Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Gente de Opinião

Simon

Minha filha não é mercadoria – CAPÍTULO I


Minha filha não é mercadoria – CAPÍTULO I - Gente de Opinião

 Simon O. dos Santos*
 

Augustino Lopez era dono do seringal que começava às margens do Igarapé Misericórdia e se projetava um pouco além do Igarapé Ribeirão. Das margens do Rio Madeira, esse seringal avançava mais de quarenta quilômetros até nas proximidades onde hoje se localiza o distrito de Palmeira.

            Era o seringalista mais importante de toda a região, muito mais importante e temido que seu amigo Sebastião João Clímaco, também dono de um seringal muito maior e mais produtivo que o seu. Augustino Lopez possuía pouco mais de cem estradas de seringas e algumas tropas de mulas responsáveis pelo transporte de homens, borracha e mercadorias que eram despejadas nas colocações localizadas nos confins do seringal.

            Famílias inteiras vindas do Nordeste aportavam no Barracão do seringal, localizado um pouco acima da confluência do Rio Madeira com Igarapé Ribeirão nas proximidades da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Era imenso, um único vão, coberto com palhas buriti, onde eram guardados os mantimentos, armas, munições e eram acolhidos os que ali chegavam.  Augustino Lopez era um homem rude, de altura mediana, olhos de rapina, ostentava uma grande barba branca e um chapéu que escondia sua calvície bastante acentuada.

            No trato com seus serviçais era áspero, grotesco e não tolerava insubordinações, muitas vezes reprimidas com brutalidade,em alguns casos beirando  à insanidade. Seringalista e comerciante astuto, jamais foi enganado por um de seus empregados, muitos deles desapareceram nas águas da cachoeira do Ribeirão, tentando lhe ludibriar na pesagem das pélas de borracha.

            Augustino Lopez tinha um apetite sexual voraz, era homem de várias mulheres, de preferência cabrochas cheirando a leite. Adorava olhar as cabrochinhas          com a bacia de roupa na cabeça andando em direção ao Ribeirão. Preferia as que tinham as ancas volumosas, e nenhuma delas que chegou com os pais para trabalhar em seu seringal passou ilesa pelo seu faro de bode velho insaciável.

            Naquele fim de tarde de verão quando o sol ardia e fazia ferver as águas da cachoeira, aportou em seu barracão uma família vinda dos confins do Nordeste em busca de trabalho. O homem era ainda muito jovem, sua esposa era de aparência mais jovem ainda, com a pele e cabelos ressecados pelo calor árido da caatinga.

            Augustino Lopez não prestou atenção no casal que se aproximava de sua porta, boquiaberto e os olhos fixos, via somente a cabrocha que andava inocentemente, requebrando os quadrisatrás do casal. Com ela, mais duas crianças completavam o grupo. O homem disse ao seringalista que viera em busca de trabalho, era brabo, mas, em pouco tempo saberia manejar todos os apetrechos que faziam jorrar leite das árvores.

            O seringalista muito solícito, atitude rara para um homem acostumado a expulsar de sua porta,famílias inteiras que pediam trabalho, disse ao rapaz que desde o primeiro momento que o viu, já lhe era garantido trabalho, pois sua intuição de homem empreendedor lhe dizia que o seu perfil era adequado para a lida no seringal.

            A família foi acomodada em uma parte separada do barracão, onde ficariam alguns dias se ambientando às agruras da vida no seringal, onde vicejavam índios, malária e toda espécie de vicissitudes que acabavam por quebrantar o mais corajoso e ousado dos homens. Em duas semanas a família partiria para a Colocação Mucuracá, às margens do Ribeirão, distante vinte quilômetros do barracão do seringalista.

            Durante duas semanas Augustino Lopez teve insônia, quando conseguia adormecer, quase raiando o dia, sonhava com aquela cabrocha andando em sua direção com os seios intumescidos, desnuda, gingando como as águas da cachoeira. Acordava com uma ereção incomum para sua idade, essa cena se repetiu todas as noites que antecederam a partida da família para Mucuracá.

