Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Minha filha não é mercadoria – CAPÍTULO II


Minha filha não é mercadoria – CAPÍTULO II - Gente de Opinião

Simon O. dos Santos

            Das Dores pressentiu o medo quando sentiu o olhar do Bode Velho fixo em seu colo adolescente. Foi naquela tarde quando desceu da Maria Fumaça e entrou com a família nas dependências de sua casa grande, muito parecida com a casa do coronel que expulsou sua família de suas terras em Quixeramobim, no Ceará, sem dinheiro, sem alimento e sem a cachorra baleia.

            Em pouco tempo, Raimundo Nonato fizera seu roçado onde já se colhiam macaxeira, jerimum, milho, arroz e feijão. Poucos meses depois a família colhia os primeiros cachos de banana e Raimundo Nonato já manejava os apetrechos da colheita do látex com desenvoltura, cumprindo com sua parte no trato feito com Augustinho Lopez.

            Todo fim de mês ele recebia em sua colocação os mantimentos, munição, remédios e alguma ferramenta se estivesse precisando. Raimundo não entendia por que nunca recebia um vintém, fruto do seu suor. Muito tempo depois, entendeu que isso era impossível e que sua dívida com o patrão era humanamente impagável.

            Os filhos não o ajudavam na coleta do látex, eram os responsáveis mais Das Dores, pelos trabalhos do roçado. Trabalhavam todos os dias e jamais souberam o que era um feriado, um sábado ou um domingo. Das Dores, ansiosa, acreditava que seu namorado já estava a caminho do seringal e suspirava relembrando o último beijo que lhe dera em Quixeramobim.

              A pobre infeliz viveria ainda muitos anos em um seringal no Acre sem nunca saber que no navio que seu noivo tomara em Manaus com destino a Porto Velho, em uma noite em que vários arigós embriagados se envolveram em uma confusão, Raimundo Antônio, também embriagado, teve suas vísceras expostas após levar várias peixeiradas de um paraibano que também tinha como destino o seringal de Augustino Lopez.

Durante todo esse tempo o Bode Velho esperou pelo casamento de Das Dores. Pensando que era invenção de seu pai, resolveu retornar à Mucuracá para saber a verdade dos fatos e trazer Das Dores à força para sua casa grande às margens da estrada de ferro.

No início da manhã do dia seguinte, Augustino partiu para Mucurucá acompanhado de uma dezena de capangas armados até os dentes. Para espanto de todos em Mucurucá, o grupo liderado por Augustino aportou no terreiro da casa antes do fim da tarde, Raimundo Nonato não entendeu o motivo da visita do patrão, pois tudo corria como fora combinado.

            Das Dores arregalou os olhos de patoá e cuspiu no chão enojada ao vê o Bode Velho entrando na residência sem cumprimentar e nem pedir licença ao seu pai. Foi direto ao local onde Das Dores estava e segurando firme em seus braços lhe falou     “vim lhe buscar, flor de gameleira”.                                                                                                                                 Raimundo Nonato que acompanhara o visitante casa adentro, ouviu perfeitamente a conversa do patrão e com a mão no cabo da peixeira e o sangue subindo-lhe à face pediu que o velho se afastasse, “ filha minha só sai de casa com a minha autorização”.

            O velho olhou para o rosto em fúria de Raimundo e não acreditou que aquele ser insignificante estive lhe dirigindo tamanho insulto. Com um simples olhar, o ambiente foi preenchido pelos capangas com as espingardas armadas apontadas em direção a nuca de Raimundo. A menina, mesmo prevendo uma desgraça manteve a calma necessária para dizer ao pai, “vou sim paim, em pouco tempo eu volto”, o pai respondeu-lhe com mais fúria ainda, “vai não, filha minha não é mercadoria” e avançou com a peixeira em direção ao Bode Velho,e do igarapé onde estavam sua esposa e os dois filhos se ouviu os estampidos das espingardas, deixando a casa coberta de fumaça, cheirando a pólvora e o corpo do pobre pai pregado feito pasta na parede de paixiuba do quarto de Das Dores.

