Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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O drible na morte


O drible na morte - Gente de Opinião

Simon O. dos Santos*
 

Os cassacos passaram pelo local após o acidente e estarrecidos não acreditaram no que viram, o trem de lastro havia empurrado a cegonha uns cem metros do local onde houvera o choque, e as marcas estavam em toda a extensão, o sangue era quase imperceptível, pois a chuva não dera trégua desde a noite anterior. Era final de outubro de 1957, e o inverno já encharcara boa parte da floresta que margeava a estrada, deixando-a impregnada do cheiro forte de folhas apodrecidas. Dona Maria Acássio, que também estava na cegonha juntamente com sua mãe, seu pai, sua cunhada, sobrinhos e outros conhecidos, voltou ao local do acidente, a procura do que fora esquecido na escuridão, recolheu alguns pertences que encontrou, um chapéu de palha, um par de sandálias e uma garrafa de “cocal” ainda pela metade, mas, recolher e guardar numa sacola os restos do cérebro de sua cunhada,  espalhado pelos dormentes já sendo devorado pelas formigas lhe causou uma angústia ainda maior do que vê na noite anterior, há dez metros de distância a cegonha indo de encontro ao trem que surgira silencioso da escuridão férrea.

A família Acássio chegou à Amazônia, em 1953, embarcou num pau-de-arara em Paraipabas com destino ao IATA, era uma família numerosa como quase toda gente do nordeste, nesse local ficou apenas seis meses, o tempo suficiente para adquirir com o pouco que trouxera, uma propriedade às margens da ferrovia, nas proximidades do igarapé bananeira. A matriarca da família,  era dona Maria Cardoso Meireles, tomava conta da casa com valentia sertaneja, nenhum filho ousava levantar-lhe a voz, pois o castigo era iminente, de posse de um chicote feito de cipó de boi, mantinha a  todos  vigilantes com a ordem dos afazeres domésticos. O patriarca logo embrenhou-se pelas matas, machado em punho,  em poucos meses seu roçado ganhou  uma cortina  verde onde feijão, milho, arroz e mandioca eram a garantia de que sua família estava a salvo dos perigos da fome e da seca do nordeste.

Dona Maria Meireles, sempre inquieta e preocupada com o bem-estar da família, pensou noutra maneira de também ajudar o marido no sustento de todos, cozinheira prendada, aprendera com sua mãe nos sertões do Ceará, a preparar buchada de bode, sarapatel, e outras iguarias típicas da culinária nordestina. Falou com o marido que estava pensando em colocar na feira em Guajará Mirim uma banca de comida, pois através de suas andanças pelo local, observara que a população era composta quase toda por gente do nordeste e que não havia na cidade nenhuma bodega que vendesse a comida que ela sabia preparar tão bem. O marido um pouco resistente, após esmerilhar na cabeça as justificativas da esposa, aceitou a proposta, pois sabia que a esposa não iria desistir da idéia de forma alguma. No outro dia, pela manhã embarcaram no trem com destino à Guajará Mirim, precisavam conversar com o gerente da feira para negociarem o ponto da venda de comida, após os acertos e feitas as considerações sobre o negócio, pagamento de taxas e outros encargos, que na época já não eram poucos, foram ao comercial fortaleza adquirir as panelas e demais apetrechos necessários ao funcionamento do empreendimento.

Era preciso urgência, dona Maria Meireles não era mulher de ficar pisando mole, como diz o ditado, em dois dias preparou tudo, pois na próxima sexta feira a tarde o trem da feira passava e era preciso dormir em Guajará Mirim, no sábado ao amanhecer já queria estar na sua banca com toda a sua gastronomia preparada para receber os clientes, nessa lida, seu ajudante era seu filho João Acássio de Souza, que além de  servir os pratos, era responsável pela limpeza das mesas e do local. Dona Maria ao final da feira, após lavar  e deixar tudo arrumado para o próximo fim de semana, seguia com seu filho para a estação ferroviária, próxima ao porto, para aguardar a hora de retornar a sua residência.

A banca de Dona Maria em pouco tempo ficou conhecida na cidade, era referência de comida nordestina e ponto de encontro de todos os saudosistas da comida e prosa do nordeste. As vezes a comida acabava antes do meio dia, e dona Maria teria que ficar aguardando o retorno do trem, ficava na feira conversando com as amigas, e,   seu filho ficava papeando com conhecidos pelos botecos que rodeavam a feira, numa dessas conversas com um desconhecido, após ingerir um pouco de aguardente, certamente “cocal”, João se desentendeu com um indivíduo, que não era de levar desaforo pra casa, e sem pensar duas vezes arrancou uma peixeira da cintura e cravou nas costelas de João duas vezes, ao vê que o pobre esfaqueado caíra ao chão ensangüentado, o infrator esgueirou-se por entre as mesas e fugiu pela calçada, em direção oposto à estação. Dona Maria estava sentada numa banca em frente  a sua,  quando escutou o atropelo de gente correndo e gritando a procura de um transporte para acudir o desvalido, nunca imaginaria que o pobre esfaqueado era justamente o filho que a ajudara toda a manhã e que agora agonizava rumo ao Hospital Bom Pastor, dona Maria acompanhou o filho ao hospital e não largou seu leito até o médico que o atendeu, dizer-lhe que o sangramento fora estancado e que após alguns dias de internações e muito medicamento ele estaria em condições de ajudá-la novamente. Após ouvir as recomendações do médico dona Maria mais tranqüila, se despediu do filho e retornou a sua casa, relatando a todos o ocorrido com João.