            A cabrocha tinha a aparência da inocência, mas percebia o olhar de furacão do seringalista pregado em seus seios e em suas ancas,quando passava. A menina quando veio da caatinga, deixou combinado um casamento com um primo que estava no quartel, o rapaz deixaria a farda em janeiro, e no mesmo dia se lançaria no primeiro navio que aportasse no porto mais próximo, e em poucos dias estaria correndo atrás de sua cabrocha nas estradas de seringa de Augustino Lopez.

            Aquele jovem apaixonado jamais imaginaria que sua noiva estava sendo cortejada pelo homem mais poderoso, voraz e sanguinolento da região. Nenhuma moça que se casara em suas terras teve a primeira noite de núpcias com o esposo, esse era um momento que o seringalista fazia questão de desfrutar, o casal querendo ou não.

 A noiva saia direto da festa, patrocinada por ele,e era levada pelos seus capangas  para o seu quarto, onde desnudo, Augustino Lopez a aguardava. Quem desobedecesse, era atirada nas águas da cachoeira, o marido tinha os bagos cortados com faca enferrujada para ter certeza que o cabra morreria de tétano.

Augustino Lopez não ficou gostando nenhum pouco quando o pai da moça foi lhe falar do arranjo da filha lá no Nordeste, pediu ao seringalista que desse serviço também para o moço que em poucos meses aportaria no seringal. O homem disfarçando sua raiva assegurou ao pai da cabrocha que o sujeito também seria bem vindo no seringal, onde  precisa-se sempre de muitos homens, de preferência jovens e aventureiros.

A família amanheceu pronta para partir, mulas e mercadorias arranjadas. Um mateiro foi designado para guiá-los atéMucuracá. No momento da partida, Augustino Lopez disse que também seguiria com o grupo e aproveitaria a ocasião para vistoriar as demais colocações e o trabalho dos seringueiros. Aquela atitude incomum deixou seus capangas boquiabertos, pois durante tantos anos lhes servindo, jamais tinham presenciado tamanha benevolência.

Era preciso caminhar durante mais de nove horas pelos varadouros que os levariam à colocação, se não houvesse nenhum contratempo, antes do final da tarde, estariam chegando à casa de paxiúba erguida às margens do Ribeirão. O mateiro guiava o grupo, a família caminhava logo atrás, apenas as duas crianças montavam uma das mulas, depois vinham as demais com as mercadorias, em seguida Augustino Lopezem sua montaria com arreios finos e dourados, no final, um bando de capangas de arma em punho vigiava a comitiva.

Como haviam previsto, chegaram ao local antes das seis horas da tarde, a esposa foi logo tratando de acender uma trempe que existia no lugar, para preparar arroz, feijão e charque, suficientes para todo o grupo. O marido e os capangas apearam as mulas e descarregaram os mantimentos no pequeno alpendre, também construído de paxiúba. Toda casa no seringal tinha aquele formato, era sempre de assoalho, alta, fortemente protegida contra ataques de índios e onças. Ficava sempre às margens de um igarapé e não existiam árvores nas proximidades, para que os moradorespudessem avistar quem se aproximasse.

A noite chegou com passos apressados e com ela todo tipo de assovios, trinados, gritos e barulhos próprios de uma noite na Amazônia, perto da casa um bando de guaribas entoava seus gritos gravesque podiam ser ouvidos a quilômetros de distância.

            As lamparinas exalando fuligem e um cheiro forte de querosene iluminaram o alpendre onde a esposa servia o jantar em pequenas panelas encardidas, emolduradas por uma crosta resinosa de sujeira.  Os capangas foram designados pelo seringalista para vigiar a casa de possíveis ataques de índios que certamente os olhavam curiosos, escondidos nas sacupembas ou atrás das grossas gameleiras.

            Era muito comum o seringalista receber notícias que um seringueiro seu fora atacado pelos índios, em alguns casos, famílias inteiras eram queimadas dentro das casas após sofrerem ataques brutais dos mura, o grupo mais feroz e violento que habitava a região. Nesses casos, Augustino Lopez designava uma comitiva com vários capangas, armas, munições e alimentos e durante dias atocaiava os mura que raramente voltavam ao local do massacre.

