Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Gente de Opinião

Simon

Meu curumim não se esqueceu de mim



Lauro foi um índio capturado ainda criança nas proximidades de Vila Murtinho. Na época, toda a sua tribo adquiriu o hábito de se aproximar da Estrada de Ferro Madeira Mamoré ao escutar o menor ruído que indicasse a aproximação do trem. Em centenas de anos, pescando e caçando pelas matas nas proximidades da nascente do Rio Madeira, vê o trem passar cuspindo fumaça e carregando consigo todo o barulho do mundo era um sinal visível de que os deuses da floresta deveriam estar loucos.

No dia em que fora capturado pelos mateiros do seringalista Augusto Lopes, Lauro deveria ter seus seis anos de idade. A cena na qual viu seus pais sendo alvejados pelas espingardas dos mateiros ficou presa em sua memória. Naquele dia, todo o seu mundo colorido pelas tintas do urucum e do jenipapo tornou-se preto e branco, e não entendia por que aquelas estranhas cuspideiras de fogo amedrontavam tanto os seus sonhos.

De repente, o mundo ficou grande demais. Ao longe, ouvia apenas o canto melancólico do inhambu, e a tristeza fora tanta que não tivera forças nem para tentar fugir, assim como fizera os outros que escaparam do ataque. Deixou-se amarrar, não esboçou o menor sinal de resistência. Os homens com medo de que Lauro tentasse mordê-los, não se aproximavam muito.

O grupo, após verificar que todos estavam mortos, seguiu viagem de volta para Vila Murtinho. Lauro era o último da fila, a corda fina apertava suas pequeninas mãos de criança e pouco a pouco ele foi se afastando e se despindo daquele mundo encantado das noites de lua cheia, do peito materno, das brincadeiras dos curumins às margens do igarapé misericórdia, onde construía imensas ocas de areia e pedras.

Depois desse dia, Lauro nunca mais brincou, ficou para sempre em sua memória o olhar nítido de sua mãe caída às margens dos trilhos, e não entendia por que ela dormia daquele jeito e não o acompanhou quando os mateiros o levaram embora. A partir deste dia, Lauro foi morar em Vila Murtinho na casa do Neném Clímaco. Foi desse olhar derradeiro que Lauro se lembrou, quando anos depois, teve que carregar no colo seu filho, também com mais ou menos seis anos de idade, morto por uma flechada na colocação Dois de Ouro, enquanto ele cortava seringa há poucos metros do local.
Era o inverno mais longo e chuvoso que naquele distante ano de 1959, a população de Vila Murtinho jamais vira. A chuva durou várias semanas seguidas, alterando a rotina de todos no vilarejo. As beatas, como de costume, foram as primeiras a anunciar o fim do mundo, as portas do segundo dilúvio foram abertas e possivelmente todos seriam tragados pelas imensas corredeiras do Rio Madeira que se avolumavam inundando várzeas, planícies e a parte mais baixa do povoado.

Manoel Almeida do Nascimento, um dos mais antigos moradores do lugar, acostumado com os humores da natureza, achava todo aquele aguaceiro normal. No fim do dia, quando mascou sua última bola de fumo de corda, meteu suas sete léguas e rumou para o comércio do Neném Clímaco, “o mundo pode se acabar, desde que não acabe o fumo”, foi dizendo ao proprietário da quitanda, ao chegar à porta e pedir um rolo de fumo, uma rapadura, farinha e carne seca.

Neném Clímaco, após atender o amigo, falou que os índios tinham atacado a colocação Dois de Ouro, e queria que o velho mateiro liderasse uma diligência ao local. Manoel disse que não estava bem de saúde e que com tanta chuva, até seus ossos estavam molhados e enrijecidos pelo reumatismo.

Ao chegar em casa, Manoel chamou seu filho Cleto e falou-lhe da proposta de Neném Clímaco. Cleto era muito jovem, mas, profundo conhecedor das estradas de seringa do local e aceitou liderar a diligência até a Colocação atacada. O grupo formado pelo índio Coroca, Barbosa e o mateiro Miguelzim saiu ao amanhecer do outro dia em direção ao local. A chuva não dava trégua, Cleto e a sua trupe partiram através de um varador que começava atrás do cemitério.

