Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Simon

Meu coração ficou com o último apito do trem


Meu coração ficou com o último apito do trem - Gente de Opinião 

Simon O. dos Santos
 

Quando me amancebei, há muitos anos, ainda morava no Ceará, meu esposo não foi bem aceito pelos meus pais, e eles não estavam enganados, logo na primeira semana tive uma pequena mostra de que meu marido seria uma eterna dor de cabeça na minha vida.

Fui morar com a família dele, em um povoado muito parecido com o local onde nasci. Minha intuição me disse também que eu não era bem-vinda, mas, muito nova e envergonhada, resolvi calar fundo essa impressão. Dias depois quase ao anoitecer vi meu marido caminhando em direção a nossa casa com a camisa aberta ao peito, sem o chapéu e aparentemente sujo, fiquei ligeiramente desconfiada, pois aquela criatura nunca saia ou chegava sem estar bem alinhada. Chegou cabisbaixo, sentou-se no banquinho no alpendre da casa, não me olhou, mas, foi logo relatando o acontecido, lançando-me à queima-roupa que tinha outra esposa e filhos.

Fiquei atônita, sem chão, não podia acreditar que aquele homem com quem fugira da casa dos meus pais, era casado e tinha obrigações de pai. Olhou-me e disse: larguei tudo por você, quero ir embora para a Amazônia e levar você comigo. Não sabendo o que responder, fiquei pensando naquela mulher abandonada, chorando toda a revolta do mundo e nas crianças que cresceriam à beira-mar sonhando todos os dias com a volta do pai, fincado nos grotões da Amazônia, na fronteira com Bolívia às margens da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Partimos na outra semana em um navio com destino a Manaus, no convés, gostava de ficar olhando o pôr-do-sol, lembrando de minha infância, dos meus pais e irmãos que voltaria a vê-los trinta anos depois. Mas meu amor por aquele homem era maior que todas essas lembranças. Apaixonada e deslumbrada por suas palavras envolventes e sedutoras, seus olhos azuis e sua força de maré, jamais pude imaginar que anos depois, às margens da estrada de ferro, grávida e com três filhas pequenas, eu seria abandonada tal qual sua primeira esposa.

A Amazônia era o sonho de riqueza que alimentava todo nordestino, meu marido disse que muitos amigos seus já estavam ricos. É sempre assim, todo homem sonha com seu pote de ouro, e parece que ele nunca está onde nascemos, “tal qual um Cristo viajante” é preciso navegar para se descobrir que o “eldorado” nunca existiu.

Após dias em alto mar aportamos, em Manaus, o comandante do navio disse que permaneceria no cais durante dois dias esperando que todos tomassem outras embarcações, agora menores, com destino a Porto Velho ou a qualquer outro fim de mundo infestado de seringueiras, índios e onças-pintadas. Nosso destino era Guajará-Mirim, tínhamos notícias que nessa cidade ficava o maior centro produtor de farinha da Região Norte, grandes áreas de seringais a perder de vista e um imenso castanhal habitado por índios, onças e muriçocas.

Estávamos deslumbrados, a Amazônia parecia um grande carrossel verde, da janela da Maria Fumaça que tomamos em Porto Velho com destino ao IATA, fiquei observando o Rio Madeira, parece que nesse trecho suas águas eram mais agitadas, grandes corredeiras enfeitavam seu leito barrento e imaginei que o rio seria uma grande seringueira a derramar ininterruptamente seu leite pastoso nas águas do Amazonas.

Após quase um dia de viagem, aportamos na Colônia Agrícola do IATA, estava anoitecendo e meu marido, imediatamente, encontrou um local onde passamos a noite. No dia posterior, bem cedinho, saímos em busca de trabalho, meu marido não queria seguir para o seringal assim tão rápido, era “brabo”. Neste caso, o mais sensato era primeiramente, conhecer a região, as pessoas, para depois decidir o que fazer.

Nossas economias davam para comprar uma pequena área de terra às margens da ferrovia, e assim fizemos, adquirimos nas proximidades da Cachoeira do Pau Grande, um pequeno lote onde construímos um pequeno barraco feito de paxiúba e coberto de palha de babaçu. Neste local pari minhas primeiras filhas, meu marido trabalhava no seringal do Augusto Lopes, nas proximidades do Igarapé Misericórdia, e eu em casa cuidando das crianças e dos afazeres domésticos.

Todo fim de tarde das sextas-feiras eu e minhas filhas ficávamos aguardando meu marido chegar do seringal, era uma imensa alegria que invadia a casa e se espraiava pelo quintal afora. Ele nunca falou alto comigo, nunca me disse um palavrão, era carinhoso e amável com as crianças, até com os animais domésticos era atencioso. Nessa sexta-feira, ele chegou ainda cheirando ao látex da seringueira, mais falante do que de costume, me disse que queria ir a Guajará-Mirim no outro dia bem cedo, era preciso comprar o rancho e algumas peças de roupas para as meninas.