            Augustino Lopez era homem de negócios, toda vez que uma colocação era queimada pelos mura, o prejuízo era grande, teria que construir tudo novamente e preparar outro seringueiro para retomar a colheita do látex naquela localidade. As ordens suas eram para seus capangas matarem todos os que encontrassem em seu seringal e redondezas, muitas vezes famílias inteiras, crianças, idosos e mulheres eram dizimados e largados na floresta, a mercê dos bandos de queixadas, ratos e urubus.

            Naquela noite, Augustino Lopez armou sua rede no melhor e mais seguro cômodo da casa, a família que se arranjasse na outra parte, uma espécie de cozinha, sala e quarto. O pai armou uma rede para as crianças que dormiam sempre juntas e embaixo colocouum colchão improvisado feito de palha de coqueiro onde dormiram pai, mãe e filha.

            Augustino Lopez não conseguiu adormecer, era a primeira vez que dormia tão próximo daquela cabrocha cheirando a leite, tinha ganas de tomá-la à força e mandar os capangas darem cabo de toda sua família. Mas, esse quase insano desejo era controlado quando ele imaginava aquela menina vestida de noiva, saindo do altar da igreja e indo em direção ao seu quarto especialmente preparado para aquela ocasião.

            Acostumado ao barulho sinfônico e acolhedor da floresta, mais o cansaço da viagem fizeram com que o seringalista fosse se acalmando e o sono desse lugar aos seus calafrios. Acordou de manhã com o cheiro de café invadindo o ambiente, levantou-se e encontrou a família já envolvida com os afazeres domésticos. Do alpendre vislumbrou a cabrocha cheirando a leite caminhando em direção ao igarapé, com uma bacia na cabeça e o mesmo requebrar das águas da cachoeira.

            Disse que também iria ao igarapé lavar o rosto e se preparar para o retorno, pois ainda tinha que visitar outras colocações. Augustino Lopez foi se aproximando devagarzinho, sem que a cabrocha notasse sua presença, chegou bem próximo e viu a menina de cócoras, a saia semi levantada deixando à mostra suas coxas duras da cor de açaí maduro e apetitosas como um buriti. A menina, muito segura de si, não temeu a proximidade do seringalista, apenas levantou-se para dá passagem ao visitante que quase sem respirar, sentiu pela primeira vez o perfume e o ardor daquele corpo jovem que o inebriava a ponto de deixá-lo tonto e com as mãos suadas como se estivesse febril.

            Após tomar café e comer alguns beijus secos o seringalista e seus capangas retornaram para o barracão, antes, disse ao seringueiro que tomasse cuidado com os índios e que mandasse avisar caso precisasse de algum mantimento ou munição. A cabrocha não gostava do olhar do seringalista, sentia nojo daquela barba branca e daqueles olhos de rapina, sonhava todas as noites com seu noivo que não tardaria chegar e deus graças a deus que aquele ser asqueroso não demoraria a voltar para seu barracão.

            Augustino Lopez levava em seu íntimo a certeza que aquela cabrocha lhe pertencia, assim como tudo o que existia em seu seringal, árvores, mulas, estradas, capangas e empregados.  Aquela cabrocha não pertencia aos seus pais, era propriedade sua, e jamais deixaria que outro homem a possuísse, muito menos um morto de fome que não tardaria a chegar ao seringal já com seu destino traçado, o infeliz seria jogado nas águas da cachoeira no primeiro dia em que pusesse os pés em sua propriedade.

Naquela noite, a família dormiu tranquilamente, a ausência do Bode Velho na casa foi um alívio para todos. Ao amanhecer, Raimundo Nonato olhou para a imensidão da floresta com sua sinfonia de pássaros multicores e em seu íntimo pressentiu que nem ele, nem a esposa Firmiana e nem os filhos Raimundim, Nonatim e Das Dores, jamais deixariam aquele inferno verde vivos.

        O Bode Velho também pensava do mesmo modo, somente Das Dores é que constava em sua contabilidade de vivos, pelo menos até que outra cabrocha cheirando a leite aportasse em seu seringal. Nenhum dos dois se equivocou porque uma tragédia se encontrava a caminho seguida de outras. Em todos os seringais da Amazônia as tragédias compunham o mesmo cenário, os mesmos atores e os mesmos gestos de açoite, violência e medo.

