Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 - 08h25

O Conselho Estadual de Política Cultural de Rondônia
(CEPC/RO) manifesta preocupação com a decisão do Governo do Estado de conceder
o Teatro Guaporé ao Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) pelo período de 20
anos, sem diálogo prévio com a comunidade artística, com o próprio Conselho ou
com outros espaços de participação social da política cultural.
Para o CEPC/RO, a medida insere-se em um contexto mais
amplo de fragilização das políticas públicas de cultura no estado,
especialmente no que diz respeito à gestão e à preservação dos equipamentos
culturais públicos.
Segundo o presidente do Conselho, Édier William, a
decisão evidencia a forma preocupante que o poder público tem tratado a
cultura. “A concessão do Teatro Guaporé sinaliza uma tentativa de afastar do
Estado a responsabilidade direta sobre um equipamento cultural estratégico.
Cultura não pode ser tratada como um problema administrativo a ser repassado a
outro Poder”, afirma.
O Teatro Guaporé é um dos poucos espaços culturais de
médio porte em funcionamento regular em Rondônia, historicamente utilizado para
apresentações artísticas, festivais, ações formativas e circulação cultural.
Sua retirada do sistema de gestão cultural ocorre em um momento sensível: o
Estado está em processo de elaboração do Plano Estadual de Cultura, iniciativa
conduzida em conjunto com o CEPC/RO, que tem identificado como uma das
principais fragilidades estruturais a escassez de equipamentos culturais
públicos, sobretudo fora da capital.
De acordo com o Conselho, a concessão do teatro ao TJRO caminha em sentido oposto às diretrizes debatidas no âmbito do Plano Estadual de Cultura, que apontam a necessidade de ampliar, recuperar e descentralizar os equipamentos culturais como estratégia de fortalecimento da política cultural no território rondoniense.
Baixo investimento e dificuldades de gestão
O CEPC/RO também chama atenção para o cenário de
financiamento da cultura em Rondônia. Em 2025, o investimento estadual previsto
no Fundo Estadual de Desenvolvimento da Cultura (FEDEC/RO) foi de
aproximadamente R$3 milhões para atender ações culturais nos 52 municípios do
estado, valor considerado insuficiente para estruturar políticas públicas
contínuas, descentralizadas e de longo prazo.
Além do volume reduzido de recursos estaduais, o Conselho destaca perdas expressivas de recursos federais nos últimos anos, como cerca de R$20 milhões da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) não executados e aproximadamente R$10 milhões dos Arranjos Regionais não aderidos no Edital da Ancine. No total, cerca de R$30 milhões deixaram de circular na economia cultural rondoniense, afetando diretamente artistas, técnicos, produtores e gestores culturais.
Gestão democrática e bens culturais
Outro ponto enfatizado pelo CEPC/RO é a ausência de
diálogo institucional no processo de concessão do Teatro Guaporé. Para o
Conselho, a falta de escuta aos órgãos de participação social e à sociedade
civil organizada contraria os princípios da gestão democrática da cultura,
previstos na Constituição Federal e nas normas que estruturam a política
cultural brasileira.
O caso do Teatro Guaporé, segundo o CEPC/RO, não é
isolado. Diversos bens culturais e patrimônios materiais no estado encontram-se
abandonados, subutilizados ou sem políticas permanentes de manutenção,
revelando a necessidade de uma política de Estado para a cultura, baseada em
planejamento, continuidade administrativa e participação social.
Nesse contexto, conselheiros do CEPC/RO também têm se manifestado individualmente sobre a situação. Para Selma Pavanelli, conselheira representante da Setorial de Circo, a concessão do teatro “expõe um sentimento recorrente no setor cultural de que a cultura segue sendo tratada como algo secundário, mesmo sendo um direito constitucional e um vetor de desenvolvimento social e econômico”.
Aspectos técnicos e jurídicos
Do ponto de vista técnico e jurídico, o CEPC/RO avalia
que a transferência da gestão do Teatro Guaporé ao Tribunal de Justiça não
encontra respaldo na legislação vigente. O teatro é um bem público de uso
especial, criado com finalidade cultural específica, juridicamente vinculada à
política cultural do Estado.
A Constituição Federal, em seu artigo 216, estabelece
o dever do Poder Público de proteger e promover o patrimônio cultural, o que
inclui a garantia de sua função cultural ativa e acessível à sociedade.
Qualquer alteração estrutural dessa finalidade exige lei específica e debate
público qualificado.
No âmbito estadual, as Leis Complementares nº 773/2014
e nº 965/2017, bem como o Decreto nº 22.842/2018, atribuem à Fundação Cultural
do Estado de Rondônia (FUNCER) a competência para gerir equipamentos culturais.
Já a Lei Complementar nº 94/1993, que organiza o Tribunal de Justiça do Estado,
não prevê entre suas atribuições a gestão de espaços culturais.
O Conselho ressalta ainda que convênios ou termos de cooperação administrativa não podem criar novas competências nem alterar a destinação de bens públicos, sob pena de configurar desvio de finalidade administrativa e violação ao princípio da legalidade.
Posicionamento do CEPC/RO
Diante desse cenário, o CEPC/RO defende a manutenção
do Teatro Guaporé como equipamento público cultural sob gestão da FUNCER, com
acesso democrático, programação artística regular e alinhamento às diretrizes
da política cultural estadual.
Para o Conselho, o debate precisa ser público e
transparente. “Não se trata de um conflito entre instituições, mas da defesa de
um direito coletivo. O Teatro Guaporé pertence à sociedade rondoniense, e
qualquer decisão sobre seu futuro precisa respeitar a legislação, a
participação social e a função cultural do espaço”, diz o artista e conselheiro
representante das artes visuais Frank Busatto.
Para Andréa Melo, artista e conselheira da Setorial de
Dança, a cessão do Teatro Guaporé ao Tribunal de Justiça pelo período de 20
anos ocorre de forma preocupante, sem transparência, sem diálogo com a classe
artística, sem escuta ao Conselho Estadual de Política Cultural e sem a
realização de um debate público amplo. A decisão impacta diretamente em quem
produz arte em Rondônia, especialmente o setor da dança, que já enfrenta a
escassez de espaços adequados para ensaios, temporadas, circulação de obras e
ações formativas.” afirma a conselheira.
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