Porto Velho (RO) terça-feira, 14 de julho de 2020
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A mãe que embala a ferrovia


A mãe que embala a ferrovia - Gente de Opinião

Simon O. dos Santos
 

Quando desembarcou na estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré na Colônia Agrícola do IATA em meados da década de 1960, Francisco Aquino, um cearense que vivera muitos anos em São Paulo, estava a procura da família que desembarcara na mesma estação alguns anos antes. Soube por um desses informantes que adoram prosear em locais públicos, que sua família residia na primeira Linha do IATA.

Francisco estava acompanhado do único filho e esposa, mulher alta, branca, certamente era a mulher mais bonita que os mocorongas do lugar viram pisar naquele fim de mundo. Celeste foi assunto durante vários dias na estação, nos botecos e até nas estradas dos seringais se ouviu falar de sua beleza rósea e de seus olhos negros como caroços de tucumã.

O trio carregava apenas três pequenas malas, desceram as escadarias da estação e seguiram em direção a um carroceiro que dormitava em baixo de uma velha mangueira, enquanto seu incansável burro comia as últimas frutas da estação. José Guilherme era o seu nome, mas, todos do lugar o chamavam de Zeguilherme, um paraibano alto, com ares de aristocrata que falava com desenvoltura sobre assuntos que iam do Tratado de Petrópolis ao suicídio de Getúlio Vargas.

Naquele fim de mundo, essas estórias eram certamente coisas de quem não era bem certo do juízo. O mundo era pequeno demais para tanta informação e cabia dentro de uma tigela que os seringueiros usavam para apanhar o látex que escorria das entranhas das seringueiras. Aquele homem conhecia o pai de Francisco e, prontamente se ofereceu para levá-los antes que a noite tornasse aquele lugar menor ainda.

Valdomiro já dormia com a esposa quando acordou pelo barulho ensurdecedor de sua matilha que desceu o caminho em direção ao tropel que se aproximava do portão. O burro acostumado com as agruras do destino ignorou os latidos e uivos dos cachorros magros e esfomeados. Zeguilherme acendeu lentamente seu cigarro de palha e olhando para a escuridão disse, “ É aqui que seu pai se esconde - e emendou - num fim de mundo desses ninguém mora, se encanta”.

Nessa noite ninguém mais dormiu naquela casa iluminada pelas velhas lamparinas fumarentas e pela alegria de uma mãe que acolhe o filho muitos anos depois. Francisco disse aos pais que deixou São Paulo porque a esposa queria conhecer a Amazônia e as árvores que davam leite. Celeste jamais imaginou que deixaria enterrado em um cemitério nos confins da Amazônia, o único filho que pudera gerar.

Francisco trazia algumas economias, e rapidamente comprou um pequeno pedaço de terra nas proximidades da propriedade do pai. Trabalhou duro e aprendeu com o pai a cortar seringa e caçar paca nas noites escuras de verão. Alguns dias depois, Celeste perguntou ao marido o que fariam para que o pequeno José continuasse seus estudos. Não havia escola nas proximidades, o único local em que José poderia estudar era em uma escola em Guajará-Mirim, distante pouco mais de vinte quilômetros de onde residiam.

A família não sabia que decisão tomar, pois já se habituara ao local e não queria morar naquela cidade, mas, também não desejava que José ficasse burro como eles. Mas, foi justamente José quem apresentou uma solução para o problema, pois também não queria ficar sem estudar. Pediu que seu pai comprasse uma bicicleta que ele iria todos os dias para Guajará-Mirim, sairia bem cedo e antes do entardecer estaria de volta.

Seus pais acharam a idéia do filho meio estapafúrdia, naquele tempo com exceção da ferrovia, havia somente um varador que ligava o IATA a Guajará-Mirim, e tinha sido há muitos anos uma estrada de seringa, ainda era possível vê as seringueiras velhas, exauridas com suas longas cicatrizes secas nos caules. Além do mais, a região era habitada por índios que dominavam toda a área de Guajará-Mirim ao Igarapé Ribeirão.

Francisco foi o mais resistente àquela ideia, mas, Celeste vendo o desejo do filho estampado no rosto ainda adolescente, demoveu o esposo da ideia e finalmente obteve o consentimento para que o filho pudesse estudar em Guajará-Mirim.