CAPÍTULO II

            Das Dores pressentiu o medo quando sentiu o olhar do Bode Velho fixo em seu colo adolescente. Foi naquela tarde quando desceu da Maria Fumaça e entrou com a família nas dependências de sua casa grande, muito parecida com a casa do coronel que expulsou sua família de suas terras em Quixeramobim, no Ceará, sem dinheiro, sem alimento e sem a cachorra baleia.

            Em pouco tempo, Raimundo Nonato fizera seu roçado onde já se colhiam macaxeira, jerimum, milho, arroz e feijão. Poucos meses depois a família colhia os primeiros cachos de banana e Raimundo Nonato já manejava os apetrechos da colheita do látex com desenvoltura, cumprindo com sua parte no trato feito com Augustinho Lopez.

            Todo fim de mês ele recebia em sua colocação os mantimentos, munição, remédios e alguma ferramenta se estivesse precisando. Raimundo não entendia por que nunca recebia um vintém, fruto do seu suor. Muito tempo depois, entendeu que isso era impossível e que sua dívida com o patrão era humanamente impagável.

            Os filhos não o ajudavam na coleta do látex, eram os responsáveis mais Das Dores, pelos trabalhos do roçado. Trabalhavam todos os dias e jamais souberam o que era um feriado, um sábado ou um domingo. Das Dores, ansiosa, acreditava que seu namorado já estava a caminho do seringal e suspirava relembrando o último beijo que lhe dera em Quixeramobim.

              A pobre infeliz viveria ainda muitos anos em um seringal no Acre sem nunca saber que no navio que seu noivo tomara em Manaus com destino a Porto Velho, em uma noite em que vários arigós embriagados se envolveram em uma confusão, Raimundo Antônio, também embriagado, teve suas vísceras expostas após levar várias peixeiradas de um paraibano que também tinha como destino o seringal de Augustino Lopez.

Durante todo esse tempo o Bode Velho esperou pelo casamento de Das Dores. Pensando que era invenção de seu pai, resolveu retornar à Mucuracá para saber a verdade dos fatos e trazer Das Dores à força para sua casa grande às margens da estrada de ferro.

No início da manhã do dia seguinte, Augustino partiu para Mucurucá acompanhado de uma dezena de capangas armados até os dentes. Para espanto de todos em Mucurucá, o grupo liderado por Augustino aportou no terreiro da casa antes do fim da tarde, Raimundo Nonato não entendeu o motivo da visita do patrão, pois tudo corria como fora combinado.

            Das Dores arregalou os olhos de patoá e cuspiu no chão enojada ao vê o Bode Velho entrando na residência sem cumprimentar e nem pedir licença ao seu pai. Foi direto ao local onde Das Dores estava e segurando firme em seus braços lhe falou     “vim lhe buscar, flor de gameleira”.                                                                                                                                 Raimundo Nonato que acompanhara o visitante casa adentro, ouviu perfeitamente a conversa do patrão e com a mão no cabo da peixeira e o sangue subindo-lhe à face pediu que o velho se afastasse, “ filha minha só sai de casa com a minha autorização”.

            O velho olhou para o rosto em fúria de Raimundo e não acreditou que aquele ser insignificante estive lhe dirigindo tamanho insulto. Com um simples olhar, o ambiente foi preenchido pelos capangas com as espingardas armadas apontadas em direção a nuca de Raimundo. A menina, mesmo prevendo uma desgraça manteve a calma necessária para dizer ao pai, “vou sim paim, em pouco tempo eu volto”, o pai respondeu-lhe com mais fúria ainda, “vai não, filha minha não é mercadoria” e avançou com a peixeira em direção ao Bode Velho,e do igarapé onde estavam sua esposa e os dois filhos se ouviu os estampidos das espingardas, deixando a casa coberta de fumaça, cheirando a pólvora e o corpo do pobre pai pregado feito pasta na parede de paixiuba do quarto de Das Dores.

