Porto Velho (RO) segunda-feira, 22 de outubro de 2018
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Manifesto Negro no CineOca



O CineOca dá continuidade à temática da Consciência Negra, no mês de novembro, uma homenagem a Zumbi dos Palmares, exibindo de graça, nesta terça-feira, dia 17, no Cinesesc, a produção “A Negação do Brasil”, de Joel Zito Araújo, premiada como melhor documentário no Festival É Tudo Verdade e com o troféu especial "Gilberto Freire de Cinema" e Troféu de "Melhor Roteiro de Documentário" do 5º Festival de Cinema do Recife.

O documentário é uma viagem na história da telenovela no Brasil e particularmente uma análise do papel nelas atribuído aos atores negros, que sempre representam personagens mais estereotipados e negativos. Baseado em suas memórias e em fortes evidências de pesquisas, o diretor aponta as influências das telenovelas nos processos de identidade étnica dos afro-brasileiros e faz um manifesto pela incorporação positiva do negro nas imagens televisivas do país.

A obra de Joel Zito Araújo é o resultado de anos de pesquisa em dezenas de novelas, formando um inventário da participação e importância de atores negros em produções que vão de 1.963 a 1.997. Alguns destes testemunhos são surpreendentes, como o de Toni Tornado, cujo personagem em "Roque Santeiro" ao final da novela seria o par romântico da Viúva Porcina, não fosse a interferência da "censura"; Ou ainda o diretor Walter Avancini que afirma, com perturbadora naturalidade, inexistir na época uma atriz negra capaz de viver "Gabriela", na novela de mesmo nome.

Crítica Contundente

No artigo Mídia e Sociedade, sobre o a obra de joel Zito, Leonardo Campos, diz que o diretor “deixa claro a avassaladora relação que a televisão vai estabelecer com a sociedade e consequentemente, a desvalorização do cinema, uma arte até então cultuada com muito afinco. O estereótipo e o preconceito que já tinham muita força nos suportes literários e cinematográfico agora ganhava um novo e eficiente aliado: o discurso televisivo”. 

Declara ainda que “a mensagem critica de Joel Zito de Araujo é clara e incisiva: mesmo que tentem mostrar um paraíso racial, as novelas tendem a cair na contradição. Novelas como Pecado Capital, Gaivotas, Pátria Minha, Anjo Mau, Por Amor, Irmãos Coragem e tantas outras citadas pelo diretor são provas vivas deste discurso do preconceito no Brasil e no mundo”, analisa

Já Márcia Santos da Silva, em sua crítica sobre o filme, ressalta, baseada nas informações do documentário, que diariamente nas telenovelas “há a hipervalorização da matriz euro-descendente, tida como modelo de beleza estética e superioridade intelectual, em detrimento das matrizes afro e índio-descendentes, já que “os grupos de maior prestígio têm hegemonia cultural e tudo que diverge de suas concepções é desqualificado". (Est.Culturais, 2008). 

Em entrevista ao programa Salto (Rede Brasil), Joel Zito afirma que “as pessoas, inconscientemente partilham a visão de que o belo, o culto, o desejável, o ser moderno, o ser Primeiro Mundo, é ser branco”. Arraigado na cultura brasileira, esse estigma é extremamente negativo para que o negro atue em papéis positivos que contribuam para a auto-afirmação da sua imagem. 

Os atores entrevistados no filme denotam que têm consciência de que a maioria dos papéis que lhes são destinados nas novelas ratifica o preconceito e perpetua a imagem do negro escravizado e humilhado. A atriz Zezé Mota relata que recusou um trabalho pelo fato de seu papel resumir-se apenas a servir água e café, mesmo correndo o risco de futuramente ter as “portas fechadas” pelo autor e pela Rede Globo. Esses papéis estereotipados são reflexos da disseminação da “ideologia do branqueamento”, que segundo Moritz, “são teorias raciais que deixam de ser modelos científicos, mas não são abolidas. Estão presentes no cotidiano das pessoas, internalizadas e eficientes por serem invisíveis e silenciosas”, passando despercebidas pelos menos politizados e desavisados.

Márcia Santos acrescenta ainda “que muitas vezes o preconceito está tão diluído na programação, que passa despercebido aos olhares inocentes do telespectador comum. No entanto, o futuro promete ser melhor do que o passado. A consciência crítica desperta para um novo rumo na valorização do ser humano enquanto cidadão, pertença ele a qualquer etnia dentro da sociedade brasileira”, completa. 

Sobre o diretor

Joel Zito de Araújo é doutor em Ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Arte da Universidade de São Paulo – ECA/USP e pós-doutorado no departamento de rádio, TV e cinema e no departamento de antropologia da University of Texas, em Austin, nos Estados Unidos. Nascido em 1954, dirigiu documentários de curta e média-metragem tematizando o negro na sociedade brasileira, dentre os quais destacam-se São Paulo abraça Mandela (1991), Retrato em preto e branco (1993), Ondas brancas nas pupilas pretas (1995) e A exceção e a regra (1997). Em 1999, finalizou seu primeiro longa, o documentário O efêmero estado, União de Jeová, sobre Udelino de Matos, um homem que, nos anos 1950, tentou formar um estado camponês com a população de maioria negra no norte do Espírito Santo. Dois anos depois, lançou A negação do Brasil. Em 2004, finalizou seu primeiro longa-metragem de ficção, Filhas do vento, que ganhou oito prêmio no Festival de Gramado, entre eles: melhor filme segundo a crítica, melhor diretor, ator e atriz. Na Mostra de Cinema de Tiradentes, foi escolhido como melhor filme pelo público e participou ainda de festivais na Índia, na França, na África do Sul e em Camarões. Em 2009, lançou o documentário .Cinderelas, lobos e um príncipe encantado. 

Fonte: Simone Norberto

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