A família juntou as últimas economias e embarcou no trem na estação do IATA, com destino a Guajará-Mirim, iriam comprar a tão sonhada bicicleta do filho e aproveitariam a viagem para matricular José na única escola do lugar.

A bicicleta era uma hércules preta, um pouco grande para carregar o frágil corpo do adolescente, mas, José se sentiu o menino mais feliz que havia em todos os seringais da região, naquela noite ele ficou em seu quarto e sonhou que sua bicicleta era tão veloz que o mais ágil dos índios jamais atiraria uma flecha com maior velocidade, e desceu a serra dos Parecis próximo de Guajará-Mirim, ao sabor do vento, rindo da falta de pontaria dos cabocos.

Todos os dias ao amanhecer, José tomava café, colocava a sacola com seus poucos materiais nas costas e seguia para a escola, seus pais já haviam se habituado à viagem diária do filho que nunca chegava em casa depois das três horas da tarde, mesmo quando chovia muito, Zeca chegava com um sorriso no rosto e a cabeça fervilhando com as estórias do professor Salomão Silva.

Naquela tarde friorenta do mês de junho, pouco antes do início das férias, Celeste envolvida com os afazeres domésticos não percebera que o filho ainda não retornara. Já passava das quatro horas da tarde quando a mulher um pouco nervosa foi encontrar Francisco que colhia macaxeira para os porcos que grunhiam no chiqueiro, não se sabe se de fome ou enlouquecidos pela nuvem de mosquitos que infestava o local.

Aparentemente, Francisco demonstrou calma e tranquilizou a esposa que logo o filho estaria de volta, mas, no íntimo, seu coração acelerou os batimentos, apesar da distância José nunca se atrasara. O casal resolveu esperar mais um pouco e nada do filho aparecer, aflitos, rumaram para a casa de Valdomiro e deram a notícia ao velho, que sentado próximo ao fogão de lenha, pitando seu cigarro de palha, percebeu na aflição do filho que a situação era grave.

Imediatamente, avisaram aos vizinhos e uma cabroada de mais ou menos quinze homens armados com espingardas e facões seguiu pela velha estrada de seringa em busca do menino que ainda não chegara. Nunca imaginariam que ao pé da serra, Zeca jazia sem vida e sem as duas pernas cortadas pelos índios.

Em suas viagens diárias, Zeca nunca percebera que sempre ao pé da serra, escondidos, dezenas de índios o observavam todos os dias, impressionados com a força de suas pernas que pedalavam aquele monstrengo negro e esvoaçante. Nessa tarde, os índios resolveram que descobririam o mistério que Zeca carregava nas pernas e ficaram à espreita, bem próximo do ramal, de modo que ao longe veriam o ciclista se aproximar. Tabanã era o caçador mais habilidoso da tribo e fora designado pelo chefe para flechar o menino das pernas mágicas.

Tabanã armou seu arco com uma flecha usada para matar anta, trancou a respiração e soltou aquela lasca de paxiúba pontiaguda, atravessando o tórax de Zeca, derrubando-o já sem vida no sapé que brotava na margem da estrada. Imediatamente, os índios se apossaram de um facão e cortaram na altura dos joelhos as duas pernas do menino e fugiram sem levar mais nada, nem bicicleta e nem os doces que Zeca tinha comprado no mercado para sua mãe.

Já era noite quando o grupo encontrou o corpo frio de Zeca. Quando viu o filho caído ao solo, Francisco ficou petrificado, as lágrimas não vieram e lembrou-se das noites de lua cheia no sertão do Ceará, quando embalava o filho e lhe contava estórias de lobisomens, de mulas-sem-cabeça e dos índios que comiam gente nos confins da Amazônia. Francisco abraçado ao corpo inerte de Zeca entoou a última canção de ninar que cantara na vida, depois subiu a serra dos Parecis e nunca mais foi encontrado, deixando um filho morto e uma esposa que enlouquecera e foi vista pela última vez caminhando pelos trilhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, entoando canções de ninar. Até hoje Celeste é vista caminhando pela ferrovia nas noites de lua cheia nas proximidades do igarapé bananeiras e Francisco mora no alto da serra. Alguns caçadores já o viram sentado com uma espingarda na mão, apontando para o local onde mataram seu filho, a espera que Tabanã volte um dia.

Autor: Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem, membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL e Editor Chefe do site www.portalmamore.com.br
Emails – [email protected] e [email protected]
“Quem conta um conto aumenta um ponto”.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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