            A mãe e as crianças deixaram o igarapé e correram assustados em direção a casa. No caminho, Firmiana ouvia em meio ao barulho dos homens o grito seco e lancinante de Das Dores e no peito teve a certeza que uma desgraça havia acontecido. Não foi possível saber o que aconteceu, ao chegar ao imenso terreiro que ela tanta vezes limpara pensando em seus pais em Quixeramobim, outra saraivada de chumbo lhe arrancou as vísceras,atingindo também as crianças  que morreram no mesmo dia em que o pai lhes fizera uma imensa bola de borracha, a mais bonita de todo o seringal de Augustino Lopez.

Em transe, Das Dores fora levada amarrada no lombo de uma mula para a casa grande. Neste estado permaneceu por várias semanas, o olhar fixo em direção ao nada e as mãos em riste como se segurasse algo. Augustino Lopez designou uma boliviana sua serviçal para cuidar de Das Dores que amofinava dia a dia. A boliviana lhe alimentava à força e o banho era no próprio quarto.

Aos poucos, Das Dores foise afastando do transe e o contato com a realidade doía-lhe como uma unha encravada.  Acena da morte do seu pai ainda era muito vívida em suas lembranças, da mãe e dos irmãos sua última lembrança foi quando os viu caminhando em direção ao igarapé, pois não os viu quando foram mortos pelos capangas, porque neste momento estava agarrada ao que restara do pai.

O Bode Velho percebeu as mudanças em Das Dores e seus instintos começaram a lhe dizer que estava chegando a hora de tocar aquele corpo virgem que durante várias noites o deixou insone e com fortes calafrios a percorrer-lhe as entranhas de pervertido. Mandou vir o vestido de noiva mais bonito que pudesse existir em Manaus, queria-lhe mais encantadora ainda e marcou a data do casamento.

            Mandou vir também um terno negro de tecido italiano e sapatos vulcabrás. O casório aconteceria no próximo dia quatro de outubro em homenagem a São Francisco de Assis, de quem era devoto fervoroso. Das Dores, em seu mutismo, não percebera o entra e sai de pessoas, comidas, utensílios e bebidas na casa grande, todos estavam envolvidos nos preparativos da festa. A pobre órfã também não sabia que todos estavam preparando o seu próprio casamento com o Bode Velho.

            Com a proximidade da festa, a boliviana entrou no quarto, onde Das Dores permanecia desde que fora arrancada à força de Mucuracá com uma grande caixa nas mãos e disse que ali estava o seu vestido de noiva. Das Dores ficou atônita olhando para o semblante calmo da velha e perguntou de quem era o casamento. A senhora com seu olhar terno de quem já viu de tudo na vida lhe disse novamente, agora vagarosamente: “nesta caixa trago um belo vestido de noiva que o meu patrão mandou vir de Manaus para que em poucos dias você se case com ele”. Das Dores ficou paralisada por longos minutos, os olhos esbugalhados e a boca aberta, não acreditando em nada do que ouvira, “ não pode ser verdade, a senhora está enganada, aquele Bode Velho matou toda a minha família e agora vai matar-me também”. Mercedita, esse era o bonito nome da boliviana e que Das Dores nunca soube, falou-lhe com lágrimas molhando-lhe a face: “ eu também me casei assim minha filha, eu era jovem e bonita como você e fui arrancada à força da casa dos meus pais em Riberalta, desde então não tive mais notícias deles, não tive filhos, não tenho parentes e meu único lazer é o trabalho interminável dessa casa entre gritos e acoites do meu patrão e seus capangas”.

            Das Dores disse que se o Bode Velho continuasse com essa idéia insana, na primeira oportunidade que tivesse ao sair do quartose jogaria na cachoeira do Ribeirão para virar comida de candiru e outros peixes. A velha,alcançando com o olhar cansado através da janela do quarto as águas turbulentas da cachoeira,  pensou que o melhor a fazer nessas situações tão corriqueiras, era resignadamente aceitar o chicote  abrindo-lhes as carnes, do mesmo modo que a pequena faca pontiaguda abre o caule da seringueira, deixando-a  sangrar na caneca  do desencanto e do desespero.

            No dia do casamento, chegou à casa grande pedindo trabalho, um paraibano que há poucas horas desembarcara na estação de Vila Murtinho e a pé chegara à propriedade de Augustino Lopez. Sem tempo para pensar noutra coisa o Bode Velho acenou para que o visitante fosse se arranjar no barracão que em poucos dias seria mandado para Mucurucá.