            A mãe e as crianças deixaram o igarapé e correram assustados em direção a casa. No caminho, Firmiana ouvia em meio ao barulho dos homens o grito seco e lancinante de Das Dores e no peito teve a certeza que uma desgraça havia acontecido. Não foi possível saber o que aconteceu, ao chegar ao imenso terreiro que ela tanta vezes limpara pensando em seus pais em Quixeramobim, outra saraivada de chumbo lhe arrancou as vísceras,atingindo também as crianças  que morreram no mesmo dia em que o pai lhes fizera uma imensa bola de borracha, a mais bonita de todo o seringal de Augustino Lopez.

Em transe, Das Dores fora levada amarrada no lombo de uma mula para a casa grande. Neste estado permaneceu por várias semanas, o olhar fixo em direção ao nada e as mãos em riste como se segurasse algo. Augustino Lopez designou uma boliviana sua serviçal para cuidar de Das Dores que amofinava dia a dia. A boliviana lhe alimentava à força e o banho era no próprio quarto.

Aos poucos, Das Dores foise afastando do transe e o contato com a realidade doía-lhe como uma unha encravada.  Acena da morte do seu pai ainda era muito vívida em suas lembranças, da mãe e dos irmãos sua última lembrança foi quando os viu caminhando em direção ao igarapé, pois não os viu quando foram mortos pelos capangas, porque neste momento estava agarrada ao que restara do pai.

O Bode Velho percebeu as mudanças em Das Dores e seus instintos começaram a lhe dizer que estava chegando a hora de tocar aquele corpo virgem que durante várias noites o deixou insone e com fortes calafrios a percorrer-lhe as entranhas de pervertido. Mandou vir o vestido de noiva mais bonito que pudesse existir em Manaus, queria-lhe mais encantadora ainda e marcou a data do casamento.

            Mandou vir também um terno negro de tecido italiano e sapatos vulcabrás. O casório aconteceria no próximo dia quatro de outubro em homenagem a São Francisco de Assis, de quem era devoto fervoroso. Das Dores, em seu mutismo, não percebera o entra e sai de pessoas, comidas, utensílios e bebidas na casa grande, todos estavam envolvidos nos preparativos da festa. A pobre órfã também não sabia que todos estavam preparando o seu próprio casamento com o Bode Velho.

            Com a proximidade da festa, a boliviana entrou no quarto, onde Das Dores permanecia desde que fora arrancada à força de Mucuracá com uma grande caixa nas mãos e disse que ali estava o seu vestido de noiva. Das Dores ficou atônita olhando para o semblante calmo da velha e perguntou de quem era o casamento. A senhora com seu olhar terno de quem já viu de tudo na vida lhe disse novamente, agora vagarosamente: “nesta caixa trago um belo vestido de noiva que o meu patrão mandou vir de Manaus para que em poucos dias você se case com ele”. Das Dores ficou paralisada por longos minutos, os olhos esbugalhados e a boca aberta, não acreditando em nada do que ouvira, “ não pode ser verdade, a senhora está enganada, aquele Bode Velho matou toda a minha família e agora vai matar-me também”. Mercedita, esse era o bonito nome da boliviana e que Das Dores nunca soube, falou-lhe com lágrimas molhando-lhe a face: “ eu também me casei assim minha filha, eu era jovem e bonita como você e fui arrancada à força da casa dos meus pais em Riberalta, desde então não tive mais notícias deles, não tive filhos, não tenho parentes e meu único lazer é o trabalho interminável dessa casa entre gritos e acoites do meu patrão e seus capangas”.

            Das Dores disse que se o Bode Velho continuasse com essa idéia insana, na primeira oportunidade que tivesse ao sair do quartose jogaria na cachoeira do Ribeirão para virar comida de candiru e outros peixes. A velha,alcançando com o olhar cansado através da janela do quarto as águas turbulentas da cachoeira,  pensou que o melhor a fazer nessas situações tão corriqueiras, era resignadamente aceitar o chicote  abrindo-lhes as carnes, do mesmo modo que a pequena faca pontiaguda abre o caule da seringueira, deixando-a  sangrar na caneca  do desencanto e do desespero.

            No dia do casamento, chegou à casa grande pedindo trabalho, um paraibano que há poucas horas desembarcara na estação de Vila Murtinho e a pé chegara à propriedade de Augustino Lopez. Sem tempo para pensar noutra coisa o Bode Velho acenou para que o visitante fosse se arranjar no barracão que em poucos dias seria mandado para Mucurucá.

