Porto Velho (RO) quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
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Experiências comunitárias mostram que palmada não resolve


  
Casos exitosos em todo o País levam a pais, mães e cuidadores de crianças o conhecimento de que bater não educa, só atrapalha

Como as crianças se sentem quando são castigadas fisicamente com tapas, puxão de orelha, chineladas e outros meios? O que se passa com elas quando ficam presas em quartos escuros ou são humilhadas? Elas são capazes de entender por que os pais as agridem (mesmo quando dizem bater para educar)?

Um estudo realizado pelo Instituto Promundo (organização não governamental brasileira que funciona há doze anos no Rio de Janeiro) ouviu pais e crianças em três comunidades cariocas para compreender melhor como eles veem o fenômeno dos castigos físicos e humilhantes. O trabalho, intitulado Crianças Sujeitos de Direitos, envolveu, ao todo, 65 crianças e adolescentes e 600 pais, mães e cuidadores de crianças.

Como parte do mesmo estudo, foram promovidos 45 encontros de sensibilização e uma campanha comunitária com o objetivo de modificar as práticas da educação infantil por parte das famílias e reduzir atitudes e comportamentos de violência intrafamiliar. Além disso, o projeto desenvolvido pelo Instituto pretendia identificar que estratégias teriam sucesso na promoção desses relacionamentos mais harmoniosos e não violentos para a erradicação do castigo físico contra a criança e promoção do desenvolvimento infantil no âmbito familiar.

Raio-X dos Castigos Físicos

Os piores métodos de castigo apontados pelas crianças foram a palmada no braço; ficar de castigo no banheiro; ficar de castigo no quarto; tapa na cabeça; paulada; puxão de orelha e chinelada. A maioria delas admitiu sentir medo, tristeza e raiva quando sujeitadas à punição física ou humilhante. Relatos dos especialistas que participaram do processo apontam que o tema levantou sentimentos muito fortes. Foram constatadas sensações de tristeza, infelicidade, depressão e, principalmente, dor e raiva quando os pais utilizam castigos físicos e humilhantes. Os depoimentos também apontam que as crianças sentem rejeição, menosprezo e marginalização. Elas relataram humilhação e impotência pelo fato de não poderem revidar o que foi sofrido.

Meninos e meninas ouvidos na pesquisa também disseram ficar muito ressentidos nos momentos em que sentem que seus pais não os escutam nem levam seus desejos em consideração. Muitos descreveram tentativas desesperadas de tentar se fazer ouvir pelos adultos. Há também uma carência por mais demonstrações de afeto e uma escuta atenta por parte de pai e mãe.

A mãe foi a pessoa que apareceu com maior frequência nos depoimentos das crianças como a aplicadora de castigos, principalmente os físicos, seguida dos irmãos e tios. O estudo aponta que isso se deve, provavelmente, ao fato de que elas passam mais tempo com seus filhos do que os demais.

Quando as crianças foram indagadas diretamente sobre as alternativas que seus pais poderiam usar para discipliná-las ao invés de utilizarem castigos físicos e humilhantes, a única possibilidade levantada foi que elas não repetissem o comportamento que desagradou seus pais, talvez porque o uso do castigo físico já seja legitimado e internalizado como correto. O castigo físico, quando aplicado por um longo período, não surte mais o efeito desejado pelos adultos, ou seja, o comportamento infantil indesejado segue acontecendo. O que as crianças afirmam é que não lembram o motivo pelo qual foram castigadas.

Ouvindo pais e mães

Os pais e mães ouvidos na pesquisa acreditam que estão batendo para educar, mas se esquecem que estão utilizando a mesma justificativa para conter ou punir a violência das crianças quando estas apresentam comportamento agressivo. Isso foi observado em um grupo de crianças que relatou apanhar após baterem nos seus irmãos. As declarações indicam que os pequenos reproduzem o comportamento violento dos seus pais. A chamada "transmissão geracional da violência" foi uma hipótese bastante considerada, pois algumas crianças, em seus discursos, afirmam que educarão seus filhos com violência, como seus pais. Essa contribuição negativa reforça a ideia de que a violência é um método educacional aceitável e a constante exposição à agressão faz com que os pequenos recorram mais facilmente a ela no trato com as outras pessoas.

