Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Simon

O MASSACRE TINGIU DE VERMELHO AS ÁGUAS DOS IGARAPÉS


Neném Clímaco ficou furioso quando Luiz Tupari, um índio velho amansado entrou em seu escritório, localizado no andar superior de seu barracão, com vista privilegiada para a nascente do Rio Madeira, logo no início da manhã em que aguardava apreensivo a chegada de negociantes de borracha vindos de Manaus para conhecerem seu lucrativo empreendimento, e lhe disse com os olhos fixos no piso de paxiúba que várias de suas colocações haviam sido incendiadas pelos cabocos.

O velho seringalista, com seus cabelos alvos e um bigode  preto que mandava pintar todas as vezes que viajava à Riberalta, virou-se para a nascente do Madeira, onde deslizavam grossos troncos de árvores que eram engolidos pelas turbulentas águas da cachoeira há poucos metros de seu barracão, retirou um dos  cachimbos de cima de sua escrivaninha e acendeu usando o seu  Zippo favorito, onde mandara desenhar cuidadosamente uma frondosa seringueira.

Deu uma longa e fumegante baforada, e virou-se novamente para o velho índio que permanecia imóvel, e com o mesmo olhar fixo no chão. Tupari nunca o encarava, e lembrou-se do dia em que seu pai Sebastião João Clímaco, o trouxe ainda criança, juntamente com Coroca para morarem com eles em Vila Murtinho. Sempre arredios e tristes, os dois cresceram brincando com Neném Clímaco, correndo pelos trilhos da ferrovia.

Quantas colocações foram incendiadas? Perguntou, soltando outra baforada inundando o  recinto com um suave sabor mentolado. O velho índio não soube responder, apenas repetiu, “várias”, inclusive senhor,  a sua preferida que fica às margens do Igarapé Laje, a “Panelinha”,  lá os cabocos mataram o seringueiro Cardoso e levaram  sua esposa  e a filha.

Neném crescera vendo seu pai em permanente conflito com os índios da região, ele organizava expedições e aldeias inteiras foram exterminadas, e agora que ficara no comando dos negócios da família, não queria repetir a mesma política empregada pelo seu genitor. Mas, os prejuízos que os cabocos estavam lhe causando, necessitava  uma ação mais incisiva de sua parte. Neném pediu ao velho índio que selasse sua montaria e convocasse mais dois mateiros, de preferência índios amansados, conhecedores da geografia da região, para acompanhá-lo ao barracão do seringalista Augusto Lopes, às margens da ferrovia, nas proximidades da cachoeira do Ribeirão, onde várias colocações em suas terras  também foram incendiadas.

Aproximadamente, vinte quilômetros separavam as sedes dos dois mais importantes seringais da região. A tropa saiu logo depois do almoço e chegaria ao barracão de seu vizinho pouco antes do anoitecer, Neném Clímaco permaneceu calado durante todo o percurso, imaginando quais as estratégias que ele e Augusto Lopes adotariam contra os constantes ataques de índios em suas terras.

Colocações eram duramente atacadas pelos cabocos, casas saqueadas e incendiadas, seringueiros e familiares mortos e plantações destruídas.             Os cabocos atacavam geralmente ao amanhecer quando o seringueiro saia para cortar seringa e deixava a família em casa, desprotegida. O prejuízo era grande, além das perdas imediatas, dificilmente outro seringueiro toparia trabalhar em uma colocação que fora atacada pelos cabocos, mesmo nas mais produtivas, pouquíssimos se arriscavam.

Augusto Lopes estava sentado no alpendre de seu barracão, olhando os cardumes de pescadas tentando subir as revoltosas águas da cachoeira, quando avistou Neném Clímaco aproximando-se com sua tropa. O anfitrião acenou para um empregado que estava limpando peixe logo abaixo do alpendre e lhe disse para matar o melhor capado do chiqueiro, pois seu amigo iria pernoitar em sua casa aquela noite.

“Quem chega à minha casa ao entardecer, só sai ao amanhecer”, disse o anfitrião, abrindo os braços para receber velho o amigo, “mandei matar o melhor capado e vou escolher a melhor cabrocha do meu curral para meu amigo recompor as forças esta noite”. Os dois se abraçaram afetuosamente e caminharam às gargalhadas até o alpendre, onde uma limonada adoçada com rapadura os aguardava.

Após o farto banquete, servido poucas horas depois da chegada do visitante, os amigos já traçavam um  plano para organizar uma mortífera expedição contra os cabocos, “ Vamos mostrar pra eles quem manda nesta terras”, disse meio colérico, Augusto Lopes, afirmando que não economizaria em armas, munições e nem em homens para caçar e matar um a um todos os índios da região, “ quero que matem de mamando a caducando”.

Puseram-se de acordo, em quinze  dias, quando as fortes chuvas diminuíssem duas  expedições partiriam, uma  de Vila Murtinho e a outra da cachoeira do Ribeirão. Os seringalistas mandaram vir de Riberalta dezenas de caixas de munições, espingardas, cartucheiras e mantimentos capazes de manter por meses a caçada aos cabocos.

De Vila Murtinho partiram cento e cinquenta homens fortemente armados, liderados por Luiz Tupari e Coroca, com destino à colocação do “Amaro”. Mais cento e cinquenta homens, sob a liderança do mateiro Aureliano, sedentos e encorajados por litros e litros de cachaça partiram da cachoeira do Ribeirão, com destino à “Cambuquinha”, última colocação do seringal de Augusto Lopes.

O plano cuidadosamente elaborado pelos seringalistas foi seguido à risca pelos mateiros. As duas tropas deveriam desloca-se pelos varadouros até o final dos respectivos seringais, e depois  retornariam,  atacando de emboscada  todas as aldeias que encontrassem. Foram dias de trovoadas, o massacre que se seguiu, tingiu de vermelho às águas dos igarapés e o cheiro de carne queimada  impregnou árvores, pássaros e animais durante meses.

Quando não havia mais índios para matarem, os homens insuflados pelo cheiro de sangue, destruíram plantações de mandioca e  queimaram um imenso depósito de milho que garantiria o sustento de mais de mil índios durante todo o ano. Foram quinze dias de intenso “clamor e ranger de dentes”, enquanto isso, os seringalistas contabilizavam os lucros, estirados em suas redes às margens do Madeira.

Exatamente, quinze dias depois do “ Apocalipse na Floresta”, ao entardecer de um sábado de aleluia, quando os moradores de Vila Murtinho se preparavam para mais uma festa cristã, surgiu em um varadouro  que passava  no fundo da igreja e desembocava na estação ferroviária,  uma  fila interminável de índios, homens, mulheres e crianças, nus, cadavéricos, estropiados  e esfomeados que atravessou o povoado e parou em frente ao barracão do Neném Clímaco.

“Temos fome, dái-nos de comer”, disse um velho índio ao seringalista que permaneceu em pé, imóvel no alpendre de sua residência. “Somos trezentos, éramos mais de mil, agora somos trezentos, dái-nos de comer”, repetiu o velho índio, olhando para a nascente do Madeira, onde deslizavam grossos troncos de árvores que eram engolidos pelas turbulentas águas da cachoeira a poucos metros do barracão. “Vocês destruíram nossa mandioca e queimaram o nosso milho, dái-nos de comer”.

Autor: Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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