            Das Dores chegou meio catatônica, guiada por Mercedita ao local da festa. O Bode Velho mandara buscar o Juiz de Paz que residia na Colônia Agrícola do Iata para celebraro  seu casamento com a noiva mais bonita e mais triste que pudesse existir em toda a região. Durante a celebração, Das Dores olhando sempre o semblante do Juiz respondia sem titubear as perguntas comuns nestas ocasiões, nem quando o seu noivo procurou sua mão gelada e a apertou com sofreguidão mudou de atitude.

            Augustino Lopez não economizou na festança, convidados vindos de seringais da região do Rio Machado, Porto Velho, Guajará-Mirim, Riberalta, Guayaramerin e até do Acre se empanturraram, beberam e dançaram até raiar o dia. Não viram nem quandoo novo  casal se retirou da festa e seguiu para a casa grande onde os aguardava uma cama e colchão novos vindos também de Manaus.

            Próximo ao meio dia,eram poucos os convidados que ainda dançavam e  a maioria começava a  organizar a viagem de volta, aguardava apenas a  vinda do anfitrião para agradecer-lhe o banquete e novamente desejar-lhe uma casa cheia de filhos.      Qual foi o espanto de todos quando viram descer da casa grande em direção ao barracão Mercedita, trôpega, aos berros afirmando que seu patrão estava morto e que sua mulher fugira.

            Os convidados, em disparada, entraram pela casa grande adentro,indo diretamente ao quarto do casal para saber se a velha enlouquecera ou não. Para surpresa e espanto do grupo, Augustino Lopez estava desnudo sobre a cama com a garganta cortada e cravada em sua região escrotaluma peixeira que Das Dores havia trazido de Mucurucá  e com a qual crescera  vendo seu pai cortar palma para o gado em Quixeramobim.

            Das Dores entrou no quarto altaneiramente, diferente do tempo que ficara presa, retirou da cintura a peixeira e sorrateiramente a colocou embaixo da cama. O Bode Velho com as carnes ardendo em brasa e o batimento cardíaco na mesma velocidade das águas da cachoeira, deitou-se desnudo em sua cama cheirando a talco e ordenou que Das Dores fizesse o mesmo. Ela lentamente deitou-se ao seu lado e o cheiro de Bode Velho impregnou-se em suas narinas, teve ânsia de vômito ao ver bem de perto os dentes amarelados e bolas de pelos brancos saltando-lhe das orelhas e narinas.

            Nesse momento,Das Dores pensou em seus pais e irmãos esquecidos em Mucuracá, sem que o velho desconfiasse de nada, alcançou silenciosamente o cabo da peixeira comprimindo-o com força, trincou os dentes e com todos os demônios do mundo cravou a lâmina enferrujada em sua carótida, puxando-a  para cortar-lhe com  rapidez a garganta, levantou-se e ficou vendo o velho se debatendo soltando golfadas de sangue e os olhos fixos no teto do quarto.

            Antes de pular a janela e correr em direção oposta ao barracão, Das Dores retirou a faca da garganta do moribundo e cravou com toda a força que ainda lhe restava entre seus dois bagos pestilentos. Das Dores alcançou a ferrovia e correndo em direção à Vila Murtinho não percebeu um vulto que a seguia também em disparada, pensando que fosse um dos capangas de Augustino Lopez, Das Dores deixou-se alcançar e desejou que a morte a livrasse daquele pesadelo. A criatura que a seguira era o paraibano que havia chegado ao seringal do Augustino Lopez no dia do seu casamento e vira quando Das Dores pulara a janela do quarto e se embrenhou pelo matagal.

Fugiram para um seringal que fica a dois dias de viagem no rio Grã-Cruz em terras bolivianas, desta localidade chegaram ao rio Mamu sempre em direção aos seringais do Acre. Das Dores jamais imaginou que o paraibano agora seu marido, foi quem derramou as vísceras de seu noivo na noite em que os arigós se envolveram em uma briga generalizada na viagem de Manaus com destino a Porto Velho.

Autor: Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem e Membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

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