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Boi-bumbá e folclore amazônico deixam família 'dividida'


 
Amanda Mota
Agência Brasil
 

Parintins (AM) - Uma casa localizada em uma das principais ruas de Parintins, no Amazonas, chama a atenção de turistas "desavisados". Logo após o portão de entrada, a calçada e a garagem da residência foram divididas por uma pintura feita, de um lado, de vermelho e, de outro, de azul. Como a cidade é a terra dos bois-bumbás Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul) pode-se até pensar apenas que, ao contrário da maioria dos habitantes, os moradores não se decidiram pela torcida de um único boi.

Este ano, para facilitar o entendimento de quem foi a Parintins pela primeira vez, os donos da casa colocaram um grande cartaz com a foto dos seus dois filhos – Júnior e Israel Paulain – e, abaixo das imagens, a seguinte mensagem: "Um sangue. Duas nações. Que vença o melhor".

Os dois irmãos exemplificam uma situação comum na cidade: a rivalidade folclórica entre as torcidas pelos bois Garantido e Caprichoso. Desde 2005, Israel e Júnior disputam a preferência dos jurados do Festival Folclórico de Parintins. O que chama ainda mais a atenção é que eles concorrem na mesma categoria, ou seja, a de apresentador. Do lado vermelho, está Israel Paulain. Do lado azul, Júnior Paulain. Eles são os porta-vozes dos bois e atuam como mestres de cerimônia da apresentação dos bumbás.

"A família realmente fica dividida e o festival é um momento de tensão. Pai e mãe ficam tensos e tentando, a cada ano, superar da melhor forma esse momento", afirmou Júnior, em entrevista à Agência Brasil.

A história dos dois bois-bumbás de Parintins se misturam às memórias da família Paulain, bem como da população local. Na cidade, até as marcas internacionais de refrigerantes não devem tomar partido por uma das agremiações e, por causa disso, chegam a mudar de cor em respeito aos bois.

Durante a programação, até mesmo parte do uniforme dos policiais militares é alterada. No bumbódromo, quem vai trabalhar do lado do Garantido, tem que usar o colete refletivo da cor vermelha. Já para quem vai para o lado do Caprichoso, o acessório a ser usado deve ser o de cor azul. Para circular dos dois lados e não causar nenhuma polêmica, os policiais usam o uniforme padrão com o colete refletivo branco, uma cor neutra.

Mesmo com essa "rivalidade", a convivência é harmoniosa entre os parintinenses, assim como na casa de Israel e Júnior, que tem 25 e 20 anos, respectivamente. Filhos do compositor Carlos e da professora Regina Paulain, os dois ainda têm uma irmã, Gabriela.

"Além das cores e da decoração da casa, que ficam divididas pelas cores azul e vermelho, a nossa mãe também fica com o coração dividido. Ela é Caprichoso, assim como meu pai e nossa irmã. Mas no item apresentador, ela fica neutra. Eu mesmo não gostaria de estar nessa situação", disse Israel.

"Obviamente temos entre os dois uma disputa saudável para ver quem vai fazer melhor até porque todos os itens do boi que defendemos é apresentado e narrado por nós. A família é Caprichoso, mas o cuidado com o Israel é permanente. Ninguém quer um clima rivalista e de mal-estar dentro de casa", complementou Júnior.

A influência vermelha para Israel veio de um tio por parte de pai. Segundo Israel, antes dos dois irmãos mais novos nascerem ele já freqüentava o lado vermelho da cidade e isso jamais foi motivo de desavença dentro de casa, apesar da preferência dos pais pelo boi azul. Ele é o apresentador do Garantido desde 2002.

"Eu nunca fui Caprichoso. Antes da minha irmã e do Júnior nascerem, eu ficava na casa de um tio, que é irmão do meu pai. Ele me levava para o curral do Garantido. Fui me inteirando e me integrando naturalmente ao vermelho. Meus pais nunca me impediram. Comecei saindo na batucada do Garantido em 1994. Não há nenhum problema na família por causa disso e tanto eu quanto meu irmão temos apenas a preocupação de fazer um bom trabalho e ajudar o festival. Eu sou a ovelha vermelha da família", brincou o apresentador do Garantido.

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