Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Gente de Opinião

Simon

AS CORREDEIRAS DO MADEIRA ENGOLIRAM O MEU CORAÇÃO


A família Santiago era numerosa, pai, mãe e dez filhos, todos ainda muito pequenos, o filho mais velho era um rapazote de apenas dezesseis anos incompletos. Moravam no interior de Minas Gerais, lá pra bandas de Pirapora, numa região árida, muito parecida com o agreste nordestino. Criavam cabras e poucas vacas, todas magras, assim como os seis cachorros e as crianças.

Zefa Santiago e João de Deus casaram-se bem jovens, Zefa tinha treze anos e João completaria dezesseis no mesmo dia do casamento. O casal foi morar em uma tapera no mesmo lote do pai de Zefa, lá tiveram os seis primeiros filhos, o restante nasceu nas andanças da família a procura de trabalho e lugar para viver.

Era uma família de andarilhos, as crianças já habituadas a amanhecer numa casa e anoitecer noutra, achavam aquelas idas e vindas um eterno passeio. Os pais, desassossegados, sonhavam com uma casa grande, confortável, que pudesse alojar todos os filhos, mas era um sonho impossível, o que ganhavam na lida diária mal dava para a comida.  Os únicos alimentos que não faltavam era o leite minguado que as cabras ou as vacas produziam e farinha, que misturados formavam um pirão que empanturrava as crianças todas as manhãs, raramente, tinha carne seca para completar o cardápio matutino.

Zefa se desdobrava nos afazeres domésticos para que os filhos tivessem o mínimo de alimento, já que conforto era mercadoria rara naquele fim de mundo. Todo esse esforço diário foi lhe quebrantando as forças, Zefa foi definhando a olhos vistos, o marido, e até mesmo os filhos, já notavam a sua feição quase cadavérica e uma tosse que lhe consumia horas de sono nas noites friorentas das gerais.

Nesse período de agonia e morte lenta, a pobre mulher engoliu litros e mais litros de chás e beberagens que toda criatura da redondeza que ficava sabendo de seu mal, mandava-lhe com o intuito de amainar seu sofrimento. Em vão, Zefa não resistiu, em uma noite de chuva lenta, a uma crise fulminante de tosse seca que quase lhe arrancou as pupilas. As crianças, todas em volta daquela mãe tísica, viram quando o último suspiro fugiu-lhe à face. Os menores achavam que a mãe finalmente caíra em sono profundo, os mais velhos, vendo o desespero instalados em seus olhos, pressentiram o fim e se agarravam ao pai, como um náufrago arraga-se desesperadamente  à tábua de salvação em meio ao ermo oceano.

João de Deus enterrou a esposa no fundo da casa, depois que poucos familiares e vizinhos compareceram para um funeral em que quase não era possível chorar, porque as lágrimas também eram secas, assim como quase tudo o que havia no lugar. A pobreza seca e desumaniza as pessoas e tudo vira biologia pura.

De repente, aquele pai, que ao lado da mulher, era capaz de ficar dias sem comer, só para alimentar os filhos, não teve forças para continuar provendo o lar, e um a um, foi entregando-os para o primeiro que passasse em sua porta, ficando ao seu lado apenas o primogênito, que também não lamentou a partida dos irmãos, embora percebesse o olhar de aflição e desespero dos mais pequenos que buscavam o semblante do pai, sem saber que nunca mais o veriam.

Maria Imaculada Santiago tinha oito anos  quando foi adotada por uma família que estava de viagem marcada para a região dos seringais na cidade de Guajará-Mirim. Imaculada não chorou como os demais irmãos, com tão pouca idade, já incorporara o espírito que transforma todo sertanejo em um forte.

Imaculada,  já acostumada às viagens e itinerários desde o útero materno, não estranhou dias e dias perambulando nas estradas e rios até chegar a Porto Velho. Embarcaram no trem no início da manhã, conforme foi orientado na estação, Ramiro Bastos desembarcaria em Vila Murtinho, com a esposa, cinco filhos e Imaculada. Se estava indo para Guajará-Mirim para trabalhar nos seringais, Vila Murtinho era o local ideal, os seringais que serpenteavam a nascente do Rio Madeira e a Estrada de Ferro Madeira Mamoré eram os mais produtivos de toda a região, perdendo em produtividades somente para as áreas gomíferas  da região do Acre.

Ramiro trouxe poucas economias, dava para ele e a família alimentarem-se por poucos dias. Homem acostumado à lida diária, encontrou serviço fácil nas terras do seringalista Sebastião João Clímaco, que além de seus imensos seringais e castanhais, mantinha lavouras imensas nas várzeas do Madeira, destinada a alimentar homens e animais de suas propriedades.

Sebastião demarcou uma área plantada com milho, feijão e mandioca e determinou que Ramiro e os seus dois filhos maiores tomassem conta da produção, além de ajudar a manter bem alimentados centenas de porcos que ficavam em uma pocilga nas cercanias de sua casa grande. A família de Ramiro se alojou temporariamente em uma escola abandonada, depois um nordestino conhecido por Severino Inácio,  que simpatizara com Ramiro, ofereceu-lhe um pequeno casebre para que alojasse a família.

