Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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NESTA TERRA DÁ PÃO E LEITE, DIZIA MEU PAI



Por Simon O. dos Santos

O barulho agudo e ensurdecedor das motosserras na guerra contras as imensas e indefesas árvores era o prenúncio de um agosto cinza e melancólico, entrecortado por intensas rajadas de vento morno e seco. Na época das queimadas, que ocorria geralmente até o final do mês, era um alvoroço e uma festa para a meninada que acompanhava de longe as imensas labaredas reduzindo a cinzas os ressequidos caules e galhos dos ipês, algodoeiros, embaúbas e centenárias castanheiras.

Os homens se preparavam desde o amanhecer, após o almoço, a batalha começaria e se entenderia durante toda à tarde.  À frente do  batalhão, meu pai atlético, ágil e  compenetrado seguia empunhando uma vara com retalhos de algodão  amarrados em sua ponta, embebidos em gasolina ou querosene. 

Seguiam às margens da derrubada em busca de um melhor posicionamento do vento, de maneira que ele soprasse em direção ao centro do cemitério de árvores. Meu pai era o primeiro a acender sua pira e levá-la triunfante ao encontro da folhagem seca e flamejante. Em segundos, a labareda levantava-se apoteótica, rodopiante, cravando os caninos na floresta inerte, adentrando-se ferozmente, enlaçada pelo vento assobiante, feito um incandescente magma vulcânico.

A partir deste momento, os demais homens feitos loucos endiabrados corriam com suas piras às costas, entorno da derrubada até completar o círculo de fogo que transformaria o local em um imenso carrossel vermelho que se avistava a centenas de metros.  Tudo seria consumido pelo fogo, as poucas árvores, geralmente, palheiras, que resistiram ao corte das motosserras, sucumbiam às línguas afiadas das labaredas ensandecidas e esfomeadas.

Os homens extenuados se afastavam e ficavam olhando o cenário ígneo que paulatinamente se metamorfoseava em uma imensa cortina de fumaça que enlaçava a todos, deixando o fim da tarde com a aparência de uma imensa cratera plúmbea e sufocante. Durante muitos dias, o mundo ficava submerso por esta cortina de fumaça a espera das primeiras chuvas que dissipava a cortina e nos tirava da letargia e da sensação que habitávamos um filme de terror.

No outro dia, após a queimada, a meninada corria ensandecida em direção ao deserto cinza e ainda flamejante, em busca dos restos dos animais mortos pelo fogo. Encontrávamos cadáveres semi-cozidos de pacas, tatus, catetos e até veados e algumas vezes, animais agonizando, ardendo em brasas à espera do tiro de misericórdia de um dos meninos. Não eram poucos os filhotes que encontrávamos, esturricados, indefesos, deixados pelos pais em fuga.

O cenário sem vida, cinza e esfumaçado com poucos caules enegrecidos que resistiram bravamente ao calor das chamas era a mais perfeita encarnação de um tempo em que achávamos tudo aquilo maravilhoso e encantador. Poucos dias depois, a cinza era substituída pelo verde vivaz dos legumes e das pastagens. Meu pai falava, “nesta terra dá pão e leite” e nobremente,  preparava o templo de onde seria retirado pelos próximos meses o nosso alimento, trabalhando de sol a sol, transformando densas florestas em produtivas  roças de milho, arroz, feijão, mandioca e posteriormente, em  pão e leite.

Autor: Simon O. dos Santos

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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