Ao aproximar-se da colocação Dois de Ouro, o grupo, atento aos índios, já que era comum estes permanecerem próximos quando atacavam uma colocação, encontrou Lauro puxando uma mula com uma criança sentada no lombo do animal e outra enrolada em um pano de paxiúba, amarrada na lateral da cangalha. Ele estava indo para o cemitério com a criança morta por uma flechada enquanto brincava às margens do Misericórdia.

Lauro não lamentava e nem maldizia a morte do filho, aprendera a tragar a dor desde o dia em que vira seus pais serem mortos pelas cuspideiras de fogo. Seu semblante, molhado pela chuva, aparentava certo distanciamento do mundo. Esse alheamento lhe ensinou a suportar a ausência das tardes em que via sua mãe preparando o leite de castanha, sentada em uma pedra, com um ralo feito de paxiúba, onde o mundo era um imenso castanhal.

Lauro saíra bem cedo para cortar seringa, deixou os dois filhos e a esposa ainda dormindo. Nesses dias chuvosos, o trabalho era dobrado, era preciso aproveitar as poucas horas que a chuva dava trégua. Levou consigo todos os apetrechos que precisava e a espingarda com várias munições, mesmo sendo índio, manter-se atento ao ataque dos cabocos era necessário.

Mesmo chovendo, os filhos de Lauro foram tomar banho no igarapé onde a mãe deles lavava roupa. Pulavam na água e se deixavam arrastar pela correnteza uns trinta metros abaixo onde havia uma árvore caída atravessando o riacho, subiam na árvore, saíam para a margem direita e retornavam ao local inicial para recomeçar a brincadeira.

Ficaram várias horas se arrastando na correnteza, os lábios arroxeados de tanto frio não os impedia de ficar na água gelada do igarapé. O filho mais velho, uns dez anos de idade, pulou primeiro, se arrastou até a árvore correu pela margem do igarapé, mas não viu que do outro lado do rio, um grupo de índios estava atrepado em uma ingazeira olhando a cena.

Ao correr pela margem do rio, uma flecha acertou-lhe o braço esquerdo quase na altura do ombro, correu gritando em direção à casa que ficava a uns quarenta metros do local do banho. O filho mais novo não vira o acontecido, pois já deslizava nas águas do igarapé e ao subir na árvore uma flechada mortal acertou-lhe as costas, caindo novamente na água.

A mãe da criança, ao ver o filho mais velho ensanguentado entrando pela porta adentro, já imaginou o que teria acontecido, passou a mão na espingarda colocou uns dez cartuchos no bolso e saiu para o local onde os filhos tomavam banho. Os índios já haviam ido embora e a mulher, ao longe, vislumbrou o corpo do filho jorrando sangue e misturando-se à água barrenta do igarapé.

O grito fora tão alto, que Lauro, que estava um pouco distante do local, escutou e correu ao encontro da esposa. Ao chegar no local, a mulher já segurava o filho sem vida às margens do igarapé. Lauro, num misto de raiva e dor, ainda procurou nas redondezas algum sinal de índio. Naquele momento, mataria todos os índios do mundo, mas restou apenas preparar o funeral do filho.

Ao encontrar Cleto e sua comitiva, Lauro disse que não voltaria nunca mais àquela colocação e marchou rumo ao cemitério de Vila Murtinho. Após enterrar o filho, levou a esposa e o filho mais velho à residência do Neném Clímaco. A chuva ainda continuava, embora bem mais fina, o índio seguiu pela estrada de ferro em direção à cachoeira Madeira, não olhava para frente, caminhava com a cabeça baixa olhando para os pés sujos calçados por um par de botas de borracha que ele mesmo aprendera a fazer ainda criança.

Ao chegar à cachoeira que roncava feito mil onças paridas, Lauro sentou-se na única pedra que a água não havia engolido e olhando para a força da correnteza viu o semblante de sua mãe, do pai e do filho e imaginou que aquelas águas eram um imenso seringal, deixou-se cair afundando abruptamente, ouvindo o riso doce de seu curumim e sentindo a mão terna de sua mãe.

Autor: Simon O. dos Santos, mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL vEmails – [email protected] e portalmamore.com.br
 

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