Durante o trabalho nas três comunidades cariocas (Pedra de Guaratiba, Cantagalo e Cancela Preta), os pais, ao serem indagados sobre em quais momentos a criança merecia apanhar, responderam, em sua maioria (cerca de 80%), a falta de respeito às ordens dos adultos. Cerca de 63% dos entrevistados afirmaram também que "crianças de que não apanham ficam sem limites".

Mudança de comportamento

As oficinas com pais e cuidadores discutiram temas como direitos infanto-juvenis e relações familiares. Antes e depois das oficinas foram aplicados questionários sobre o conteúdo difundido. A intenção era perceber se durante a troca de experiências foi assimilada a defesa pelo fim dos castigos físicos e tratamento humilhante. Antes do projeto, por exemplo, cerca de 62% dos pais nunca haviam ouvido falar sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O índice de pais que achavam que as crianças têm direito de discordar aumentou de 44% para 55%. E aqueles que afirmavam que crianças que não apanham ficam sem limites caiu para 28%.

Na avaliação sobre os impactos das oficinas, o Instituto Promundo aponta que os pais que veem suas crianças como "pessoas com direitos" são menos propensos a usar punição física. Apesar de existirem relatos de crianças que não concordam com os castigos recebidos, a cultura brasileira, com base na escravidão, reforça a dinâmica de que a força pode disciplinar alguém que tenha menos poder e força física ou esteja em condição de dependência. A herança escravocrata é visível no atual discurso infantil, onde os pequenos afirmam que compreendem e justificam a educação violenta que recebem. Essa educação perpetua o ciclo da violência, pois as crianças acabam aprendendo que a violência é um meio justificável para a resolução de seus problemas.

As principais questões levantadas pela pesquisa foram: Como promover uma educação sem violência contra crianças e estimular a sua participação no ambiente familiar? Como medir mudanças de atitudes dos cuidadores em relação às crianças? Quanto tais mudanças reduzem o uso dos castigos físicos e humilhantes contra crianças?

Dentre as lições aprendidas foi ressaltado que filho é sim assunto de homem; que castigo físico e humilhante está totalmente naturalizado e incorporado no cotidiano das famílias e há dificuldade em reconhecer tais atos como violência. Foi dito pelos grupos que existe necessidade das cuidadoras terem um espaço de escuta e compartilhamento de sentimentos com os pais sobre o dia-a-dia com os filhos deles; que falta bases de apoio na criação dos filhos. Concordaram que o ciclo da violência no espaço da casa é reproduzido e que é importante ouvir e conhecer experiências positivas de educação dos filhos.

Rede Não Bata, Eduque - Desde 2005, a Rede Não Bata, Eduque - formada por instituições e pessoas físicas - procura gerar o debate sobre o fim dos castigos físicos e o tratamento humilhante de crianças e adolescentes no Brasil. Para isso, a Rede trabalha na promoção de advocacy político e social do tema, a fim de que a medida se torne lei, ou seja, para que se tornem oficialmente proibidas manifestações defendidas como de caráter "educativo" como palmadas, puxões de orelhas, pancadas e situações humilhantes contra meninos e meninas. Para conseguir seu objetivo, além de um trabalho junto a deputados, senadores e atores sociais, a Rede promove seminários, palestras e atividades em comunidades para despertar o interesse pela discussão e pelo combate a essas práticas.

Experiências exitosas

A Rede Não Bata, Eduque, em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), realizou, em 2008, um concurso com o objetivo de selecionar as melhores iniciativas na prática de educação positiva, baseada no diálogo e em métodos educacionais que não utilizam castigos físicos e humilhantes. Foram 32 instituições inscritas, de norte a sul do país. Destas, quatro foram premiadas.

