Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Gente de Opinião

Simon

Meu filho nas estradas do seringal


No inverno rigoroso dos meses de outubro a abril, os seringueiros poucas vezes viam a luz do sol. Nesses meses, todo seringueiro vivia quase submerso na floresta, colher castanha e cortar seringa eram atividades extremamente difíceis porque as torneiras do céu vomitavam quantidades imensas de água que caíam sobre as castanheiras e seringueiras deixando-as encharcadas, serenas e preguiçosas.

Na Colocação Cruzo que ficava a uns vinte quilômetros de Vila Murtinho. Antônio, a esposa Sevira e um filho ainda pequeno construíram às margens do Igarapé Misericórdia uma casa de paxiúba, assoalhada e coberta de palha ainda verde.

Todo aquele seringal pertencia ao Sebastião João Clímaco, um nordestino que migrou com o pai e irmãos para Vila Murtinho e conseguiu junto ao INCRA demarcar uma área de terra de doze quilômetros de frente, começando no Igarapé Lajes indo até o Igarapé Misericórdia, e se estendendo das margens do Rio Madeira em direção PIC Sidney Girão.

Dentro dessa área estavam localizadas mais de vinte colocações, todas produzindo borracha e castanha que eram transportadas em lombos de cavalos, mulas e burros para o depósito do seringalista em Vila Murtinho, de onde seguiam para Porto Velho com destino ao porto de Manaus ou Belém e de lá embarcavam em navios para os Estados Unidos.

Naqueles dias sempre chuvosos, Antônio trouxera de Vila Murtinho um companheiro conhecido por Severino Mãozinha para ajudá-lo nos serviços do seringal. Numa manhã do mês de janeiro, os dois depois de tomarem café e comerem charque com farinha d’água, seguiram para a coleta de castanha. O castanhal não era distante da casa, coisa de uma hora de caminhada.

Sevira ficou em casa com o filho. Após preparar o feijão e colocá-lo no fogo, chamou o filho para irem até a roça que ficava bem próxima da residência para cortarem umas palhas, pois precisava fazer um quarador de roupa, próximo ao igarapé.

Pegou o facão e seguindo à frente do menino cruzou a roça de milho, que entre suas fileiras brotavam pés de feijão com folhas verdes e perfuradas como se fossem uma renda. No aceiro da roça, localizou uma palheira com folhas novas e viçosas. Disse ao filho: “fique aí que eu vou cortar essas palhas”. A criança sentou-se em um toco e ficou mirando ao longe uma revoada de periquitos, maritacas e papagaios que se espantaram com a presença de ambos.

Sevira, ao aproximar-se da palheira, pegou na ponta de uma palha e puxou-a para baixo a fim de deixar livre o seu caule para facilitar o corte. Ao fazer esse movimento, Dona Sevira por uns segundos ficou imóvel, a respiração aumentou e seus olhos pareciam sair de sua face, ao perceber dois índios há poucos metros da palheira com as flechas nos arcos apontadas em sua direção.

Ela num gesto de proteção maternal gritou para o filho: “corre! corre! os cabocos estão aqui!” O menino já acostumado com estórias de ataques de índios, levantou-se e correu em direção a casa. Sevira, sempre olhando para os índios, foi se afastando de costas até uma distância que calculou ser possível fugir.

A mulher então, também empreendeu fuga em direção ao lar, corria em ziguezague para dificultar as flechadas que passavam zumbindo ao seu lado. Os índios flechavam sem parar, mas, não conseguiam acertar o alvo. Nisso, um dos índios teve uma ideia, ficou de joelhos no chão posicionou o arco de forma bem firme e desferiu o tiro que acertou bem na região da coxa esquerda de Sevira.

Ao cair no solo, num gesto de quase desespero, ela tentou arrancar a flecha de seu corpo. Não conseguindo, quebrou a flecha bem próxima da coxa, levantou-se e conseguiu alcançar a escada de sua casa, pulou para dentro, fechou as janelas e portas e percebendo que o filho já estava em casa, de posse de uma espingarda, começou a atirar nos índios que agora eram uns trinta e se espalhavam pelo terreiro.

Sevira conseguiu acertar dois índios, e o grupo vendo que era impossível penetrar na residência, embrenharam-se pela mata e fugiram do local. Nesse momento, Antônio e Severino Mãozinha escutaram os disparos e imediatamente tomaram o caminho de volta para casa, pois sabiam que os cabocos tinham atacado sua família.

Ao aproximar-se da casa, Antônio avistou que a esposa vinha manquejando ao seu encontro, ao se aproximar do marido ela desmaiou e caiu.Antônio, diante da gravidade dos ferimentos da esposa, despachou imediatamente Severino para Vila Murtinho, a fim de avisar ao patrão que os cabocos tinham atacado a colocação.

Ao saber da notícia, Sebastião Clímaco mandou um grupo de mateiros com uma mula selada, para transportar Sevira que apresentava um quadro grave de sangramento, dores e vertigens.

No fim da tarde do mesmo dia, o grupo de mateiros,Antonio, o filho, Severino e a esposa semimorta entraram em Vila Murtinho. O único enfermeiro do lugar, um velho conhecido por Raimundo, prestou-lhe os primeiros socorros, aplicou-lhe de imediato uma dose cavalar de terramicina e disse que a paciente deveria ser transportada urgentemente para o Hospital Regional de Guajará-Mirim.

No primeiro trem da manhã seguinte a paciente, o filho e o esposo foram para Guajará-Mirim, onde permaneceu internada por vários dias. Durante esse período, Antônio meio impaciente disse à mulher: “ Sevira, preciso ganhar dinheiro, seu tratamento vai ficar muito caro e andei pensando em voltar para a colocação para colher castanha e cortar seringa ”.

A mulher meio sem querer, concordou com o marido: “tudo bem! Vá, mas não demore muito, daqui mais uns dias estarei melhor e você precisa vir me buscar”. Antônio beijou a testa da esposa, que permanecia deitada, abraçou o filho e disse: “vou fazer um carrinho de miolo de buriti pra quando você chegar na colocação, vai ser o maior e o mais bonito que farei”, o filho sorriu e beijou o pai, naquela noite sonhou dirigindo um carro imenso pelas as estradas do seringal.

Aquela foi a última vez que Sevira e o filho viram Antônio. Ele retornou sozinho para a colocação e nunca mais se teve notícias dele. Algumas semanas depois seus amigos foram procurá-lo e encontraram somente os escombros da casa, certamente fora queimada pelos cabocos.

No tronco de um buriti, Severino Mãozinha encontrou um carrinho feito do miolo da árvore, estava pintado com urucum, e sem dúvida, era o maior e o mais bonito que Antônio fizera em toda a sua vida.

 

Fonte: Simon Oliveira dos Santos, 43 anos, natural de Nova Mamoré. Formado em Pedagogia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pós graduado em Metodologia do Ensino Superior; Mestrado em Ciências da Linguagem, também pela UNIR. Jornalista profissional, escritor, pesquisador e membro da Academia Guajaramirense de Letras –AGL.
Emails: [email protected] e [email protected]

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