Na quarta feira da semana seguinte, dona Maria estava no quintal de sua residência colocando macaxeira para os porcos quando recebeu a terrível notícia que seu filho havia piorado e que a família precisaria ir urgente para o hospital visitá-lo, a família entrou em polvorosa, e sem demora embarcara na cegonha e as treze horas e trinta minutos chegaram ao hospital, o tempo de viagem do bananeira para Guajará Mirim na cegonha era  de no máximo quarenta minutos. Para surpresa de todos, João estava bem melhor e mais alguns dias receberia alta médica, a família então percebera que o alarme era falso, havia sido vítima de um trote, alguém fizera uma brincadeira de mau gosto. Assim, todos vendo que João estava bem, resolveram demorar-se um pouco mais na cidade, as mulheres continuaram no hospital e os homens foram ingerir um pouco de “cocal” para  aliviar o susto. Nesse  vai vem danado, o grupo juntou-se para preparar o retorno as onze horas da noite, alguém ligou para a estação de Vila Murtinho, perguntando se havia algum transporte vindo para Guajará Mirim, informados que a ferrovia estava livre, montaram na cegonha com destino ao bananeira. Dona Maria Meireles, vinha sentada na parte da frente da cegonha, ao seu lado vinha sua filha Maria Acássio, na parte traseira, acomodava-se aos sete meses de grávida, a esposa de João com a filha de três anos no colo, os homens se acomodaram nos bancos laterais da cegonha, e assim na escuridão da noite e molhados pela chuva marcharam ao encontro do trem.

O grupo seguia quase em silêncio, o cansaço era grande, e a água fria da chuva juntamente com o vento deixava a todos encolhidos e quietos, ouvia-se além do barulho da chuva e do vento, o ranger das rodas da cegonha no contato com os trilhos, vez o outro um pigarrear de alguém, ou a tosse quase inaudível da criança acomodada no colo da mãe. A cegonha impulsionada pela força dos músculos de quatro homens, já nas proximidades do bananeira ao entrar numa curva bem no cume de uma pequena  serra, chocou-se com o trem de lastro que vinha trazer para Guajará Mirim material de construção, não se tinha notícia que o trem viajasse durante a noite e muito menos que seus faróis imensos estivessem desligados, mas pouco tempo depois, ficou-se sabendo que o maquinista havia ingerido “cocal” durante toda a sua viagem.

Dona Maria Acássio que estava na frente da cegonha ao lado mãe, foi a primeira pessoa a perceber o trem surgindo na escuridão  há pouco mais de metros de distância, o farol da cegonha que ficava bem embaixo na parte dianteira é que permitiu vê-se a sombra gigantesca da locomotiva se aproximando como um demônio a solta. Dona Maria Acássio guarda na memória as palavras que lhe saíram à boca, quando saltou com os olhos fechados da cegonha, “valei-me Nossa Senhora da Conceição” e rolou ribanceira abaixo, como se pulasse de um pesadelo, atônita e na escuridão, dona Maria escutou quando o trem freou e parou uns cem metros adiante, e foi então que teve a certeza que todos foram levados pelo trem, um pouco mais acima escutou sua mãe lhe chamando, “ minha filha eu tô toda cortada”, dona Maria Acássio, não imaginava o tamanho dos ferimentos de sua mãe, aproximou-se, meio tateando no escuro e a tocou, foi quando percebeu que o trem e três carros haviam passado por sobre as pernas de sua mãe. Nesse ínterim, os outros membros do grupo foram se aproximando, meu pai e todos os outros estavam bastante feridos, escutei um pouco distante o choro angustiante de minha sobrinha, implorando no escuro pelos braços de sua mãe, que ao cair do trem batera com a cabeça nos dormentes, perfurando-lhe o crânio e espalhando seu cérebro pelos trilhos da ferrovia, foi enterrada no outro dia no Cemitério Santa Cruz, João seu marido que estava hospitalizado, não pudera comparecer ao seu velório, o médico não autorizou que o marido beijasse sua esposa grávida pela última vez.

Peguei mamãe no colo e percebi que suas pernas um pouco abaixo dos joelhos, estavam moídas que nem pedra brita, a coloquei no trem, não havia maca ou colchão, ao seu lado, e agora chorando muito retornamos para o  Hospital Bom Pastor. Minha mãe não chorou uma única vez, eu a escutava rezando baixinho, quase inaudível, os olhos fixos  na parede do hospital enquanto os médicos cortavam com uma serra de cortar osso de boi as pernas de minha mãe. Ela permaneceu internada no hospital durante vinte e cinco dias, e ao sair no final desse tempo o médico, contente com seu restabelecimento lhe disse “Dona Maria, a senhora passou o drible na morte”, ela sorriu e agradeceu a Deus mais uma vez.

Muitos anos depois, minha mãe contou que no local onde ela estava sentada ao meu lado, havia na parte de fora da cegonha um pedaço de madeira que servia de apoio para mãos dos passageiros, e quando ela viu o trem se aproximando  e se preparou para pular para fora dos trilhos, nesse momento um de seus bolsos de seu vestido, que era feito de um material muito resistente, enganchou-se nesse pedaço de madeira, fazendo com ela se desequilibrasse e caísse com as pernas sobre os trilhos.  Dona Maria Meireles viveu muitos anos e durante todo esse tempo nunca reclamou ou blasfemou por causa do acidente, continuou trabalhando como sempre fizera, sem nunca esquecer o drible que dera na morte.

Autor: Simon O. dos Santos – Jornalista Profissional, Mestre em Ciências da Linguagem e Membro da Academia Guajaramirense de Letras.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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