Pediu-me para prender dez galinhas que seriam levadas para ser vendidas no mercado municipal. Ajudou-me a prendê-las, colocamos todas num cesto de palha, depois foi tomar banho enquanto eu preparava o jantar. À luz da lamparina olhei apaixonadamente pela última vez para seus olhos azuis, fiquei observando ele comendo enquanto nossas filhas já dormiam no quarto ao lado. Depois do jantar fomos dormir e aquela foi também a última noite em que suspirei em seus braços ao som das águas barulhentas da cachoeira iluminada pela lua cheia da Amazônia.

No outro dia bem cedo, ele tomou o trem que seguia para Guajará-Mirim e fiquei aguardando seu retorno para o fim da tarde com o rancho e as roupinhas das crianças. Findou o dia e ele não retornou, não me incomodei porque às vezes isso acontecia. No sábado, fiquei aguardando seu retorno que deveria acontecer após o meio dia, horário que o trem seguiria para Porto Velho.

Mais ou menos às dez horas da manhã recebi a visita de um amigo nosso que estava em Guajará-Mirim e havia encontrado o meu marido no mercado municipal. Ele chegou todo misterioso, brincando com as meninas e perguntando pelo o almoço. Falei que demoraria um pouco ainda. Ele então me chamou para o quintal da casa, um pouco afastado das meninas e me disse que tinha algo muito importante a me dizer, mas, que só contaria após o almoço. Fiquei um pouco aperreada e lhe disse que me contasse logo.
Ele então olhou firme em meus olhos e sem meio termo lançou-me à cara a notícia que uma mulher casada jamais espera ouvir. Meu marido tinha ido para a cidade de Guayaramerin na Bolívia casar com uma jovem que ele conhecera em Vila Murtinho. As galinhas não eram para comprar o nosso rancho e os presentes das meninas, estavam preparadas, esperando os convidados na casa dos pais da jovem em Vila Murtinho para a comemoração das bodas do casal que aconteceria naquela tarde de sábado.

Naquele momento, lembrei da dor daquela mulher abandonada com seus filhos que meu marido deixou no Ceará quando me convidou para fugir para a Amazônia. Meu mundo de encanto, sonhos e alegrias foi sumindo dentro de mim e lancei às minhas filhas pequenas que brincavam na biqueira da casa um olhar de desespero que elas jamais seriam capazes de entender.

Meu amigo me disse que ele estava vindo de trem com a esposa para Vila Murtinho e que se eu quisesse vê-los era só ficar às margens da ferrovia, pois o trem já se aproximava. Nossa casa ficava próxima à ferrovia, era tão próxima que quando o trem passava tínhamos a sensação que a casa seguiria junto. Imediatamente, corri com minhas filhas para a ferrovia. Aquela estória era a mais absurda que ouvira em toda a minha vida, não pode ser, erámos tão felizes, aquele homem amável, educado e atencioso com as filhas não seria capaz de tamanho disparate. Meu amigo estava louco ou brincando com coisa séria demais.

Ao longe já ouvíamos o barulho sacolejante da locomotiva, eu e minhas filhas ficamos a margem da ferrovia à espera que toda aquela estória não passasse de um terrível engano. Mas, o destino foi cruel também comigo, sentado em uma poltrona chique da locomotiva, dessas imponentes, ocupadas somente por pessoas importantes ou em datas especiais, vislumbrei meu marido vestido com um terno branco e um sapato da mesma cor, um lenço azul no bolso e o cabelo penteado exalando brilhantina, ao seu lado vi aquela moça linda, vestida de branco, com um lenço azul na cabeça e um sorriso de quem encontrou todos os prazeres do mundo. Aquele sorriso foi o mesmo que enfeitou o meu rosto quando deixei a casa dos meus pais e fugi na madrugada fria pelas dunas, amparada pelos braços daquele homem elegante que me seduzira.

O trem passou bem devagar, parece que o maquinista adivinhara a cena. Fiquei em pé bem próxima da ferrovia e meu marido passou olhando para mim com o mesmo olhar de sempre, seu rosto permanecia o mesmo, o mesmo encanto, a mesma doçura. O seu rosto nunca manifestava o temporal que habitava no seu íntimo de homem que nascera para conquistar as mulheres, e deixá-las abandonadas sem o menor remorso ou coisa parecida.

Ele ainda acenou para mim e, demoradamente, acenou para as filhas que muito pequenas e sem entender o que acontecia, também acenaram de volta, achando aquele homem o pai mais bonito do mundo. Fiquei petrificada, o trem se afastando e eu parada, imóvel, as lágrimas não saíram uma única vez, mas, meu coração sangrou, como sangraria o coração daquela jovem apaixonada que poucos anos depois chorou a partida do marido para um seringal na região do Acre, enrabichado por uma boliviana que ele conhecera em Vila Murtinho, e que apaixonou-se perdidamente por aquele homem que amava as suas mulheres, mas, não resistia a um rabo de saia.

Autor: Simon O. dos Santos – Jornalista profissional, Mestre em Ciências da Linguagem, membro da academia Guajaramirense de Letras – AGL e Editor Chefe do site www.portalmamore.com.br
Emails – [email protected] e [email protected]


 

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