            Das Dores chegou meio catatônica, guiada por Mercedita ao local da festa. O Bode Velho mandara buscar o Juiz de Paz que residia na Colônia Agrícola do Iata para celebraro  seu casamento com a noiva mais bonita e mais triste que pudesse existir em toda a região. Durante a celebração, Das Dores olhando sempre o semblante do Juiz respondia sem titubear as perguntas comuns nestas ocasiões, nem quando o seu noivo procurou sua mão gelada e a apertou com sofreguidão mudou de atitude.

            Augustino Lopez não economizou na festança, convidados vindos de seringais da região do Rio Machado, Porto Velho, Guajará-Mirim, Riberalta, Guayaramerin e até do Acre se empanturraram, beberam e dançaram até raiar o dia. Não viram nem quandoo novo  casal se retirou da festa e seguiu para a casa grande onde os aguardava uma cama e colchão novos vindos também de Manaus.

            Próximo ao meio dia,eram poucos os convidados que ainda dançavam e  a maioria começava a  organizar a viagem de volta, aguardava apenas a  vinda do anfitrião para agradecer-lhe o banquete e novamente desejar-lhe uma casa cheia de filhos.      Qual foi o espanto de todos quando viram descer da casa grande em direção ao barracão Mercedita, trôpega, aos berros afirmando que seu patrão estava morto e que sua mulher fugira.

            Os convidados, em disparada, entraram pela casa grande adentro,indo diretamente ao quarto do casal para saber se a velha enlouquecera ou não. Para surpresa e espanto do grupo, Augustino Lopez estava desnudo sobre a cama com a garganta cortada e cravada em sua região escrotaluma peixeira que Das Dores havia trazido de Mucurucá  e com a qual crescera  vendo seu pai cortar palma para o gado em Quixeramobim.

            Das Dores entrou no quarto altaneiramente, diferente do tempo que ficara presa, retirou da cintura a peixeira e sorrateiramente a colocou embaixo da cama. O Bode Velho com as carnes ardendo em brasa e o batimento cardíaco na mesma velocidade das águas da cachoeira, deitou-se desnudo em sua cama cheirando a talco e ordenou que Das Dores fizesse o mesmo. Ela lentamente deitou-se ao seu lado e o cheiro de Bode Velho impregnou-se em suas narinas, teve ânsia de vômito ao ver bem de perto os dentes amarelados e bolas de pelos brancos saltando-lhe das orelhas e narinas.

            Nesse momento,Das Dores pensou em seus pais e irmãos esquecidos em Mucuracá, sem que o velho desconfiasse de nada, alcançou silenciosamente o cabo da peixeira comprimindo-o com força, trincou os dentes e com todos os demônios do mundo cravou a lâmina enferrujada em sua carótida, puxando-a  para cortar-lhe com  rapidez a garganta, levantou-se e ficou vendo o velho se debatendo soltando golfadas de sangue e os olhos fixos no teto do quarto.

            Antes de pular a janela e correr em direção oposta ao barracão, Das Dores retirou a faca da garganta do moribundo e cravou com toda a força que ainda lhe restava entre seus dois bagos pestilentos. Das Dores alcançou a ferrovia e correndo em direção à Vila Murtinho não percebeu um vulto que a seguia também em disparada, pensando que fosse um dos capangas de Augustino Lopez, Das Dores deixou-se alcançar e desejou que a morte a livrasse daquele pesadelo. A criatura que a seguira era o paraibano que havia chegado ao seringal do Augustino Lopez no dia do seu casamento e vira quando Das Dores pulara a janela do quarto e se embrenhou pelo matagal.

Fugiram para um seringal que fica a dois dias de viagem no rio Grã-Cruz em terras bolivianas, desta localidade chegaram ao rio Mamu sempre em direção aos seringais do Acre. Das Dores jamais imaginou que o paraibano agora seu marido, foi quem derramou as vísceras de seu noivo na noite em que os arigós se envolveram em uma briga generalizada na viagem de Manaus com destino a Porto Velho.

Autor: Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem e Membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

Emails- [email protected]e [email protected]

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