade do corpo sem nunca mostrá-lo por inteiro.

Um espetáculo visualmente impactante... mas não pude ver. Um desperdício. Uma decisão errada prejudicou boa parte do público que esperava ver o balé dos pés, mas o que viu foi a dança das cabeças procurando frestas. Foi o meu caso, pois estava na penúltima fila das cadeiras que ficam no centro e não pude apreciar quase nada.

É que o grupo cometeu um pequeno erro, mas que teve grande repercussão, ao ter a idéia de interditar as laterais e parte dos assentos centrais, num cuidado excessivo, provavelmente crendo que nestas áreas seria possível que, ocasionalmente, algum espectador, em algum momento, poderia vir a perder determinado movimento que por ventura fosse feito, eventualmente, ao fundo do palco. Ufa! Pois bem, conseguiram que 60% do público visse apenas 30% do espetáculo (estimativa feita nos momentos em que não consegui ver a peça).

Sei que a interdição dos assentos laterais visava o melhor, que o espetáculo é delicado e que questões técnicas provavelmente exigiram muito jogo de cintura dos integrantes do grupo. Creio que para equacionar situações como esta algo deva ser sacrificado. Qualquer coisa, menos o público. Alguma adequação para se harmonizar ao espaço, assim o espetáculo se adapta ao teatro e não o teatro ao espetáculo.

Uma pena, pois o pouco que vi me agradou muito. Tenho na memória recortes da apresentação, mas se havia uma narrativa, não acompanhei.

E por isso mesmo, pude curtir um pouco mais a trilha sonora, bem criativa, mixada ao vivo, além do uso de um theremim, um dos primeiros instrumentos musicais eletrônicos, que tem a particularidade de ser tocado sem contato físico. Muito bacana.

É muito bom ver jovens cultos, criando, se atrevendo, correndo riscos, realizando projetos. Mediatriz encerra bem, mais uma empreitada cultural do Sesc, que foi marcada por espetáculos ousados, vigorosos e criativos.

* Rinaldo Santos é músico e poeta (santos.rinaldo@yahoo.com.br)

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