O projeto Brincando com a realidade - Grupo de crianças vítimas de violência doméstica conquistou o primeiro lugar. O programa foi criado em 2007 no Centro Educacional Prefeito Luis Adelar Soldatelli, na cidade de Rio do Sul (SC), pela psicóloga Mariane Steffen e a assistente social Francinês Swib, após perceberem na escola um número significativo de casos de vítimas de violência. Os professores, então, passaram a receber palestras de como identificar a agressão por sinais físicos e comportamentais apresentados pelos alunos. A partir daí, as crianças são acolhidas em grupos que propõem a troca de experiências e a livre expressão de sentimentos, com atividades de relaxamento, músicas, vídeos, conversas e jogos pedagógicos. "Podemos perceber os resultados pela diminuição dos casos reincidentes, a melhoria na relação familiar e a motivação dos alunos para irem aos encontros", afirma Mariane.

A Campanha pelos bons tratos com crianças e adolescentes, promovida pelo Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social, ficou em segundo lugar no concurso. A cada ano, o grupo de Recife (PE), elabora atividades diferentes que chamem atenção para a causa. Já houve panfletagem, distribuição de material informativo e rodas de leitura. Mas a repercussão da campanha veio com a personagem Florisbela Sorriso, heroína de histórias em quadrinhos criada para informar a população sobre a necessidade de combater atitudes de violência e disseminar a cultura de paz.

A Secretaria Municipal de Saúde do município de Canoas, Rio Grande do Sul, conseguiu o terceiro lugar com o Serviço especializado no atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência (SACAV). Há doze anos, o sistema recebe denúncias de violência de escolas, emergências de hospitais, fóruns e conselhos tutelares. Após o registro das ocorrências, as vítimas têm acompanhamento constante de psicólogas e psiquiatras e os pais são conduzidos a assistentes sociais.

O programa Educar sem violência: prevenção da violência física familiar contra crianças do Instituto Dom Fernando, da Universidade Católica de Goiás, dividiu com o SACAV o terceiro lugar. Nele, são atendidas trinta famílias, com visitas domiciliares realizadas por uma psicóloga e uma estagiária. Elas promovem o diálogo entre pais, mães, avós, tios e tias e estimulam as crianças e adolescentes a falarem sobre o que pensam da educação que recebem. Assim, as pessoas refletem sobre seu modo de agir e procuram estratégias pedagógicas para evitar o uso da violência.

Fonte: ANDI com informações de:

Rede Não Bata, Eduque!
www.naobataeduque.org.br
Compõem a rede:
Instituto Promundo
Isadora Garcia - assistente sênior de programas
(21) 2215-5216 / 9465-4085
www.promundo.org.br
Fundação Xuxa Meneguel
Angélica Moura Goulart - diretora administrativa
(21) 2417-1252 / 1925
www.fundacaoxuxameneghel.org.br
Outras fontes:
UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância
Mário Volpi - coordenador do programa Cidadania dos Adolescentes
Helena Oliveira - oficial de projetos de Proteção à Infância
Assessoria de comunicação: (61) 3035.1983 / 1917 / 1963
Instituto Sedes Sapientae
Dalka Ferrari - coordenadora
(11) 3021-5833
sedes@sedes.org.br
www.sedes.org.br
Centro de Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância do ABCD - CRAMI
(11) 4992-1234 / 4990-8521
Contato: Ligia Maria
Laboratório de Análise e Prevenção a Violência - LAPREV - Universidade Federal de São Carlos
Contato: Lucia Cavalcanti
(14) 3351-8745
Instituto Noos
Programa de Prevenção à Violência Intrafamiliar e de Programa de Prevenção à Violência de Gênero
Contato: Vânia Izzo de Abreu
(21) 2579-2357
Centro de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo
Sérgio Adorno - coordenador
(11) 3091-5077
nev@usp.br
www.nev.prp.usp.br

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