Quando tinha tempo, Ramiro e os dois filhos mais velhos acompanhavam Severino nas estradas de seringas, sangrando as árvores no início da manhã e colhendo o látex no período da tarde. Em pouco tempo, Ramiro e os filhos já dominavam com maestria a arte de cortar seringa. Sebastião, então, designou a Colocação do Cachimbo para que Ramiro e família fossem trabalhar.

Os filhos e Imaculada cresceram nesta colocação. Anos depois, a família voltou para residir em Vila Murtinho, Ramiro,  em sua sapiência de matuto, não queria que os filhos ficassem sem estudo e providenciou a matrícula de todos na Escola do lugar. Imaculada, agora com quinze anos, enamorou-se de um boliviano que trabalhava na propriedade da família Suarez, localizada no lado boliviano, defronte a Vila Murtinho.

Em uma noite de lua cheia e sem que a família soubesse, Imaculada pulou a janela de sua casa e atravessou o Rio Madeira em uma chalupa em companhia do boliviano, embrenharam-se pelo seringal em direção à Vila Bela. Anos depois, já com quatro filhos, Imaculada e o esposo, abandonaram os seringais na Bolívia e foram pedir emprego em Vila Murtinho nos seringais do Sebastião Clímaco.

O empreendedor ofereceu-lhes serviço nas suas lavouras. No seringal, Sebastião já não necessitava tanto de mão de obra, principalmente, depois que os Mura deram uma trégua nas matanças constantes de seringueiros. A família de Imaculada aceitou o serviço e passou a residir em uma das inúmeras casas fabricadas de barro que Sebastião mantinha em suas propriedades.

Imaculada nunca se esqueceu de sua família em Minas Gerais, mas, também não maldizia a sorte, era muito feliz em Vila Murtinho. Em uma manhã de domingo, Imaculada e os filhos foram à estação ferroviária olhar o embarque e desembarque de mercadorias e passageiros. Sentados do outro lado da estação, na calçada da Igreja de Santa Terezinha, Imaculada viu uma mulher descer do trem com algumas trouxas e três crianças  bem pequenas.

Percebeu que o grupo estava sem destino e resolveu ajudar. Aproximou-se da mulher, ainda jovem, e ofereceu ajuda, a visitante, um pouco atônita, disse que estava vindo dos seringais do Rio Caltário, na região do Rio Guaporé, tinha ficado viúva e o patrão, dono do seringal, a expulsara juntamente com as crianças.

Identificou-se como Perpétua Santiago, e tinha vindo há muitos anos de Minas Gerias com uma família para esta região da Amazônia. Imaculada, percebendo a coincidência de histórias e sobrenomes, disse que também era do mesmo Estado e que seu nome era Imaculada Santiago. A cada palavra e gesto, as histórias das mulheres foram se cruzando, até finalmente, compreenderem que eram as irmãs que haviam sido doadas por um pai em desespero.

Foram dias de festas, Imaculada e Perpétua agradeciam a Deus todos os dias pela feliz coincidência, em um fim de mundo desses, foi possível reatar o nó que as unia, os laços de sangue. O esposo de Imaculada aceitou de bom grado que sua cunhada e os filhos viessem morar em sua residência.

Perpétua era bem mais nova que a irmã, mesmo com um ar de tristeza que lhe impregnava a face, era possível perceber sua beleza e seus encantos que deixaram o esposo da irmã enfeitiçado. Francisco Guacarane e Perpétua não resistiram a paixão e passaram a se encontrar todas as noites nas várzeas do Rio Madeira ou nas lavouras que serpenteavam Vila Murtinho.

Numa manhã de domingo, Imaculada que ainda não desconfiava do enlace do esposa e a irmã, não quis acreditar quando Francisco e Perpétua a chamaram na cozinha da casa e anunciaram o romance. Por alguns  minutos, Imaculada pensou que estava sonhando ou tendo visões, mas, a realidade lançou-lhe à queima-roupa a cruel verdade que a fez chorar de ódio e de desespero.

Não teve tempo de maldizer a sorte e nem de arrancar as tripas do esposo e da irmã, porque Francisco lhe disse que não a queria mais e que Imaculada teria pouco tempo para deixar a casa com as crianças. Em silêncio, a esposa abandonada arrumou as poucas roupas que ela e as crianças tinham, colocou em uma mala e olhando mais uma vez para o casal, deixou a casa e caminhou em direção à estação ferroviária com as crianças.

Dilacerada e resignada embarcou no trem com destino a Guajará-Mirim. Nunca mais voltou em Vila Murtinho e nem reviu a irmã e o ex-marido. Imaculada não mais se casou. Trabalhou duro e conseguiu criar os filhos. Anos depois, o seu filho mais velho repetiu o seu drama, largou a esposa e duas crianças e fugiu com a cunhada para os seringais localizados às margens do Beni,  na Bolívia.

Autor – Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

“Quem conta um conto aumenta um ponto”

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